luftmensch

da língua ídiche, significa "alguém um pouco sonhador"

Bárbara Cavalcanti

24 anos, jornalista, brasileira demais para ser alemã, mas alemã demais para ser brasileira. Conheci tantas pessoas e tantos lugares que agora as histórias não cabem mais em mim.

Você tinha razão mesmo

Você estava certíssimo e eu sabia disso há tempos, mas insisti em negar. Porém, saiba agora que eu não nego mais e ainda acrescento: se eu tivesse escutado, talvez não teria acabado em lágrimas (minhas).


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Eu fui perceber que você tinha mesmo razão naquela noite em que resolvi beber para esquecer.

Eu nem lembro qual coisa ruim me fez beber um tinto inteiro sozinha antes de jantar, mas deveria ter sido algo muito horrível para eu recorrer ao álcool - o que significa que o método realmente funciona, que perigo.

Foi durante o processo de embriaguez que a ficha caiu, lá pela terceira ou quarta taça. Acho que está na cara que eu tive uma dificuldade de te entregar a razão, não é mesmo? Pois bem, saiba que eu sempre soube, mas não queria abrir mão. Não me pergunte por qual motivo, se não escrevo um livro de 500 páginas.

Às vezes eu mentia para mim mesma com o argumento de que as lembranças daquela noite não eram confiáveis por causa do vinho, mas minha consciência revirava os olhos e dizia: “Ah ta”

Eu deveria deixar para lá e fingir que nada aconteceu, afinal já faz uma boa eternidade. Só que têm motivos que dificultam. Três, especificamente. (Mas uma hora eu chego lá e nem lembro mais)

O primeiro é por causa da história compartilhada. Parece meio chulo, mas o fato deu não precisar explicar contexto de absolutamente nada, porque você simplesmente fazia parte dos contextos, era muito libertador. Era divertido também, porque eu descobria um ângulo diferente de várias histórias. Era como achar partes de um quebra-cabeças que eu nem sabia que existiam, porque eu já tinha dado tudo como concluído há muito tempo. E eu sou do tipo que dá um valor absurdo a isso.

2: você acertou em vários quesitos totalmente sem querer. O acaso estava super a seu favor e isso só intensifica o rolê pro meu lado. Você disse e, principalmente, fez coisas com as quais eu estava plenamente bem resolvida que aconteceriam só na minha cabeça.

Até escolhas pessoais mesmo – nós somos duas pessoas completamente diferentes, mas que tomamos algumas escolhas parecidas, o que faz com que nossos estilos de vida sejam semelhantes, como se a gente tivesse combinado.

E o terceiro motivo eu não preciso falar, você sabe qual é.

Gerar sentimento em cima dessas coisas tem só a ver comigo, talvez você nem reparou na história compartilhada e definitivamente tinha zero noção dos acasos. Mentira, acho que completamente ignorante você não era, não. Mas não ligou o suficiente, muito menos chegou a dar o mesmo valor que eu. Acontece.

Antes do desmantelamento, você defendia que a gente ainda poderia continuar um na vida do outro, mesmo se tudo desse errado. Não era isso que você tanto tentava me explicar e eu insistia em teimar? Para mim faz todo o sentido agora.

Nós temos interesses similares, porém somos muito diferentes em termos de visão de mundo ou objetivos de vida. Isso acabaria nos afastando naturalmente, sem 90% doa acontecimentos trágicos que sucederam. A vida teria dado conta de nos separar sozinha.

Se bem que, você voltou atrás várias vezes nisso também, então mesmo que essa fosse a solução ideal, talvez não fosse a mais prática. Bom, que seja, não vamos entrar no mérito. Infelizmente, o resumo dessa ópera não poderia ter sido outro a não ser a famigerada mágoa mútua. Você foi bem babaca, muitas vezes até mais do que precisava.

Porém, pelo menos no que se refere a não ter necessidade de forçar a barra, você estava certíssimo e eu sabia disso há tempos, mas insisti em negar. Negação é um trem medonho, vou te falar, viu. Saiba agora que eu não nego mais e ainda acrescento: se eu tivesse escutado, talvez não teria acabado em lágrimas (minhas).

Às vezes eu me pego imaginando um reencontro, no qual depois de alguma conversa fiada, a gente tem um papo razoavelmente sério, que acaba em pedidos de desculpas ditos e aceitos de maneira bem humorada. Depois, a gente ainda trocaria umas ideias, mas só de vez em quando. E então a conversa cessaria e, sem que a gente percebesse, já estaríamos indiferentes, cada um pro seu lado de novo. Só que dessa vez, dissiparia naturalmente, sem dores.

Me deixaria mais em paz. No entanto, o que tem para hoje é ignorar. Vai cair no esquecimento de qualquer jeito e isso é o que importa no final.

Esses dias atrás eu te evitei no mercado. Fiquei a uma distância segura, mas vi quando você entrou na sessão de vinhos e pegou o mesmo com qual eu tinha enchido a cara naquela noite trágica. Eu ri, porque, claro que o acaso sempre está ao seu favor. Esperei escondida na parte dos chocolates enquanto você estava na fila até seu carro sair do estacionamento, só para garantir.

Às vezes a vida tem uns melindres desses.


Bárbara Cavalcanti

24 anos, jornalista, brasileira demais para ser alemã, mas alemã demais para ser brasileira. Conheci tantas pessoas e tantos lugares que agora as histórias não cabem mais em mim. .
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