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A epopeia de Luis Campos

Luis Campos

A procissão ainda agora vai no adro. Até já

A VIDA É UMA MERDA (QUANDO ACABA)

Esta semana que passou foi trágica. Não foi mais nem menos do que as que a precederam e foi tão trágica como a próxima. A morte está e estará sempre presente. Caminhamos todos ao seu encontro. Mas será que não podemos ir mais devagar?


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Certo dia sonhei com a morte. Pior, e por isso nunca dele me esqueci: nesse dia sonhei que morria. Na sua estranha beleza e na sua aquática clareza, juro que não sei donde vai conseguindo o subconsciente retirar tamanha pitada de salmoura.

Não foi menos que tremendamente épico, tanto na técnica como na narrativa, fazendo-se revestir nos alaranjados de sol posto que perpetuam as traseiras de uma linha férrea atirada ao ocidente. O motivo até veio de um cliché, após queda de janela de prédio alto. Ainda não tinha batido no chão e já surgiam na pantalha trechos de uma banda-sonora com influências de música folk; a balada inicial, marcando o momento de chegada. Parecia uma miscelânea retirada de um filme de animação, tudo belo, rápido, fácil e indolor. Fugaz mas perpétua a passagem, foi essa a minha primeira interacção com a morte na primeira pessoa.

E quando momentos depois despertei reconfortou-me essa ideia de consciência dos derradeiros instantes. Guardo-lhe tão boa sensação que não pretendo sequer equacionar privá-la da memória. Como se de uma coisa natural se tratasse: a morte, essa monstruosidade, como sendo a segunda parte da vida. Gosto de reter essa ideia. A morte tem de ser bonita, quando começa.

Nesse prisma, o único problema que antevejo à morte é que, quando esta chega e não obstante a ideia de conforto que lhe retenho, quando ela chega, soberana, a porta da vida terá de se fechar. Qualquer vida. De qualquer credo. De qualquer origem. A vida torna-se, portanto, uma merda quando acaba.

E é aí que surge o conflito. Ou seja, pensemos juntos: por mais onírica que a morte possa ser, nunca chegará sequer perto dos encantos da vida. A morte poderá ser sonial, mas nunca mágica. A vida sim. A todo o instante. Porque, e é aqui que se conserva a diferença, a morte é solitária. Já a vida não, é uma intensa e omnipresente explosão de correlações. Uma arrebatadora experiência de amor. Um veemente testemunho de fraternidade. A vida é única. E efémera. Demasiado rápida. Muitas vidas únicas. Muitas vidas efémeras. Muitas vidas demasiado rápidas. A humanidade, viva, é feita desse lote. Dos corações batentes pela frenética latência da natureza colectiva. A humanidade, morta, é feita de um todo individual, imerso nessa perpétua ideia de descanso empírico e imperioso.

Esta semana que passou foi trágica. Não foi mais nem menos do que as que a precederam e foi tão trágica como a próxima. A morte está e estará sempre presente. Caminhamos todos ao seu encontro. Mas será que não podemos ir mais devagar?

Custa-nos aceitar que vidas terminem. Custa-nos mais ainda aceitar que vidas terminem por acção cobarde de mão humana. Que vidas mais próximas ou mais distantes, que amemos ou desconheçamos em absoluto, se apaguem. Eu gosto de reter essa tal ideia de morte, de uma beleza que se perpetue. Mas nada compensa o triste facto de uma vida findar.

Não denoto entusiasmo por qualquer tipo de credo que não o da bondade comum. O do respeito por terceiros. O da felicidade geral. A vida origina-se com base nestes propósitos. Mas quando vidas que me são próximas chegam ao fim da linha, gosto de acreditar que se alguma força divina possa existir, a razão de nos levar companheiros de jornada tão cedo para o outro lado terá de estar relacionada com algum tipo de protecção. Gosto de pensar que, caso tal divindade exista, a morte precoce e anti-natura se deva a uma preponderada decisão superior de protecção que nos leve antecipadamente as pessoas mais puras e valiosas para o campo seguro e que com isso as proteja de um mal maior. Conforta-me pensar que, caso amanhã nos chegue uma espécie de dia do juízo final, os melhores já cá não estarão para viver esse sofrimento. Porque foram bons. Praticaram o bem. Gozaram as virtudes da vida na sua plenitude. Cumpriram o objectivo. É a melhor razão que encontro para dar algum tipo de sentido a esse fim da linha que chega a meio da linha.

Não que isso nos dê qualquer tipo de direito para não cumprir com os objectivos propostos. Não que isso nos permita ir contra os desígnios da vida para fintarmos esse tipo de protecção aqui sugerida (ou idealizada, para minimizar o sofrimento dos que cá ficam) e que, por praticarmos o mal, nos possamos ir aguentando até ao momento da revanche.

A vida está aí, enquanto a tivermos. Foi-nos dada, por via do amor e da harmonia. É a coisa mais extraordinária que possuímos; façamos dela o melhor que pudermos e não a utilizemos para responder à violência com violência, à tristeza com tristeza, ao medo com medo, à tragédia com tragédia, à incompreensão com incompreensão, ao desrespeito com desrespeito, ao preconceito com preconceito.

Um dia acabará e será uma merda. Juntos, naquilo que realmente vale a pena, só temos o até lá.


Luis Campos

A procissão ainda agora vai no adro. Até já.
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