luftmensch

da língua ídiche, significa "alguém um pouco sonhador"

Bárbara Cavalcanti

24 anos, jornalista, brasileira demais para ser alemã, mas alemã demais para ser brasileira. Conheci tantas pessoas e tantos lugares que agora as histórias não cabem mais em mim.

Queria poder conversar com meu eu de 16 anos

Se eu pudesse voltar no meu passado, queria falar algumas verdades ao meu eu de 16 anos, do tipo: vai demorar muito até termos o corpo perfeito, vamos desistir de querer publicar um livro e não, infelizmente, não estaremos casadas com o Selton Mello. Além disso, a verdade principal que eu compartilharia seria que não, não adianta a aflição e agonia, aprender a aceitar e lidar com as nossas imperfeições vai ser um processo diário, contínuo e possível – e nós vamos mudar de ideia ainda muitas vezes.


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Na minha adolescência estudei em uma escola onde sempre era organizado ‘O Verão do Teatro’, que consistia em um ou dois meses com apresentações de todos os grupos de teatro dos alunos, geralmente uns quatro ou cinco, antes do recesso.

Em uma tarde qualquer, fui assistir à uma daquelas peças. Queria poder lembrar de mais detalhes, como títulos, enredos, personagens, mas apenas uma única cena de um dos espetáculos, cujo título eu não sei mais, ficou gravada na minha mente: duas das minhas colegas atuavam em uma história sobre uma menina que estava grávida (aos 16 anos, claro) e foi contar para a mãe. Esta entrou em um surto e então a garota, na tentativa de acalmar a situação, justificava o seguinte: “Mas você também foi mãe jovem”, ao qual a mãe revida, ainda mais alterada: “Mas eu era dez anos mais velha e estava casada, a situação era completamente diferente!”

Dez anos mais velha e casada. A situação era completamente diferente.

Aquilo não me deixou dormir. Essa única fala me deu uma perspectiva que até aquela tarde de verão eu nunca tinha tido antes em toda minha breve vida: dali dez anos, aos 26 então, eu estaria em uma situação completamente diferente. Como eu nunca tinha pensado nisso antes? O realismo dessa declaração me fez pela primeira vez reparar que o tempo tem o poder de mudar muita coisa. Eu já tinha ouvido essa expressão antes, no entanto, por algum motivo aquela cena daquele espetáculo infanto-juvenil por fim foi a responsável de me fazer refletir. Quando eu tivesse 26 anos tudo estaria completamente diferente, como pude ser tão cega?

Porém, aquele momento de sensatez sofreu uma mutação bem rápida e a criatividade com a qual eu comecei a imaginar meu futuro escalou para algo meio exagerado muito fácil. Já que agora, dali dez anos, eu estaria em uma situação diferente da que eu estava na época, então a solução de todos meus problemas estava apenas a uma década de distância! Como eu nunca tinha parado para pensar que, não só o tempo resolveria tudo, como meus problemas tinham prazo para acabar? Dez anos mais tarde não só a situação estaria diferente, como eu iria ter alcançado todos meus desejos com 26 anos, os problemas teriam se dissolvido e a vida estaria simplesmente perfeita!

Meu eu de 16 anos colocou na cabeça que aos 26 então, estaria morando fora de casa, teria alguns livros publicados e estaria com um pé em um projeto na dramaturgia ou qualquer outra coisa que envolvesse escrita criativa. Já que iria fazer parte do meio artístico, porque não Selton Mello não olharia para mim? Até lá eu já teria me livrado do meu aparelho e estaria bem mais magra. Com 26 anos poderia estar até mesmo casada (POR FAVOR, SELTON MELLO), quem sabe já com um filho a caminho. Dali dez anos então, as coisas podiam estar diferentes, podiam estar melhores, tinham que estar melhores. Problemas? Jamais, quando eu for adulta e tiver 26 anos, problemas não existirão! Então, aos 16 anos, eu me agarrei àquela ilusão travestida de esperança com todas as minhas forças. Com 26 tudo seria diferente, só que melhor diferente.

Se eu pudesse voltar no meu passado e bater um papo com meu eu de 16 anos, voltaria àquela tarde de verão. Queria poder chegar naquele momento precioso de reflexão e poder dizer algumas coisas, que até ouvi ao longo dos anos, porém ditas em momentos mais oportunos, tal como aquela tarde específica, poderiam ter surtido um efeito melhor. Para ser justa, nem cheguei aos 26 ainda, mas já é possível afirmar que esse plano deu certo em alguns aspectos – a derrota maior só é que, claro, Selton Mello até hoje desconhece minha existência. Eu queria poder voltar no tempo e assegurar ao meu eu adolescente que nós conseguimos finalmente sair da casa dos nossos pais, que o aparelho realmente caiu fora e que aprendemos a amar nosso corpo, mesmo com todas as imperfeições dele. Até porque, fazer exercício é uma tarefa muito mais árdua do que poderíamos imaginar e a maior importância dele tem haver mais com saúde do que com estética.

