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A epopeia de Luis Campos

Luis Campos

A procissão ainda agora vai no adro. Até já

MINI-CURSO DE ROTEIRO EM 18 FILMES (I)

Estes são os filmes cujos guiões/roteiros considero essenciais para o domínio de uma cinematografia de base mais narrativa e que mais se aproxime da arte de contar histórias com recurso à imagem em movimento. Usem e abusem deles. Mas com jeitinho, se fazem o obséquio.


Tenho uma ideia que dava um filme. (Quantos de nós já ouviram isto? Quantos de nós já pensaram nisto?)

Ah sim, então conta lá… (E rapidamente aquela que até podia ser a ideia mais interessante de todos os tempos rapidamente descamba na alienação da forma como é narrada.)

Já todos vimos este filme. Adiante.

Sabemos que foi ao serviço de um clube de vídeo que Quentin Tarantino tirou o seu “doutoramento” em cinema. Pois bem, não desesperem. Pese embora o quase total desaparecimento dessas autênticas mecas dos cinéfilos, hoje em dia não há desculpa para quem pretenda cultivar o conhecimento da prática cinematográfica. Tudo o que precisamos de conhecer (atenção, não digo viver) pode estar à distância de uma pesquisa no google, um clique no youtube ou de um mero press play no comando do leitor. Ver filmes, portanto. Contra mim falando, que essencialmente ganho a vida a leccionar práticas da escrita cinematográfica, eis que aqui partilho uma lista (em duas partes) de 18 filmes que podem ser tudo aquilo que precisas de analisar para começares a escrever os teus filmes. Claro que existe todo um conhecimento de base que se deva ter (em termos de formato aceite pela indústria, recursos para descrição das cenas, termos utilizados na gíria, etc), mas este conjunto de filmes pode ensinar-nos tudo aquilo que precisamos de saber para escrever (bem) cinema.

Seja pela estrutura, eficácia das acções ou domínio dos tempos do filme, estes são os filmes cujos guiões/roteiros considero essenciais para o domínio de uma cinematografia de base mais narrativa e que mais se aproxime da arte de contar histórias com recurso à imagem em movimento. Usem e abusem deles. Mas com jeitinho, se fazem o obséquio.

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18. Mr. Smith Goes to Washington (1939), Sidney Buchman / Lewis R. Foster Frank Capra trabalhou sempre com excelente matéria-prima e foi um exímio contador de histórias enquanto esteve no activo. Mr. Smith Goes to Washington nem sempre é o filme dele que salta mais à vista, mas para mim é uma obra incrível em termos de construção narrativa clássica – a jornada do herói “deslocado” que contra tudo e todos tem de se fazer valer das suas aptidões (neste caso o poder de argumentação cuja lei coloca do seu lado). Estóico, eficaz e emocionante, é uma lição (moral) não só em termos de estrutura mas também em termos de construção de personagem.

17. Jaws (1975), Peter Benchley / Carl Gottlieb Um clássico de Spielberg que por sua vez foi um dos pioneiros na definição do género “blockbuster”. Os famosos anos 80 só existem tal como os conhecemos porque Jaws arrepiou (no literal sentido da palavra) caminho. Apesar de automaticamente associarmos este filme a todo o imaginário de terror/suspense que personificou o tubarão como um dos mais assustadores vilões de sempre, no fundo o que torna a narrativa ultra-envolvente é a magistral mestria no desenvolvimento dos personagens e todo o investimento que é feito no sentimento de humanidade que acompanha a trama. O filme não é sobre um tubarão assassino, mas sim sobre um pai que emocionalmente tenta garantir a segurança dos seus familiares. E essa base emocional, a par do elaborado uso e atenção que ele dá a elementos que vão compondo o filme (seja uma frase, um objecto ou um tipo de plano), tornar-se-iam nas maiores imagens de marca no cinema de Spielberg dali em diante, fazendo dele um dos maiores cineastas da história.

16. Match Point (2005), Woody Allen Que Woody Allen é um dos maiores argumentistas vivos (quer em termos qualitativos, quer quantitativos) ninguém duvida. Se consideramos que nos últimos 20 anos escreveu e realizou mais de 20 filmes, é até assustadora a forma como ele consegue quase sempre manter essa elevada consistência que o caracteriza. Tornou-se um género por si próprio. Há quem vá ao cinema ver comédia, há quem vá ver terror e há quem vá ver o novo filme de Woody Allen. Match Point, um dos seus mais “recentes” esforços é um autêntico hino à escrita cinematográfica. Todo o filme vai sendo maravilhosamente revelado a um ritmo até um pouco anormal no seu cinema, fazendo prevalecer uma constante ideia de suspense envolta numa analogia brilhante que mete redes de ténis à mistura. Cinema no seu estado puro, com diálogos ao mais alto nível da criação alleniana e um twist narrativo que nos faz dar saltos na cadeira. Por si só uma lição relativamente ao uso de artefactos no desenvolvimento da trama e na excelência de relações entre os personagens.

