lq literatura quadrangular

1 - Ler; 2 - Refletir; 3 - Provocar; 4 - Discutir. Literatura e artes afins.

ALBERTO NANNINI

São-paulino, notívago e bom garfo, adora discutir religião, futebol e política, e acredita que a Literatura, em suas diversas formas, pode causar tanto ou mais enlevamento que rituais religiosos. Seu e-mail de contato é [email protected]

Under Pressure

Um conto sobre pressão e punições autoinflingidas, e sobre vozes internas e externas oferecendo alívio e entendimento.


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Por que todo mundo precisava culpá-la o tempo todo? A mãe, o ex-namorado, as amigas, o ficante e até os vizinhos. E agora, o idiota do chefe, fingindo estar surpreso quando ela disse, em tom normal [berrando e aos prantos ] que tudo aquilo era porque ele não gostava do trabalho dela.

Ele a dispensou para que fosse para casa se recompor. Conversariam no dia seguinte. Mas, para ela, era porque a máscara tinha caído: sabia muito bem o que todos achavam dela. Na verdade, suspeitava ter algum dom de clarividência: ninguém conseguia lhe esconder nada.

Na portaria do escritório, evitava olhar as pessoas para que não a vissem chorar, e buscava o celular para chamar um transporte. Lembrou-se então que o terapeuta pediu para ela não utilizar o aplicativo sempre, e também andar de ônibus, para um duplo efeito: mudar a rotina e ver gente com tantos problemas quanto (o que ela duvidava), e para dar um alívio nas combalidas faturas do cartão de crédito. Não que ela comprasse coisas demais [era compulsiva ], mas só para ter maior controle.

Duplo efeito! Aquele verme estava era pensando nele! Que ela tivesse sempre dinheiro para pagá-lo, isso sim, mesmo que precisasse se sujeitar a pegar ônibus. Já sentada dentro do coletivo meio vazio, ligava para o terapeuta. Óbvio que ele não atendia a porcaria do telefone. Francamente, gastar o que ela gastava e não poder acessá-lo quando realmente precisava... O merdinha sem coração devia estar se masturbando com as gravações das conversas das clientes [brincava em um parque com os filhos ].

Se pelo menos o mundo a entendesse! Tentando enxugar os olhos, melecou as mãos de rímel. Apesar de ter a habilidade de se queixar simultaneamente a uma série de outros afazeres, aqueles segundos buscando um lenço dentro da bolsa caríssima desligaram um pouco a ladainha, e ela ouviu, atrás de si, um fragmento de conversa. Um rapaz dizia para uma mocinha: “Isso é o que a mente cria para conseguir lidar com algo que ela não entende”.

Ela limpou as mãos de forma automática, e demorou uma fração de segundo, como se sua mente estivesse rodando um novo programa; daí, foi como um “tuím” que lhe despertou, ao ponto dela precisar até se levantar. Sem se dar conta, desceu junto a outras pessoas num ponto bem antes do seu. Um fluxo de pensamento colossal precisava ser dito e extravasado, ou sua cabeça explodiria e aquela montanha de palavras flutuaria por ali, desconexas.

Nada a perder

Sentou-se ao lado de uma mendiga, recostada a um pilar do viaduto Minhocão. Antes que começasse a falar, a mulher sacou uma garrafa térmica, pegou uma caneca esmaltada surpreendentemente limpa, encheu e lhe deu. Ela provou – era delicioso! Chocolate quente com conhaque e especiarias. Bebericando de quando em quando, desatou a falar: sobre si própria, sobre como vencera, vinda de baixo, e de como todos queriam deixá-la paralisada em culpa – não só pelas falhas, mas também e principalmente pelos acertos. Ela dizia a sua interlocutora que não era fácil que aceitassem que uma mulher, com sua origem, sua cor, sua idade, tivesse chegado aonde chegou, sem prejudicar ninguém nem se valer de nenhum subterfúgio, e ainda tivesse intensa vida social [não tinha; era uma workaholic ].

Falou e falou e falou mais. Que elas duas ali eram irmãs, não só pela cor, mas pela discriminação geral. Que não era definida pelos Loubotins ou por sua maquiagem Lancôme, nem tampouco pela sua culpa. Eles sempre quiseram deixá-la por baixo, soterrada por remorsos de trinta anos atrás – como aquele aborto, aos 18 anos. Por isso, sem filhos até hoje, talvez como autopunição, ela aventou. E seguia falando - tudo criado por eles para lidarem com o que não entendiam: ela. Para puni-la. Eles todos queriam que ela carregasse tudo o que fez e o que não fez, e ela tinha finalmente entendido que esse arranjo a fazia criar mais e mais culpas – era como ela lidava com o fato de não a acharem boa o suficiente para estar onde estava [quase todos admiravam sua trajetória, embora não gostassem do fato dela não assumir erros ].

Durou mais de hora o monólogo interminável. A mendiga parecia entender bem pouco (especialmente as menções às marcas que ela jamais consumiria). Numa rara pausa, ela deu sua voz a conhecer pela primeira vez, e disse: “Não tem ‘eles’. É tudo sempre só você, sozinha”.

Silenciou. Novo “tuím” na cabeça. Novo reinício de sistema. Ela tinha que refletir. Não tem eles. Tá. Beleza. Tipo Matrix. Não há colher. Isso significa então que tudo que eu pensei até agora precisa ser revisto. Sozinha eu sempre fui, mas se não foram eles que criaram, então... só pode ter sido eu mesma.

