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A epopeia de Luis Campos

Luis Campos

A procissão ainda agora vai no adro. Até já

O ALPINISTA

Obrigado João. Serás sempre uma referência - para mim e, espero, para todos os jovens / adultos / velhos que tentam fazer cinema em Portugal. Goste-se mais ou menos do teu estilo, é incontornável que estás ao nível dos melhores. Levas bem longe (e alto) o estandarte da nossa bandeira.


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Quando lá para 2007 ou 2008 assisti à sequência-catarse daquele que se viria a revelar um dos mais influentes filmes dos últimos anos - o brilhante "O Segredo de um Cuscuz" do magnânimo Abdellatif Kechiche - dei por mim a pensar que havia muito cinema (ou potencial narrativo/cinematográfico) contido no universo daqueles 2 jovens personagens que, por se divertirem pelo bairro com o roubo da motorizada do empreendedor Slimane, destroçavam por completo os objectivos e propósitos do "herói" do filme (e da audiência, por arrasto).

Pois bem - e posso afirmá-lo com certezas após meia-dúzia de anos de atento acompanhamento e estudo da quase imaculada trajectória do mais promissor e talentoso jovem cineasta Português -, se havia pessoa no mundo que eu gostaria de ver concretizar o filme que Kechiche aí sugeriu (mas deixou em aberto), essa pessoa seria João Salaviza.

Salaviza poderia até nunca mais filmar depois das conquistas de "Arena", que não deixaria de ter o seu lugar reclamado e bem assegurado no apogeu da criação cinematográfica de origem Portuguesa. "Arena" é, para mim - e sabem-no bem os que melhor me conhecem -, uma absoluta obra-prima cinematográfica. Uma espécie de jóia da coroa lusitana, que cresce em dimensão a cada nova visualização / degustação. Nutro pelo filme um desmedido orgulho que deveria ser transversal à nossa raça, dada a raridade de cinema com aquele calibre na nossa cinematografia - e, claro, esta é apenas a minha humilde (mas totalmente honesta) opinião.

Com "Rafa" (ou mesmo até "Cerro Negro"), Salaviza demonstrou que nunca iria pela via fácil - o seu conceito de cinema começou a ser moldado de encontro a uma espécie de mutação dos seus propósitos prévios ao filme com a influência das especificidades dos seus actores / personagens, obtendo com isso uma forma conceptual distinta e muito própria de expressão cinematográfica. Esta actividade marcou o início de uma trilha que, soube-se logo, só poderia ser auspiciosa.

"Montanha" marca a sua tão aguardada estreia no registo de longa-metragem. E o melhor elogio que talvez se lhe possa fazer (dadas as expectativas geradas um pouco por todo o salivante cinéfilo) é o de que o filme não desilude - porque, embora pareça que não, seria muito fácil tal acontecer (e muito se disse nesse sentido após a não presença do filme nos festivais por Salaviza já dominados e conquistados). Mas ainda bem que não é o caso. "Montanha" é uma belíssima, de muito bem filmada, obra de um natural e predestinado herdeiro maior da tradição cinéfila, repleta de virtudes e de momentos memoráveis em total domínio dos vários recursos da linguagem cinematográfica.

Muito já se falou sobre a sua maturidade enquanto cineasta - factor que "Montanha" reforça de forma inequívoca - e também muito se tem debatido sobre a sua invulgar capacidade de "exploração" do potencial orgânico dos seus actores, na medida em que os seus filmes evolvem para uma espécie de mecanismo vivo que flutua pela arquitectura dos bairros de periferia e que sobrevive pela respiração dos corpos e das vicissitudes dos seus personagens.

Também se diz, por aqui e por ali, que falta a Salaviza uma pretensão narrativa capaz de envolver o espectador na total duração / desenvolvimento do filme. Compreendo que tal possa ser apontado, para o espectador que não dispõe de tempo ou de curiosidade para deglutir as sugestões feitas pela proposta de cinema de Salaviza, mas refuto por completo quando tal indicação surge no sentido de afirmar que os seus filmes não têm "história". Aí sou forçado a bater o pé; têm narrativa sim, e muita. Embora a mesma nunca seja dada pela via fácil - e é precisamente nesse detalhe que reside muita da beleza do seu cinema.

"Montanha" é, portanto, um filme sobre a história desses 2 jovens personagens. Não os do Sul de França de Kechiche (embora pudessem, só mudam as etnias e as influências culturais), mas sim os de um bairro lisboeta (bem nosso, em todas as suas amplitudes). 2 jovens que, por roubarem uma mota no período cronológico em que o avô de um deles se debate com uma doença grave, disputam a resolução dos seus conflitos internos na projecção do domínio territorial (leia-se sexual), na percepção das suas transformações corporais e psicológicas (leia-se adolescência) e na "tesão" de contornar a angústia dos seus quotidianos (leia-se marginalidade). E não é que o cinema de Kechiche tenha rigorosamente algo a ver com o de Salaviza. São duas espécies, que na sua total diferenciação, de certa forma se complementam. Se no primeiro caso temos exploração de diálogo e jogo de câmara omnipresente da escola de Cassavetes, num tipo de cinema que tem força por mostrar, no segundo temos uma exploração de espaço e de linguagem de câmara (cada plano é cuidadosamente ponderado e confeccionado, gourmet, para saborosamente ser degustado) num estilo completamente oposto que tem força pelo equilíbrio do que mostra e do que omite (o fora de campo e a mise-en-scene são muito muito fortes no cinema de Salaviza).

E para ilustrar o que digo refiro apenas 1 plano (podia ser qualquer um dos outros que compõem o filme) mas um plano em que David - que incrível registo que "Montanha" consegue deste miúdo / personagem -, após a cena de confronto com o seu "pai"(?) Carloto Cotta, surge sentado numa cadeira suspensa (rede) na varanda / exterior da casa, num baloiçar constante que, ao dar entrada em plano a sua mãe Maria João Pinho, vai interferindo com a posição de ambos perante a câmara; esse vaivém obtido pelo baloiçar de David remete-nos para a ideia visual / simbólica que David é de facto uma espécie de pêndulo suspenso no universo dos seus pais (a cada sobreposição de David sobre a sua mãe, na imagem). Nenhum posicionamento de câmara surge por obra do acaso, no cinema de Salaviza. E isso é maravilhoso.

Obrigado João. Serás sempre uma referência - para mim e, espero, para todos os jovens / adultos / velhos que tentam fazer cinema em Portugal. Goste-se mais ou menos do teu estilo, é incontornável que estás ao nível dos melhores. Levas bem longe (e alto) o estandarte da nossa bandeira.

Com "Montanha" subiste ao cume. Talvez de uma... Serra da Estrela, a nossa mais elevada. Tens muitas outras para escalar, um pouco por todo o mundo. Mais altas, mais íngremes, e por consequência mais recompensadoras. Estou seguro (e contente por sabê-lo) que não tens qualquer problema em encarar esse desafio. Está-te no sangue fazer cinema e chegarás lá de uma forma natural, só precisas de continuar a caminhada.

Enquanto não o fizeres, terei sempre essa imensurável possibilidade de regressar a "Montanha" sempre que me apetecer e com isso ter o prazer de (re)descobrir todas as camadas e dimensões propostas pelo filme.

Será para nós sempre um exercício maravilhoso - esse de confrontar-nos com o teu cinema. Porque nunca será demais dizê-lo: obrigado; vezes sem conta.


Luis Campos

A procissão ainda agora vai no adro. Até já.
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