lq literatura quadrangular

1 - Ler; 2 - Refletir; 3 - Provocar; 4 - Discutir. Literatura e artes afins.

ALBERTO NANNINI

São-paulino, notívago e bom garfo, adora discutir religião, futebol e política, e acredita que a Literatura, em suas diversas formas, pode causar tanto ou mais enlevamento que rituais religiosos. Seu e-mail de contato é [email protected]

ALGUMA COISA ESTÁ DENTRO DA NOVA ORDEM MUNDIAL

“Eu vejo o futuro repetir o passado/ Eu vejo um museu de grandes novidades...” O que vem acontecendo no Brasil ultimamente, no contexto político-social, desafia qualquer senso. O conto que se segue aventa sobre um futuro próximo (fictício? possível?), e mostra que mesmo os piores prognósticos não surpreendem mais.


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"Maria Clarice acordou zonza. Via as luzes em flashes, por conta das pancadas que levou na cabeça até desmaiar. As mãos, amarradas para trás pelos pulsos, estavam dormentes. Os pés também, atados pelos tornozelos à cadeira, lavada com sua urina.

A sua frente, um homem pálido e mediano a encarava. Pose ereta, segura, como que perfilado. Braços esticados, as mãos unidas e segurando algo diante do corpo.

Ele tinha se inclinado para a prisioneira e dizia algo, mas ela começou a registrar a partir dessa parte: “...dormecida? Já fez naninha? Você vai me dizer agora o que eu quero ouvir, terroristazinha de merda”.

Maria Clarice começou a se lembrar. De como as coisas mudaram rapidamente.

No começo, tudo parecia ir bem. Mesmo as mudanças e reformas que prejudicavam a população pareciam ser “necessárias”. O combate à corrupção parecia surtir algum efeito – embora focalizasse apenas alguns poucos dentre os corruptos. Após as revoltas nas prisões, que começaram no Nordeste e logo atingiram o país todo, já se falava de regime de exceção.

A morte suspeita de um ministro do Judiciário foi uma desculpa para desacelerar e desfigurar o mais importante processo de investigação, que tinha potencial para atingir todos os altos escalões. Contra isso, movimentos populares (unidos pela primeira vez) protestaram; mas foram rechaçados com violência, e seus líderes, presos.

Daí, sob o pretexto de impor uma nova ordem, publicou-se o “Novo Ato Institucional”. Houve quem aplaudisse, como aplaudiram antes a sucessão de eventos que culminou nele.

A tal Nova Ordem permitiu até que alguns milhares se juntassem para festejar, nos principais palcos e avenidas das capitais. Esses mesmos apoiaram a cassação de políticos específicos, e a perseguição e ostracismo forçado de intelectuais e artistas – os contestadores. Estes ataques e outras violações de direito não foram difíceis: apenas aproveitou-se o clima de guerra entre os próprios cidadãos, entrincheirados em suas ideologias que nem faziam muito sentido.

Para o "todo-poderoso mercado", tudo era apenas um efeito colateral. Afinal, como apregoou insistentemente a grande mídia, os juros baixaram, e o desemprego e o dólar também.

Sacrificar a liberdade por isso não pareceu tão caro. Pelo menos, até chegarem diversas restrições – de expressão, de filiação, de protesto. Depois, até de ir e vir, em nome da “segurança”. De quem?

Maria Clarice precisou voltar de suas divagações. O homem pálido (que lhe parece familiar) a está segurando pelos cabelos, babando em seu rosto e gritando que ela ia falar. Deu-lhe uma bofetada no rosto que quase lhe derrubou com cadeira e tudo, e se afastou.

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Funcionou como alguns minutos de “intervalo”. Ela se deu conta que havia mais dois outros homens ali. Eles conversavam. E ela se lembrou de alguns amigos, que já contavam histórias de espancamentos isolados, quando protestavam na rua por suas escolas e transporte, bem antes do Novo A-I.

Mas tudo piorou muito. As instituições não eram seguras, e foi criada a Polícia Judiciária, com poderes excepcionais, cedidos com a conivência do então presidente de fachada. Em franca oposição aos especialistas, que diziam que precisava se unificar as polícias já existentes, criou-se uma extra.

Foi vendida como a solução para uma justiça rápida e eficiente. Rápidos eles eram mesmo: como se fossem “juízes ad hoc”, nomeados da noite para o dia, emitiam em seus tablets seus próprios mandados; sendo assim, podiam fazer o que queriam, a qualquer hora. “RECART: Regime de Exceção para Contenção de Ameaças, Revoluções e Terrorismo”, era o nome oficial; à boca pequena, era "a Gestapo e seus juízes Dredd".

O Judiciário ainda tentou contestar, mas uma nova lei, que caracterizava qualquer procedimento que conviesse como terrorismo, podia punir qualquer um de seus membros com uma espécie de impeachment, e até exoneração e prisão. Quem decidia era o único ministro remanescente do Supremo Tribunal Federal alinhado a este projeto, que foi nomeado “superministro”. Foi ele, aliás, que dissolveu o restante do STF, exonerando seus ex-colegas e nomeando ministros de fachada – após uma providencial emenda à Constituição, que permitiu tudo aquilo.