Percebeu a ‘irmã’ se levantar, e, ao ver o olhar dela para seus sapatos, os descalçou e entregou. Ainda naquela manhã, era obcecada por sequer arranhá-los; agora, se desfazia deles, como quem se livra de peso inútil.

Sentiu uma onda de alívio com o gesto. Sem eles, sem peso, sem... Ia continuar nesse raciocínio, quando notou a mendiga se apressando em ir embora. Virou-se e viu se aproximar pelo lado oposto um homem de barba e tatuado até o pescoço. Ele chegou e falou: “Tá perdida, né, madame? Veio atrás de bagulho? Eu tenho. Cê qué pedra? Qué farinha?”

Ela olhou-o com irritação, por interrompê-la. Ele se sentiu desafiado, pois estava acostumado a intimidar. Agachou-se e agarrou-lhe os dois pulsos; foi colocando-os para cima e para trás, enquanto se inclinava sobre ela, já com um joelho no chão. Sussurrava de maneira nojenta algo sobre dar uma lição, quando ela olhou bem dentro dos olhos dele, e disse, com um sorriso: “Não há nada que você possa tirar de mim”.

Aquilo era um tipo de “homem” [bem entre aspas ] que só funcionava com pleno domínio e sobre vítimas aterrorizadas. Ele buscou com algum desespero uma saída, perceber talvez um blefe – mas não havia. Ela sustentou o olhar, o queixo erguido e o meio sorriso, desafiante. Ele a largou, xingando-a de puta [típico ]. Por fim, afastou-se conversando com os próprios demônios, dizendo que depois esfaqueava uma dessas, aí diriam que era ele o errado.

Reprogramar

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Ela mal registrou o perigo ou a façanha; foi como se apenas tivesse se livrado de um pequeno incômodo. Continuou suas reflexões, levantou e começou a caminhada para casa, descalça. Estava bem ocupada: revia todas suas ações e gestos por uma nova perspectiva, que não anulava tudo aquilo que acreditava, mas sim, expandia e dava maior coerência ao balaio de gatos que era sua cabeça até poucas horas atrás. Grandes ensinamentos se lhe insinuavam.

No caminho, viu um garoto obstruindo a passagem, olhando para sua bolsa. Tirou o celular último tipo e lhe ofereceu. Adivinhou que ele hesitava por achar que devia levar a bolsa também. Olhou para ele nos olhos e disse: “Vai embora, ela não vai gostar de saber que você fez isso.”

O rapaz entreabriu a boca e ficou como que congelado. Parecia assustado como um ratinho jogado num covil de cobras. Quando recobrou o controle motor, evaporou-se. Isso a deixou entregue novamente a pensamentos de seus superpoderes clarividentes. Eram bastante lisonjeiros, mas, por tabela, a inclinava perigosamente no mesmo abismo fantasioso de sempre. Daí, leu na parede uma pichação: “Não há nada de novo embaixo do sol”.

Nessa hora, o “tuím” lhe pareceu uma pontada de enxaqueca e a irritou um pouco. Jogou a cabeça para trás, e, com as mãos um pouco distantes do corpo e espalmadas para cima, questionava silenciosamente os céus: “Mas que caralhos adianta também eu ficar recebendo revelações de hora em hora? Fica difícil reter alguma coisa assim, né!”. Umas três respiradas fundas e se recolocou a caminho. Uma estranha calma se apossou dela, e tudo fluía.

Tá. Sem clarividência. O chute foi bom, e o garoto tinha alguém que ele não queria decepcionar: a mãe, uma avó ou tia. Dentro das probabilidades. Eu sou normal. As pessoas são normais. Cada um defendendo o seu, e buscando o que é prazeroso, útil ou necessário. Ou qualquer combinação deles.

Ela não pensava mais apenas em si, e a ladainha de culpa tinha cessado. Divagou, imaginando se conseguiria repetir esta experiência que a teria deixado em pânico ontem: chegou a conclusão que não. Por algum motivo, estava receptiva àqueles ensinamentos naquele dia. Talvez até demais. Mas ia desligar seu perfeccionismo e parar de cobrar a si e aos outros. Assumir os erros. Afinal, tudo bem, todo mundo erra o tempo todo, né. Sorriu: se pudesse comercializar isso, fazer as pessoas brigarem com o chefe, conversarem com um desconhecido, enfrentarem um possível estuprador e um ladrão, perderem milhares de reais em bens e nem ligarem, e nesse meio tempo, receberem uns trezentos insights, ficaria bilionária.

Chegou ao prédio em que morava, passou o porteiro dorminhoco, sujou todo o hall de mármore com os pés imundos. Subiu o elevador cantarolando Queen, sem se dar conta da escolha perfeita de trilha sonora. Entrou no apartamento, fechou a porta atrás de si, foi até o lavabo. No espelho, seus olhos borrados pareciam uma maquiagem proposital. Uma mensageira do caos. Daí, foi como se alguém etéreo viesse ao seu ouvido para lhe falar, mas não parasse; continuasse, até este rosto fantasmagórico lhe passar a orelha e a lateral do crânio e parasse com a "boca" bem no meio da cabeça dela. E então, falasse, com uma voz clara, calma e solene, que reverberava e reorganizava tudo: “Se todo mundo é culpado, então a culpa não é nada demais”.


ALBERTO NANNINI

São-paulino, notívago e bom garfo, adora discutir religião, futebol e política, e acredita que a Literatura, em suas diversas formas, pode causar tanto ou mais enlevamento que rituais religiosos. Seu e-mail de contato é [email protected]
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