luciana landim

Devaneiador

LUCIANA LANDIM

Os astros que me poupem

Porque horóscopos são levados tão a sério e pouco se fala sobre as transformações e os desafios de olhar pra própria personalidade e aprimorá-la?


Eu sempre acreditei em horóscopos. Tratava de olhar sempre que possível a sorte do dia do meu signo afim de encontrar algo que de alguma forma se encaixasse no meu contexto, mesmo que para isso eu tivesse que forçar a imaginação.

Acompanhava de perto as linhas de pensamento de cada signo, as tendências de comportamento, a lua, o raio da estrela que passou pelo céu enquanto eu fazia o esforço hercúleo de nascer, o ascendente, o descendente, enfim tudo que pudesse me trazer um esclarecimento do que por eu era assim, ou de porque o relacionamento x não tinha dado certo.

- Ah, ele é de sagitário, é por isso!Vocês não combinam, porque seu ascendente teve uma treta com seu anjo da guarda e daí deu ruim no último quartil da sua lua. Ou ainda: esse momento não é bom para trocar o emprego porque sua lua está muito próxima de Mercúrio. AHN? Enfim, explicações mil que fazem você acreditar que alguma energia cósmica não está colaborando para que aquele relacionamento, aquele trabalho ou qualquer coisa que o valha fosse pra frente.

Acho que as pessoas tem todo o direito de acreditarem que o signo delas influencie de uma maneira ou de outra no seu comportamento. Eu mesma fiz isso, mais vezes do que gostaria de admitir! Nós estamos, como eu disse, tentando achar um significado, uma maneira louca de contar pras outras pessoas e pra nós mesmos porque somos como somos, porque diabos agimos de formas tão discrepantes e malucas.

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É como se o horóscopo nos tirasse o peso da existência dizendo que está tudo bem ter esse seu jeitinho especial (pra não dizer louco) de ser. Afinal, você é de, COLOQUE AQUI O SEU SIGNO, e por isso suas ações se justificam.

Mas pra quem olha um pouco mais fundo pra si e para os outros, sabe que as coisas vão muito além da data e da hora do nascimento. As pessoas são como são porque viveram de determinada forma, fizeram determinadas escolhas e podem ou não se encaixar em um estereótipo do seu signo.Acho muito interessante todos esses estudos e tendências, mas acho que a personalidade e a índole são ainda mais tocantes.

Jogar a carta do horóscopo para justificar porque sou egoísta, tímida, agitada, briguenta ou vaidosa pode ser superficial demais para as complexidades todas que as pessoas abrigam. Dizer que fulano se comporta de maneira negativa por conta do seu ascendente é não só simplista como trágico.

Me parece que não queremos analisar nossos comportamentos sobre a ótica da nossa responsabilidade, para não ter que olhar pra dentro e perceber o que pode ser mudado, moldado e transformado. Claro que não estou aqui pregando que horóscopos são falacias comerciais para vender padrões de comportamento. Estou chamando atenção para o fato de estarmos tão interessados em como somos que podemos perder a oportunidade de imaginarmos como poderíamos ser, além do signo, da escolha sexual, da cor e do credo.

Lutar com nossas sombras, com nossos defeitos e com nossas amarguras para nos tornar pessoas melhores pode ser ainda mais revelador sobre quem realmente somos.


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