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A epopeia de Luis Campos

Luis Campos

A procissão ainda agora vai no adro. Até já

Plano Nacional de Cinema (Para Jotas)

Será tarde para lançar um Plano Nacional de Cinema destinado aos jovens partidários?


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Uma das melhores (e, creio eu, das mais consensuais) medidas implementadas na mais recente Lei do Cinema e do Audiovisual foi a da criação de um Plano Nacional de Cinema.

No ano-piloto desse mesmo Plano Nacional de Cinema (2012/13), 23 escolas espalhadas por todos os distritos de Portugal puderam contribuir (num esforço singular da memória recente) para o combate à iliteracia do cinema e para a formação de um olhar crítico nos novos públicos. Jovens do 5º ao 12º ano passaram a ter a possibilidade, creio que pela primeira vez na História de Portugal, de seguir uma “educação cinematográfica” segundo um plano pré-definido à escala nacional.

Não sei como está o ponto actual da situação, se o Plano Nacional de Cinema continua ou não em execução, ou se os filmes previamente delineados se mantêm, mas partindo do princípio que o próprio Secretário de Estado da Cultura – na altura da implementação do Plano, Francisco José Viegas – reconheceu o cinema enquanto elemento fundamental para a educação, tudo indica que o projecto conquistou a devida relevância no panorama cultural/educativo nacional.

A lista que servia de matriz ao programa era óptima. Incluía filmes de conceituados realizadores oriundos um pouco de todo o mundo (Tim Burton, Steven Spielberg, Abbas Kiarostami, Charlie Chaplin, Abdellatif Kechiche, Martin Scorsese ou até George Méliès, entre outros) e vários outros do que de melhor se tem feito em Língua Portuguesa no cinema. Do antigo ao novo. Alguns mais obrigatórios do que outros. Não era completa, nunca o poderia ser, mas fora cuidadosamente elaborada e adequada ao propósito que a fez nascer. Não tenho nenhumas dúvidas em relação a isso.

A única questão que me preocupa – e assumindo o poder que o cinema tem enquanto motor educativo, quase do espectro da magia; chamemos-lhe até, de um hipnotismo benéfico – é que a larga percentagem dos Jotas que irão representar os partidos políticos do nosso país nos anos vindouros já não tenham sido obrigados a passar por este Plano Nacional do Cinema. Quiçá para constrangimento dos ideais que lançaram essa proposta na nova Lei do Cinema e do Audiovisual, é incontornável: a maior parte dos actuais membros das Juventudes Partidárias já estavam lançados no ensino superior no ano 2012/13. E o Plano Nacional do Cinema não abrangia o ensino superior.

Posto isto, e porque nunca se vai tarde quando se chega a horas, quero aproveitar este espaço para lançar a minha proposta: a da criação de um Plano Nacional de Cinema para Jotas.

Porque sabemos que, com ou sem o nosso consentimento, daqui a mais ou menos tempo serão eles a tomar as rédeas dos dirigismos de tudo aquilo que tem voz e poder em Portugal – e esta abrangência, são factos, estende-se das redes ou grupos de comunicação às PPPs, aos bancos, às fundações e até ao próprio governo – acho que pelo menos devíamos tentar esta radical medida. Talvez não sirva de nada, e só estejamos a tentar servir pipocas a quem as não quer comer, mas gosto de acreditar que os filmes podem ajudar a imprimir determinados valores e a sujeitar a reflexões que, na ausência, por vezes caem no inconsequente vazio da memória humana.

São só 14 filmes. Menos de 20 horas de enriquecimento pessoal, mas que podem vir a fazer toda a diferença. Afinal de contas, é Portugal que está em causa.

Aqui vai:

1. Mr. Smith Goes To Washington (1939), Frank Capra

Porque um homem, em regime democrático, pode fazer toda a diferença.

2. Schindler’s List (1993), Steven Spielberg

Porque a memória é nossa aliada.

3. 12 Angry Men (1957), Sidney Lumet

Porque a justiça só existe depois de esmiuçada a verdade.

4. One Flew Over The Cuckoo’s Nest (1975), Milos Forman

Porque todo o homem nasce livre, vive livre e morre livre.

5. The Great Dictator (1940), Charlie Chaplin

Porque Chaplin fala, pela primeira vez nos seus filmes. E diz tudo.

6. Citizen Kane (1941), Orson Welles

Porque com o grande poder vêm as grandes responsabilidades.

7. Los Olvidados (1950), Luis Buñuel

Porque mostra que a verdade está acima de qualquer classe social ou valor moral.

8. Tokyo Story (1953), Yasujiro Ozu

Porque nunca devemos esquecer quem nos deu a possibilidade de viver.

9. Children of Men (2006), Alfonso Cuarón

Porque o reforço da taxa de natalidade deve estar sempre na linha da frente da ordem de trabalhos.

10. Into The Wild (2007), Sean Penn / ou There Will Be Blood (2007), Paul Thomas Anderson / ou Dr. Strangelove (1964), Stanley Kubrick / ou The Shawshank’s Redemption (1994), Frank Darabont

Porque nem tudo é material nesta vida.

EPÍLOGO

Guerra Civil (2010), Pedro Caldas

Porque continuamos a ter cinema de grande qualidade em Portugal. Que, paradigmaticamente, não consegue chegar às salas.

Direitos da imagem utilizada reservados ao filme "Los Olvidados", da autoria de Luis Buñuel


Luis Campos

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