As pessoas desiludiram-se da justiça, que foi sucateada e esvaziada. Toda a Justiça do Trabalho foi extinta em uma só canetada; mais da metade dos servidores das outras justiças e de outros cargos, como professores, foram demitidos.

Então, as pessoas começaram a sumir. Sem motivo aparente, com nada em comum, a não ser terem defendido, em algum dia, ideais já enterrados e semi-decompostos.

Maria Clarice, a esta altura, infelizmente está bem desperta e já sabe o que lhe aconteceu. Ela “sumiu” – está nas mãos do “Último Poder”, como se chamam não tão veladamente os membros da nova ordem. O poder contra o qual não cabem recursos ou apelações.

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Ela estava em uma grande câmara, úmida e fétida, sem nenhuma janela, e com dois pontos de luz: uma lâmpada a sua frente, e outra, em um aparelho sobre uma mesa, no qual um dos homens, sentado adiante, estava mexendo. Aquela lâmpada, uma das antigas incandescentes, oscila a luminosidade, diminuindo quando cresce um barulho de estática.

O homem pálido voltou. Ela procurava na memória: olhos azuis, cabelo liso cinza, penteado de lado e já rareando. Político? Militar? Ele falou de novo:

“Maria Clarice... Choram marias e clarices, não é algo assim? Acho que vai ser sua música. Você diz que não sabe onde estão seus colegas de resistência... Mas vai me entregá-los”.

Resistência? Que resistência? Não havia isso. A não ser que postar textões indignados nas redes sociais e conversar sobre o absurdo que tudo tinha virado, enquanto muitos fingiam gostar das novas regras, fosse resistir.

Ela olha o outro homem, um pouco atrás. Ele é enorme, e tem um tipo de bastão nas mãos, grosso como um braço. Talvez um cano.

Aquele que parece familiar diz alguma coisa para ele, e os dois riem. O terceiro também fala algo, tira uns óculos de segurança e vira a cadeira para olhá-los.

O grisalho fala: “Olha, Maria Clarice, gostei de você. Vou te dar uma opção. Você diz que não sabe, ok. Mas estamos aqui, e precisamos ter o que relatar. Então, vai ser assim, você que vai escolher.”

O louco continua: “Ou eu vou usar meu Alicate Ustra em você, e arrancar seus dentes brancos e essas suas unhas bonitas... ou “camarada Lenin” (os três riem) aqui (o gigante) vai explorar profundamente até o "pré-sal" de algumas partes suas... ou o "camarada Che" ali (mais risos) vai te iluminar que nem uma árvore de natal... Ou...

O suspense é proposital, e Maria Clarice está de respiração presa desde que o homem começou a falar. Ele se delicia com a agonia dela, que parece infinita – “Ou...”

...- Ou um de nós três vai dar uma cusparada bem dada no meio da sua cara.

Parecia haver um ar de zombaria, enquanto ela fez uma careta de surpresa. Claro que devia haver alguma coisa. Ela se lembrou do filme “O Labirinto do Fauno”, onde um gago tem a promessa de não ser torturado, desde que conte até três sem gaguejar.

Mas os três estão sérios. Nenhum riu.

Ela pergunta: "P-posso escolher?"

- Sim.

- Vão me deixar ir?

- Depois da escolha e do cumprimento dela, sim.

Ela morde o próprio lábio por dentro, e dói, porque está todo cortado e rachado.

“Escolho a c-c-cus-cusparada”, ela geme.

- Ah, sábia decisão. Lenin, por favor, faça as honras.

O gigante se aproxima. Abaixa ao nível dela, faz um pequeno movimento de cabeça para trás, e lhe cospe no meio dos olhos, quase antes dela conseguir fechá-los.

A baba imunda lhe escorre e se mistura às suas lágrimas.

- P-posso ir?

- Positivo! Lenin, desamarre a cidadã.

Ele a desamarra. Então, o sangue voltando a circular em suas mãos lhe traz uma dor lancinante. Parece tê-las mergulhado em um balde em chamas.

Seus pés não se movem a seu comando, mesmo libertos. Quase dois minutos excruciantes depois, ela consegue sair da cadeira, alquebrada.

Ai então, os três explodem em gargalhadas.

O grisalho diz, pegando fôlego: "Sério que você acreditou?" (gargalhadas até se contorcer) "Achou mesmo que uma cuspidinha bastaria? Era “pegadinha”, querida. Mas, já que você tinha que sair da cadeira pra gente trabalhar, por que não com alguma esperança?"

O Grisalho se aproxima, com um rolo de fita grossa numa mão e o alicate na outra, que ele abre e fecha, fazendo um tec-tec-tec metálico. O “Che” se aproxima com o tal aparelho do qual pendem quatro fios com presilhas tipo “jacaré”, e o gigante já arriou as próprias calças, e segura um cano bem grosso numa mão e uma gaiola com uma ratazana enorme na outra.

Eles são experientes e conseguem agir em perfeita sequência, como numa linha de produção."

*******

A obra acima é uma ficção, exceto pelos trechos já confirmados ou em vias de se confirmar, e por todas as partes de dor – infinita e indescritível.


ALBERTO NANNINI

São-paulino, notívago e bom garfo, adora discutir religião, futebol e política, e acredita que a Literatura, em suas diversas formas, pode causar tanto ou mais enlevamento que rituais religiosos. Seu e-mail de contato é [email protected]
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