Além disso, aquela menina infeliz, insatisfeita e decepcionada em uma idade tão jovem, que naquela tarde voltou para casa e passou uma noite inteira escrevendo páginas e mais páginas no diário sobre como odiava a vida e como o futuro seria tão melhor, ainda teria que ouvir algumas coisas pouco agradáveis também, tal como o fato de que os problemas não iriam embora nem tão cedo.

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Morar sozinha trouxe uma enxurrada de boletos, cujo volume é incompatível com a nossa renda. O apartamento tem inúmeros problemas com os quais painho ainda tem que lidar, como uma infiltração no teto do quarto e um interfone que não funciona. Sobre o trabalho: até que existe a escrita diária, mas a profissão é o jornalismo, e acredite, vamos reconhecer que talvez nossa mãe tinha razão, era melhor ter apostado em engenharia, pediatria ou administração. Ficar doente sozinha é muito ruim, cozinhar pior ainda e não vou nem mencionar que as filas no banco são intermináveis. Mas muita coisa não se deu conforme o plano porque nós repensamos muitas questões sozinhas mesmo.

Conhecer Selton Mello e até mesmo trocar uns beijos com ele é até mais provável de acontecer do que o matrimônio. Sobre o casamento na verdade acabamos acumulando uma montanha de dúvidas, destas a maior é se isso é o que realmente queremos – o que por si só já diz que deveríamos adiar a questão até que tenhamos vontade de querer tirar nossas dúvidas. Por enquanto, preferimos nos agarrar à incerteza e apostar primeiro nos problemas da vida de solteira antes dos da vida de casada. Sobre os bebês, até que já existem alguns sobrinhos, mas filhos nenhum, e o desejo da maternidade nem mesmo apareceu. A carreira no ramo artístico foi completamente abandonada, nenhum livro sequer terminado, porque descobrimos que não conseguimos levar isso adiante com a seriedade necessária. E no teatro, nosso lugar ainda é como espectador e de lá nem queremos mais sair também.

Ah, e nós também abandonamos completamente as noites em meio a um grupo imenso de pessoas, agora preferimos o silêncio, o isolamento, as tardes tranquilas. Gostamos mais de ir ao cinema sem acompanhantes, de passar uma tarde inteira em uma livraria de fone de ouvido e quando decidimos socializar, preferimos muito mais um jantar mais íntimo com um grupo de duas ou três pessoas, porque dá para olhar nos olhos de cada uma delas e conversar sem precisar gritar.

Nossa cabeça é extremamente criativa e nós somos muito flexíveis. Nós vamos mudar de ideia ainda por muitas vezes. Muitas. Em ainda outros momentos, sequer vamos saber o que queremos fazer. Na verdade, estaremos bem perdidas, até em momentos em que na verdade não poderíamos nos dar o luxo.

Não vai adiantar querer que existam apenas soluções rápidas, mágicas e exatas para todas as situações. A vida é enfrentar os problemas, disso ninguém escapa. Sim, alguns dos obstáculos parecem sumir milagrosamente quando você muda de casa, de emprego ou até mesmo de cidade – algo que vamos acabar fazendo muito com o passar dos anos, embora isso não venha ao caso. Mas as dificuldades são meramente substituídas por outras, novas, que não conhecíamos antes. Aceitar que obstáculos sempre aparecerão, nos dará maior motivação de querer seguir em frente, porque nada vai nos pegar completamente de surpresa.

Vamos ter que engolir muitos sapos, vamos chorar, às vezes no ônibus, outras escondidas debaixo das cobertas, mas ainda vamos nos decepcionar e chorar muito, sim senhora. No entanto, depois de nos acalmarmos, teremos a convicção de que é preciso encarar a vida de cabeça erguida e levantar após cada baque. Saber, aceitar e realmente se convencer de que os problemas sempre nos acompanharão de formas diferentes vai nos fazer enxergar a luz no final de cada túnel e nos relembrar de que, por maior que seja a dor, ela vai passar eventualmente.


Bárbara Cavalcanti

24 anos, jornalista, brasileira demais para ser alemã, mas alemã demais para ser brasileira. Conheci tantas pessoas e tantos lugares que agora as histórias não cabem mais em mim. .
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