luciana landim

Devaneiador

LUCIANA LANDIM

Aos 30...

Se você chegou ou está chegando aos 30 com a sensação de que tá faltando muita coisa pra cumprir a cartilha do que te prometeram, fique tranquilo, você não está sozinho. O desespero é coletivo.


“Aos 30 eu já deveria estar com casa comprada, carro quitado, nadando em dinheiro”. “Aos 30 eu já deveria saber o que fazer da minha vida”. “Aos 30 eu já tinha que ter diploma, MBA, pós graduação”. “Aos 30 eu já terei viajado o mundo. ”

Pode falar a verdade, ou você já ouviu alguém dizendo isso nos últimos meses, ou foi você mesmo a pronunciar tais sentenças. E sabe porque? Nos venderam o mundo errado. Veja bem, ninguém nos prometeu isso por mal. Ninguém quis nos iludir.

Tudo ia tão bem, a economia estava crescendo, o tempo difícil da nossa infância estava passando e aí, quem tava na frente podia prever que pra nós ia dar tudo certo. Não tinha como errar. E veja, a comparação era no mínimo aceitável, afinal, na minha idade, minha mãe já estava no segundo filho. O mínimo que ela podia esperar de mim é que aos 30 eu estivesse dançando na graça e satisfação de uma vida sem dificuldades.

Porque oras, nossa vida tava mais fácil. A gente tinha bons brinquedos, finais de semana no clube em família, tudo do bom e do melhor. Pra englobar mais gente, a maioria de nós não estava passando fome né, longe disso. Estudamos em boas escolas (públicas e particulares), tínhamos amigos legais, íamos a festinhas regadas a muito bolo e guaraná, aprendemos rápido a usar o videogame e a internet, nem se fala. Eramos a geração das grandes criações tecnológicas e o mundo parecia se abrir como um grande leque de opções.

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Viajar, morar fora, mudar de cidade. Tudo isso era não só possível, como viável. 10 vezes divididos no cartão, no boleto, nas casas Bahia. Dava pra ir, e a gente foi.

Mas o que dizer agora que tudo parece tão real? Aos 30, todas essas promessas se esvaíram, sumiram como pó. O aconchego de um futuro brilhante, foi substituído pelas dívidas que criamos. O sabor doce de uma gelada com os amigos, substituídos por crises financeiras que começam a deixar todo mundo cansado, cansado em demasia.

Nosso trabalho é nosso ganha pão, nossa vida, nosso stress. A maior parte de nós ou tá trabalhando muito pra conseguir ou trabalhando muito pra não perder o tão difícil e sonhado emprego “dos sonhos”. Emprego esse que só trouxe mais dependência de um sistema, de uma vida sem finais de semana no clube, sem gracinhas além da conta.

Assumimos muito rapidamente uma vida independente pra ganhar uma mera liberdade, que nos custa caro, nos custa o nosso tempo. Dizem por aí, que se trabalharmos muito agora, economizarmos e tal, a gente pode ter uma velhice aceitável. É..aceitável.

Acabaram-se as promessas de grandes sonhos, de mudanças e de realizações. A realidade cai no colo. E veja bem, ela tem dessas coisas. Não quero parecer pessimista. Toda geração passa por isso, mais ou menos do mesmo jeito. Isso é só uma constatação.

Mal chegamos aqui e já temos que lidar conosco, com nossos pais e nossos avós com a saúde por um fio. Todo mundo se matando pra dar o melhor pra próxima geração. Mas será que isso tá fazendo sentido?

Tá valendo o custo? Não sei mesmo.

É claro que pra nós é fácil perceber quantas coisas boas a gente já tem e conquistou, e quantas outras nos foram dadas de mão beijada pelos nossos pais. Mas confesso que tá difícil entender. Falta tempo, falta disposição, vamos nos consumindo um pouco através de redes que não são nem de longe sociais. Há uma sensação de dissociação de nós mesmos e de distanciamento que preocupa.

E seguimos assim, anfitriões da nossa velhice, esperando e trabalhando pra ela chegar.


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