luciana landim

Devaneiador

LUCIANA LANDIM

Fique ao lado de quem está do seu lado

Aprendi a duras penas, que uma amizade se constrói na confiança, na lealdade, na alegria e também na tristeza. Mas você só sabe se tem mesmo um amigo, depois da primeira discussão, da primeira pisada na bola, do primeiro vacilo.


Amizade é uma coisa rara mesmo. Há quem tenha a sorte de compartilhar de muitos amigos, de várias etnias, de várias linhas de pensamento, de diferentes culturas. Mas a maioria de nós vai na contramão. A minha lista de amigos, mesmo, diminui a cada ano. E fica fácil lembrar dos mais velhos dizendo que não tinham (ao final da vida) um número de amigos pra encher uma mão.

Claro que eu achava isso um pouco demais! Pensava que geral tava pirando, que deviam conhecer muita gente chata, ou sei lá o que. Mas aí vinha o colégio e não deixava sobrar ninguém, veio a faculdade e sobraram uns, vieram as empresas e os empregos e pouca gente que valesse a pena foi permanecendo.

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Aí existem essas pessoas, algumas, que continuam nas fotos. Ficaram nos últimos anos e veja você: amaram, brigaram, romperam e voltaram conosco. Alguns rostos com mais frequência, outros com menor. As vezes mais próximos, as vezes mais distantes. Mas são as primeiras em quem eu penso quando quero bater papo, contar uma boa notícia, jogar conversa fora.. essas coisas de dividir o silêncio juntos.

Pra ter isso, esses poucos que me cercam, é preciso refletir sobre quem se é afinal e o que queremos de fato dos nossos amigos, mesmo que o querer não seja nada demais. Porque nós não somos fáceis. Mas ninguém é. Então, começamos a listar mentalmente coisas que mais admiramos nessas pessoas e porque entra ano e sai ano, elas permanecem em lembranças e no dia a dia.

Talvez a lista abaixo não represente uma lista de requisitos perfeitos, mas não acredito que isso exista. São só notas pra se observar ao longo dos anos. Assim, com carinho.

Dos amigos que quero, quero aqueles que dizem a verdade, mas nem tanto - é importante saber a hora de bater de frente, de apontar um defeito, um erro, uma bobagem. Mas ferir alguém por ferir, por nada, não é coisa que amigo faça. Há coisas muito mais importantes que só dizer a verdade. Ser leal é uma delas.

Quero amigos que falam com os olhos - pode ser num sorriso, numa sombrancelhada, num olhar irônico. As pessoas que estão do meu lado não precisam de me ouvir falar pra saber o que estou pensando.

Amigos a quem a distância não importa. E não, não preciso um status report a cada semana. Não é preciso estar em contato o tempo todo. Essas pessoas tem cadeira cativa, por uma série de motivos. Estão no coração e pronto.

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Porém grande parte de nós perde tempo demasiado amando quem não nos ama, dando atenção a quem não liga a mínima, tentando estabelecer laços com quem sequer estar lá. Pode ser só uma carência momentânea que nos acometa ou pode ser que a gente queira mesmo ser como o Roberto Carlos e ter um milhão de amigos. Numa hipótese mais sóbria, pode ser que estejamos desatados do que realmente nos conecta.

Aquelas coisas como a empatia, o amor gratuito, o gostar de graça, o reconhecer-se no outro, no meio de tanta gente que se quer se olha. As amizades nos servem para tirar os olhos do "eu" e colocar no outro, e depois no nós. Sair de si mesmo, e colocar-se nas sapatilhas da amiga, na gravata apertada do amigo, na maneira maluca de viver do fulano e aí ouvir, argumentar, calar.

Acho que é essa uma das grandes preciosidades da vida, e que entra ano sai ano tira mais pessoas da minha lista de recentes. Mas não há problemas, ainda há muitos dedos nas mãos e nos pés também e muita gente que cabe aqui no coração.


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