luciana landim

Devaneiador

LUCIANA LANDIM

A atenção das coisas que não estão lá

Quando o uso da tecnologia passa a disputar atenção com a vida offline, o que é prioridade e o que pode esperar? Será que estamos deixando pra segundo plano as nossas relações mais caras?


Tem tantas coisas acontecendo nesse mundo, que a gente chega até ficar extasiada com tanta informação que circula. Tanta coisa pra dar atenção, pra ter opinião, pra dizer, pra gritar. A causa chama, e vamos lá, bradando nossas bandeiras virtuais, exclamando que concordamos ou não, e entramos num ciclo, até a próxima polêmica, até a próxima crise. Incansável.

Da defesa do partido, ao absurdo mais recente cometido por um ser humano qualquer, do político mais corrupto até o ato de amor mais fofo, somos atropelados todos os dias por algo que clama pela nossa atenção. E hoje quando eu abri os olhos pela manhã, e a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi conferir as notificações do meu celular eu tive um estralo.

Algo está muito errado comigo, e talvez com você também. Lembra quando a gente acordava e pensava se estava chovendo, lembrava do sonho que tinha tido, imaginava o que ia vestir e o que ia comer no café da manhã? Onde é que isso foi parar? Eu me pergunto atônita. Estávamos lá, eu e meu marido deitados na cama, como zumbis, olhando nossos celulares, alheios a presença um do outro, ao vento fresco do ventilador, ao sol que despertava lá fora, ao barulho da rua, a temperatura do tempo. Eu e ele, olhos colados nas notificações "tão importantes" do celular, nos desconectando de sermos pessoas num mesmo comodo dividindo um momento.

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Longe de mim ser contra a tecnologia, eu a amo, e acho que ela facilita nossas vidas. Mas pensa um pouco se a gente tá fazendo isso certo, sabe? Será que nossa relação com um aparelho pode ser mais forte que a relação entre as pessoas? É contraditório, eu sei. Tecnologias conectam pessoas, nos fazem lembrar de aniversários, nos aproximam de quem tá distante. Mas a sensação que tenho é que estamos nos conectando com quem tá atrás na fila de prioridades, e perdendo o contato com as primeiras pessoas que demandam nossa atenção. Aquelas que precisam do nosso olhar solicito e dos nossos ouvidos atentos.

Só pra te contar como a coisa está ficando esquizofrênica, dia desses me colocaram num grupo do colégio, tempos áureos da quinta série. Pessoas que provavelmente a uns 6 anos atrás não fariam (e desculpe-me, não fazem) a menor diferença na minha vida, muito menos eu na delas. Pessoas que estão vivendo suas vidas no seu contexto próprio e que não mantém mais nenhum vínculo comigo. Eu me sentia uma verdadeira E.T. achando tudo muito chato e vendo toda aquela euforia de todos por ter contato com pessoas que não fazem mais nenhum sentido.

Enquanto eles estavam eufóricos no grupo, saí pra bater um papo com amigos, e comentava com eles o fato. Mas parece que as atenções de todos nós de alguma forma estão com essas pessoas, com esses grupos de gente distante, de colegas de trabalho, de gente que um dia foi importante.

É só você parar pra pensar qual foi a última vez que ligou pra alguém querido, que disse pra essas pessoas que elas importam, que deixou o telefone na bolsa enquanto alguém contava uma história ou compartilhava algo.

Qual foi a última vez que você prestou 100% atenção, sem checar as notificações do celular, nem que fosse por um minuto? Quando deixou o celular em casa? Ou desligou a internet?

Talvez esteja na hora de avaliarmos nossa fila de prioridades e pararmos de atender os últimos antes dos primeiros. Pois estamos todos a mercê da atenção dos outros e ela está se esvaindo por entre nossos dedos.


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