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A epopeia de Luis Campos

Luis Campos

A procissão ainda agora vai no adro. Até já

MINI-CURSO DE ROTEIRO EM 18 FILMES (II)

Se tiverem que copiar algo, copiem isto. Nem que seja porque tenho mesmo muitas saudades da criação cinematográfica que prevalecia nos anos 70 pelas terras do Tio Sam. Proliferava uma escrita de excelência; nada menos do que aquilo que vos desejo.


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9. The Shawshank Redemption (1994), Frank Darabont a partir de um conto de Stephen King Número 1 no top 250 do imdb. Deve ser suficiente para figurar nesta lista, não? Memorável cartão de visita de Frank Darabont, que considero um dos mais talentosos escritores cinematográficos contemporâneos (que pena tenho que o seu Indiana Jones IV não tivesse seguido avante). Shawshank Redemption contém algumas das mais emblemáticas sequências de cinema da memória popular, é o filme-prisão por excelência (apesar de existirem muitos outros casos brilhantes dentro do género) e tem vários personagens escritos em total sintonia com o conceito narrativo que o filme apresenta. É interessante e envolvente até ao epílogo, deixa no ar várias questões à sociedade e consegue manter o diálogo no pós-filme. Talvez a proposta narrativa mais competente de sempre? Será sem dúvida uma das experiências cinematográficas mais bem sucedidas no seu propósito.

8. The Last Laugh (1924), Carl Mayer Podia ser qualquer uma das obras-primas de Chaplin, pelo domínio na comunicação de ideias via eficácia na construção das acções, mas optei por chamar a jogo este incrível filme de Murnau. Consegue ser extremamente eficaz na comunicação da narrativa e ainda mais de louvar será se considerarmos que o faz em período de filme-mudo e sem recurso a qualquer tipo de texto ou inter-título. É uma autêntica pérola cinematográfica, que apresenta um guião exemplar e sem falhas, capaz de construir um personagem memorável e de desmontar toda uma ideia de sociedade com recurso a apenas um elemento – o uniforme – e a dois locais: o hall de um hotel citadino e o bloco residencial da periferia. Profundamente humano. Escrita cinematográfica no seu melhor.

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7. Sunset Boulevard (1950), Billy Wilder / Charles Brackett / D.M. Marshman Jr. Wilder é unanimemente considerado como um dos melhores escritores cinematográficos de sempre e são inúmeras as obras que podem atestar esse facto. Sunset Boulevard, talvez a sua mais icónica, é um exímio e muitíssimo bem elaborado exercício sobre o submundo de Hollywood com uma dose adequada de crítica social, um toque de classe e uma certíssima capa de filme noir com uma misteriosa trama por desvendar. É consensual nas listas de melhores guiões de sempre. Tem, certamente, uma das mais complexas personagens de que me recordo e um superlativo e transcendente final que ecoa pelos tempos.

6. 12 Angry Men (1957), Reginald Rose Adaptado da homónima peça teatral que tudo originou, foi com Sidney Lumet ao leme que Henry Fonda conseguiu fazer prevalecer a lógica da argumentação em busca da verdade universal. É um filme-caso de estudo, quase integralmente passado numa única sala e com único recurso à palavra de 12 homens chateados – como o próprio título indica -, tendo um texto capaz de agarrar a atenção do espectador do primeiro ao último minuto. É uma verdadeira obra-prima de dramaturgia, com foco total no aqui e agora, na refutação dos factos e análise das provas que podem ou não conferir estatuto de verdade a uma determinada situação. Com um arco narrativo totalmente dependente dos diálogos que vão moldando uma ideia de um acontecimento fora de campo, o guião é exímio na manutenção da acção in loco e sem recurso a facilitismos. É uma experiência singular na história do cinema, um guião digno de ser analisado e estudado até ao tutano.

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5. Pulp Fiction (1994), Quentin Tarantino & Roger Avary Anarquia total em termos de estrutura, Tarantino trouxe à baila uma ideia de caos organizado num sentido de narrativa alternada que não respeita ordens cronológicas. Multi-plot, multi-personagens e um estilo próprio que serve de fio narrativo a toda a linha. Cada sequência vale por si só, com total recurso ao brilhantismo dos diálogos e das especificidades dos personagens, é o filme de culto por excelência e talvez o filme-sensação dos últimos 30 anos. Sem tabus, com as doses certas de humor negro, Tarantino conseguiu aceder às profundezas de um pensamento popular que estava adormecido. É divertido como tudo, excitante como poucos e uma autêntica lição em termos de de construção e articulação de cenas.

4. Casablanca (1942) Julius & Philip Epstein, Howard Koch, Murray Burnett, Joan Alison, Casey Robinson Considerado por muitos o melhor guião de todos os tempos, é sem dúvida um filme único com um setup inigualável e um conjunto de personagens capazes de reclamar o protagonismo em qualquer spinoff que se preze. Com um conflito superior como pano de fundo (a grande guerra) e uma ideia de rocambolesco quotidiano na pele de Casablanca, são inúmeros os elementos que este filme deu à memória popular. O guião consegue também a singular proeza de incutir inúmeros diálogos memoráveis sem nunca soar a forçado, contribuindo com cada tirada para uma ideia de entretenimento/show que é transversal a todo o filme. O final é transcendente e surpreendente, nas medidas certas. Dá vontade de ficar naquele texto e naqueles personagens para todo o sempre. We’ll always have Paris? We’ll always have Casablanca.

3. The Usual Suspects (1995), Cristopher McQuarrie Keyser Soze. Preciso de dizer mais?

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2. Se7en (1995), Andrew Kevin Walker Num género onde já seria difícil causar impacto, Fincher conseguiu a proeza (a meias com o sublime guião de Walker) de chegar ao topo. Personagens inesquecíveis (de tão bem escritos), uma estrutura excitante e assustadoramente envolvente, um final de suster a respiração. Se a premissa já teria tudo para correr bem, o que fica na retina é toda a articulação entre desenvolvimento da narrativa e construção visual de um universo próximo a uma linguagem contemporânea sem nunca entrar em veleidades. Este guião seria sempre bem sucedido. Fincher conseguiu fazer-lhe total justiça, elevando-o ao estatuto de clássico intemporal.

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1. The Godfather (1972), Francis Ford Coppola & Mario Puzo a partir de um livro de Mario Puzo O guião perfeito. Vejam, revejam, identifiquem os vários momentos da jornada do herói e o correspondente arco narrativo. Nenhum outro guião equilibra de forma tão eficaz os momentos de narrativa visual (e domínio de linguagem cinematográfica) com o desenvolvimento narrativo por recurso a diálogos. Deu origem a uma sequela igualmente brilhante e a outra menos entusiasmante, mas foi capaz de criar uma ideia de imaginário popular transversal ao singular sentimento que se cria na visualização desta obra. Tem as doses certas de tudo, em todos os momentos. Não envelhece. Conhecendo esta obra em toda a sua profundidade, estarão sempre mais próximos de escrever algo digno de registo. Se tiverem que copiar algo, copiem isto. Nem que seja porque tenho mesmo muitas saudades da criação cinematográfica que prevalecia nos anos 70 pelas terras do Tio Sam. Proliferava uma escrita de excelência; nada menos do que aquilo que vos desejo.

(artigo originalmente publicado aqui)


Luis Campos

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