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15. Adaptation (2002), Charlie & “Donald” Kaufman a partir de um livro de Susan Orlean Depois do brilhante Being John Malkovich, Kaufman deu sequência a um estilo próprio e diferente de tudo aquilo a que estávamos habituados em mais de 100 anos de história do cinema. Privilegiando sempre os recursos da imaginação, Kaufman atinge em Adaptation um caótico estado narrativo capaz de nos envolver num dos mais vertiginosos Thrillers de que há memória. Da angústia criativa ao delírio criminal nos pântanos sulistas, Adaptation é inesquecível em todas as frentes. Uma prova de que a única grande regra na escrita cinematográfica é não existirem regras. Contudo, se considerarmos enquanto objectivo conseguir fazer o espectador conectar com uma determinada realidade, isso Adaptation consegue-o a potes.

14. There Will Be Blood (2007), Paul Thomas Anderson a partir de um livro de Upton Sinclair Um épico, clássico moderno sustentado numa sólida estrutura de 3 actos. Os primeiros 15 minutos de filme são puro deleite de narrativa visual sem recurso a qualquer fala ou diálogo. A profundidade de ambos protagonista e antagonista revela um enorme sentido de compromisso com o desenvolvimento dos personagens, essencial para a eficácia da narrativa e experiência fílmica a que esta visualização obriga. É um filme aparte, o mais recente desta lista, capaz de atravessar territórios do cinema de David Lean ou de John Ford, mas mantendo uma certa essência formalista próxima a autores como Altman, Bresson ou até o Buñuel dos tempos mexicanos. P. T. Anderson não é apenas um dos mais empolgantes artistas visuais contemporâneos, é um dos mais virtuosos escritores cinematográficos de sempre.

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13. The Graduate (1967), Calder Willingham & Buck Henry a partir de um livro de Charles Webb Qualquer guião que em si e numa forma simplista consiga conter todo o estado de espírito de uma geração será sempre uma obra digna de registo. Um guião que consegue captar todo o sentimento de uma das mais complexas e inconformadas gerações de sempre, por sua vez, terá de ser uma obra-prima. A excelência da analogia, a ilustração dos personagens estereótipos sem nunca forçar a barra e as virtudes de nunca abandonar a base de género comédia-dramática/romântica fazem deste filme um dos mais interessantes exercícios de escrita cinematográfica de sempre. A sequência do fato de mergulhador é, na minha opinião, das mais brilhantemente escritas de sempre.

12. Fargo (1996), Ethan & Joel Coen No cinema dos irmãos Coen nada do que parece é. Em Fargo não podia ser diferente. Aparentemente Thriller policial, descaradamente retrato dramático social, tem personagens sublimes e sequências de cortar a respiração. Tudo se move a um ritmo muito próprio e com uma identidade louvável, a trama entusiasma do princípio ao fim fazendo sempre subentender uma tragédia anunciada. É talvez a obra seminal dos irmãos Coen que são, sem sombra de dúvidas, dos mais creditados e talentosos escritores cinematográficos de todos os tempos. Apetece-nos tanto ficar permanentemente no universo de Fargo que até já criaram uma série para ilustrar esse sentido de eternidade.

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11. Memento (2000), Cristopher & Jonathan Nolan Dos guiões mais interactivos de sempre, com uma estrutura que obriga o espectador a fazer parte do constante jogo de indícios / flashbacks com que o protagonista se vai confrontando. Misterioso até dizer chega, o texto é extremamente eficaz nesse objectivo de envolver o espectador no desejo de revelação da trama. Incrível cartão de visita dos irmãos Nolan, numa ideia de cinema que se caracteriza por uma constante noção de suspense na articulação da narrativa. Investimento adequado na construção do personagem, mais racional do que emocional, mas acima de tudo a reter a quantidade de informação necessária a cada momento para conseguir criar essa estratégia de envolvimento do espectador com a narrativa.

10. Once Upon a Time in The West (1968), Sergio Donati / Sergio Leone / Dario Argento / Bernardo Bertolucci Incontornável obra na história do cinema, o filme contém algumas das sequências mais bem escritas de sempre. Puro domínio de narrativa visual e excelência no recurso a uma iconografia capaz de reter memórias para a eternidade. Em termos estruturais, o guião constrói de forma lenta aquele que é talvez o mais significativo clímax de sempre e a ilustração de um desejo de vingança dificilmente foi mais eficaz do que neste caso. Talvez outro realizador com o mesmo texto não conseguisse atingir a magnificência desta obra – Leone era mesmo singular – mas não deixa de ser um muitíssimo bem elaborado guião em torno de uma jornada de vingança com um dos anti-heróis mais complexos de que há memória.

Parte II será publicada em breve. Fiquem atentos!

(artigo originalmente publicado aqui)


Luis Campos

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