luftmensch

da língua ídiche, significa "alguém um pouco sonhador"

Bárbara Cavalcanti

ele matou o primeiro-ministro

“Eu tenho uma história para te contar, mas tem que ser entre nós dois primeiro. E você vai me prometer que não vai chamar a polícia, pelo menos não antes deu te contar tudo”, ele me disse assim que eu terminei de me apresentar.


IMG_5575 FOTO BY CAMILA VILAR.JPG

Há uns 15 anos atrás, um país distante tinha um certo primeiro ministro que era amado por uns e odiado por outros, assim como qualquer um que se preze político. Em um evento público, ele foi assassinado com dois tiros, um nas costas e outro no estômago. Marko, agora com 29 anos, me contou a história. Ele apareceu de repente na cidade, pediu um horário em que eu estaria livre para conversar e então me explicou como aconteceu o assassinato. Dois estranhos o encontraram e a inocência infantil de Marko fez com ele não desconfiasse do recrutamento. "Eles pararam com um jeep preto na frente da minha escola e me ofereceram o que equivalia a pouco mais que mil dólares. Para uma criança de 16 anos isso era muito dinheiro. Então eles me levavam durante a noite para um cemitério para aprender a atirar. Depois de uns meses de treino eles me falaram que eu iria atirar no primeiro-ministro, porque de um garoto ninguém suspeitaria".

Ele contava a história nervoso, balançava os pés debaixo da mesa e apertava às mãos. Confessou também não ter pensado nas consequências do estava fazendo. "Eu tinha 16 anos e como maioria dos meninos da minha idade, só pensava em experimentar bebida alcoólica e talvez conseguir comprar uma playstation", justificou. "Além disso, a sensação de atirar, não tenho como negar, era boa". Até hoje Marko não sabe o nome deles, pois se identificavam apenas com apelidos. "Eles estão soltos até hoje, provavelmente. Eu não sei nada mais sobre eles além disso, mas se eu olhar para os rostos, eu tenho certeza de que consigo reconhecer". O apelido de Marko era "MC". Eles o entregaram um celular e se comunicavam por mensagens em branco e números bloqueados. "Eles me falaram que era preciso matar o primeiro-ministro, porque por causa dele, cidadãos de bem sofriam injustiças. E que além disso, ninguém iria suspeitar de mim. Afinal, convenhamos, o plano deles fazia sentido. Eu era ninguém, eu não tinha vínculo com ninguém, como que alguém iria conseguir chegar em mim depois do que estava para acontecer? E o dinheiro ia vir, então eu não reclamei”.

Durante as noites no cemitério, Marko recebia instruções de tiro profissionais, como manter a respiração durante o disparo para acertar o alvo. "Eles me falavam também que tinha que ser de noite, porque isso faria minha visão ficar melhor durante o dia". Depois de meses de treinamento, o garoto foi levado para a sede de governo onde o atentado deveria acontecer. Como os pais eram separados, ele mentiu para os dois falando que dormiria na casa do outro. Para os amigos vinha mentindo desde que tinha conhecido os homens.

"O comando era atirar quando eles mandassem. Quando o primeiro-ministro foi chegando perto eu ouvi um "Agora". Era pra eu atirar uma vez, mas eu entrei em pânico. Então eu atirei três vezes. Duas acertaram o primeiro-ministro, e a outra o segurança dele. Entenda, uma coisa é você apontar uma arma para pedras, outra coisa é colocar em uma pessoa". O momento foi de pânico no local e Marko diz ter largado a arma. "MC atirou", foi anunciado pelos comparsas e ele foi retirado do local e levado para um hotel. Os homens teriam continuado o acalmando que ninguém jamais suspeitaria dele, que nada jamais aconteceria com ele, então ele apenas esperou. "Mas ninguém veio me buscar. Eu esperei durante dois dias, mas ninguém apareceu, então eu fui embora para casa".

A reação dos pais foi de surpresa. "Minha mãe me perguntou de onde que eu tinha arrumado dinheiro para comprar as coisas que eu tinha comprado. E meu pai não gostava do primeiro-ministro mesmo, então ele nem tocou no assunto", continuou. A única pessoa para quem Marko confessou o crime na época foi seu padrinho, Darko. "Há dois anos atrás ele começou a me chantagear querendo todo meu dinheiro e tudo que eu tinha, se não iria contar às autoridades que o assassino sou eu. Não tenho medo da cadeia. Eu sei que eu vou ser preso pelo que eu fiz. Mas a polícia é corrupta e se eu estivesse lá, eu poderia ser torturado e morto sem nem ter julgamento e sem que ninguém sequer ouvisse minha história. Por isso eu quis contar, para que as pessoas ficassem sabendo, para que os Direitos Humanos ficasse sabendo e então eu pudesse receber meu julgamento".

Desde que fugiu do país em 2012, quando vendeu sua casa e fugiu, vive de ajuda para imigrantes e de bicos como professor de inglês. Fica pouco tempo em uma cidade. Se envolveu em problemas com a polícia federal por ter pulado da janela de um dos abrigos para imigrantes para ir a um prostíbulo e por isso foi deportado. "Mas além disso, nunca me envolvi em nenhum outro crime. Bom, nenhum tão grave quanto assassinar um primeiro-ministro". "O que eu quero que você entenda é que os tempos eram difíceis naquela época e manipular um adolescente com dinheiro e promessas falsas era muito conveniente. Eu não superei a situação até hoje. Eu tentei me matar, eu não vivo uma vida normal ou tranquila. E as pessoas que estão presas, elas são inocentes, não houve confissão até hoje. Eu preciso ir para a cadeia, eu não aguento mais".

Depois do dia em que ele narrou toda história, ele sumiu. Tentou me ligar algumas vezes, mas ou eu não atendi ou a ligação caia. Só uma vez conseguimos conversar. Ele estava insistindo em que toda história dele se tornasse pública, ele queria que todas as pessoas ficassem sabendo o que tinha acontecido. Eu tinha contado para alguns colegas, então só repassei para ele o que foi a resposta unânime de todas as pessoas para quem relatei nossa conversa. “Cara, de verdade, ninguém vai acreditar na sua história”.

(Foto por Camila Vilar facebook.com/milla.vilar)


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