luciana landim

Devaneiador

LUCIANA LANDIM

A dor e a delícia de viver em SP

São Paulo, SP - a cidade chama e eu respondo. São Paulo e suas lições sobre a vida, o espaço e o tempo.

É sexta feira, seis da tarde, e embora seu peito se encha de alegria e esperança, o cheiro e o barulho do trânsito compõem essa música maluca, que entoa São Paulo. Essa que é a minha cidade há dez anos.

Veja, eu nunca fui uma mineira convicta. Achava minha cidade um tanto pacata, boba, pequeno burguesa. E olhava São Paulo com certa inveja de quem aqui nasceu. Porque né? Era A cidade. Essa coisa meio metrópole, mas cheia de bairrismos, ruazinhas, vilinhas..cheia de gente, de shows, de cultura, de pessoas de todos os lugares, de comidas de todos os países.

São Paulo era o meu mar. Enquanto minha cidade era só deserto.

Quando eu me mudei, tudo era novidade: o metrô, o ônibus, a rua 25 de Março, o centro, a Av. Paulista. Aquelas eram minhas primeiras impressões da cidade que não dorme, que não para. Mal sabia eu de quanto ainda existia (e existe) pra descobrir.

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Desde o trânsito que pode te surpreender numa terça feira de manhã, em que você leva 30 minutos pra chegar, quando nos dias corriqueiros leva 60. Ou uma chuva que complica a cidade inteira e paralisa todo mundo, com medo dela, a chuva, e dos contratempos que vem com ela.

O tempo é sempre um amigo sacana em São Paulo. Ele ora anda a cavalo, ora para. Principalmente se você estiver no meio da marginal, indo pra qualquer lugar. E tem dia que chove e venta, esquenta e transpira, esfria e garoa. Tem dias que sol, tem dias que cinza ela segue nos abençoando.

Um pulsar ritmado que nos leva a seguir as horas atrasados, empilhados no trem, no metrô. Segurando no busão, gritando com o cobrador. Isso me faz lembrar das coisas que só se fala aqui, como "Mano, hoje tá tenso" ou "Motorista, vai desceeeeer".

Assim como ouvi, mais do que em qualquer outra cidade, as verdadeiras gentilezas que esses paulistas nos proporcionam. Os obrigados, e por favores de um mês de SP, equivalem a uma vida vivendo em minha cidade. A maneira como eles orientam os de fora, mostrando um caminho, um atalho, um "me segue". Sempre gentis, sempre com pressa, sempre correndo para algo ou alguém que espera, do outro lado. Foram tantas as vezes que perdida eu pedia ajuda e recebia, que na moral, só tenho a agradecer.

Eles geralmente nem se acham tão educados assim. Mas vai por mim. O pessoal daqui é massa.

Comer é o sobrenome do paulistano. Seus restaurantes, barzinhos e "pé sujo" como se chamam, são os lugares onde você irá comer as comidas mais honestas da vida. Um sanduba, um virado a paulista, um parmegianna. Essas coisas daqui. Uma padoca que serve almoço e janta. Cappuccino e "minas quente" na padaria fancy da Dona Deola.

E as vezes você vai topar com umas interessâncias que são só dela. Um food truck no meio do nada, um restaurante japonês 24 horas (??) ou quase. Vai se pegar rindo de madrugada tomando um chocolate quente perto da Paulista. Vai amar o Ibira, o Vila Lobos, e Parque do Povo, e vai sonhar ter um cachorro pra se juntar aquele povo alegre e feliz correndo pelos parques num sábado de manhã.

Aqui conheci feiras de rua de todos os tipos: das assépticas e arrumadinhas da Pompéia, as orgânicas do parque da Água Branca, até a honesta do Jardim Alvorada, meu bairro. E os hortifruttis opulentos, com frutas impecáveis e inimagináveis. Vai por mim, eu nem sabia que existia uma parada chamada Phisallis (!).

Também foi aqui que percebi o quanto sou pobre, ao entrar no Shopping JK, ou passar perto do Cidade Jardim, e quando achei um Shopping pra chamar de meu quando conheci o Eldorado - grande, espaçoso e democrático. copia-eu-coracao-sp-b643d26bc40b64e729cb152db55db609-1024-1024.jpeg

Me encantei e me encanto pela Zona Leste da cidade, ou ZL como a gente chama, pelas suas ruas largas e suas milhares de opções de lazer. Afinal cada bairro ou zona tem sua identidade, um lugar bacana, um parque, um SESC pra assistir um show.

A Zona Oeste boêmia, a Zona Norte trabalhadora e a Zona Sul misturada, barulhenta e engarrafada.

Cada pedaço de São Paulo me conta uma história, e as vezes essas histórias se misturam com as minhas e eu já nem sei mais onde eu sou mais mineira ou mais paulista. Mas sei que continuo apaixonada pela paulicéia desvairada, mesmo que eu não viva tudo que a cidade oferece, mesmo que eu não tenha dinheiro ou disposição, acho que como dizia o poeta, lar é onde o coração está.

E contrariando o Criolo, sim, existe sim amor em SP, principalmente por SP.


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