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A epopeia de Luis Campos

Luis Campos

A procissão ainda agora vai no adro. Até já

O PERÍODO AZUL

Um filme obrigatório. Para ver, sentir e reflectir. Ou seja, cinema no seu esplendor.


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Comecemos em 1901: Carlos Casagemas, um ilustre amigo de Picasso, tinha uma amante que era bailarina no Moulin Rouge. Certo dia, após um desaguisado amoroso que o levou a entrar numa espiral depressiva, tentou matar a amante (sem sucesso) e acabou por vir a cometer suicídio. Pablo Picasso, que ficara muito sentido pelo acontecimento, decidiu então iniciar uma série de pinturas que ficaria para sempre conhecida como o seu Período Azul. Segundo algumas fontes, com tais pinturas Picasso «manifestava a solidão das personagens isolando-as num ambiente impreciso, com um uso quase exclusivo do azul por mais de dois anos…»

“La Vie D’Adele” é um filme imenso. Poderei dedicar horas da minha vida e páginas deste blog a falar e a escrever sobre ele. Junte-se-lhe uns copos de um bom tinto Alentejano e poderei até vir a duplicar essa contagem. No entanto, e para manter a toada, irei recuperar apenas dois elementos para o raciocínio que vos apresento. A cor. E o período.

De Picasso pouco percebo. A pintura, em geral, não é de todo o meu fraco, muito menos o meu forte. A própria história que serviu de introdução para este post foi descoberta numa breve pesquisa que fiz em busca de um título que pudesse soar catita diante dos vossos olhos. E que, de certa forma, pudesse servir para enquadrar o que aqui vos quero dizer. Acho que o consegui. Mas concluamos: de pintura pouco ou nada percebo.

No entanto, não sou daltónico.

E se há coisa que salta à vista no mais recente (e mais condecorado e mais polémico) filme do Franco-Tunisino Abdellatif Kechiche é a utilização da cor azul. Há um momento decisivo no filme: quando pela primeira vez Adele (e nós) nos cruzamos com o cabelo azul de Emma. A partir daí, sem que nos apercebamos, dá-se uma “literal” explosão de azul por todos os raios do campo de acção. Todos os quadros (isto é, todos os planos) têm um qualquer apontamento de azul. Uma parede, uma chávena, um lençol, uma peça de roupa, um placard publicitário. Como uma emoção escondida, como um ligeiro detalhe ou simplesmente como um adereço. Secundário, no plano, mas fulcral em toda a inteligibilidade com que apreendemos os conjuntos de imagens e de relações que nos vão sendo impostas (Kechiche nunca esteve tão próximo das suas personagens – a câmara é quase sempre feita em grandes planos de rostos e de expressões). É possível que não se repare nesse pormenor, numa visualização aleatória, mas por sua vez será impossível não senti-lo. O azul é omnipresente. O azul é Adele. O azul somos nós no mundo de Adele.

Tinha que realçar isto.

Depois, a questão do período. A época em que o filme chega ao mundo. Uma época de neo-liberalismo, numa França azul (é visível pelo menos uma alusão a um cartaz da France Bleu – principal cadeia radiofónica pública Francesa), conturbada pela predominância de um certo conservadorismo. Kechiche é soberbo nas contextualizações que vai fazendo ao longo do filme, tornando-o num dos mais importantes documentos sócio-políticos dos tempos recentes. É um manifesto ao amor. Uma ode à liberdade. E, por vezes, não tem problemas em transportar-nos para o cerne das manifestações populares. Sempre numa perspectiva libertária, de celebração. Sempre numa perspectiva de crescimento – só com tolerância existe progresso social -, e nunca de acusação ou de condenação. Ao mesmo tempo, é capaz de meter o dedo na ferida da crise sócio-económica com brevíssimas notas sobre a descrença no processo de educação superior como porta de entrada para o mercado de trabalho. Surge a dada altura uma frase brilhante, que deve ser tida em conta para a posteridade: qualquer coisa como, “não existe nenhum curso para as artes feias?”

Um filme obrigatório. Para ver, sentir e reflectir. Ou seja, cinema no seu esplendor.

É também o corolário de Kechiche. Um realizador tremendo, que já antes tinha presenteado o mundo cinéfilo com uma verdadeira obra-prima (“La Graine et le Mulet” – “O Segredo de um Cuscuz”). Um autor que não verga em benefício do produto final. Tal como Kubrick, um criador que não teme manobrar-se contra os direitos humanos e os limites da razão sempre que isso possa vir a influenciar a atingibilidade transcendental da obra. Não que tal facto/método/causa seja recomendável, mas é sem dúvida um deleite assistir às camadas emocionais (e racionais) que os filmes deles conseguem conquistar. Tudo em prol de algo superior, algo supremo. Com “La Vie D’Adele” Kechiche viveu o seu Período Azul. Picasso, depois disso, ainda teve mais 70 anos de génio pela frente. Quantos terá Kechiche? Esperemos que muitos.

(EXCERTO DE ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NO BLOG ROYAL CAFE A 17.01.14 Direitos de imagem utilizada reservados ao respectivo filme/autor)


Luis Campos

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