lumière

Monólogos em preto e branco

Flávia Farhat

Big Eyes: a menina dos olhos de Tim Burton

Entre muitos e muitos dramas gerados pelo culto à prepotência masculina, a história da artista Margaret Keane chamou a atenção de Tim Burton e acabou virando inspiração para um de seus filmes mais moderados, mas não menos impressionantes.


file_124168_0_bigeyes640.jpg

Longe demais para você se lembrar; perto demais para aceitar sem ter que sentir vergonha. A opressão machista dos anos 50 foi mais do que uma barreira na vida profissional de milhões de mulheres privadas de qualquer perspectiva de sucesso. Foi um tempo de desolamento emocional, humilhação e injustiça onde as moças da sociedade estavam sempre cumprindo o papel social que lhes fosse conveniente: eram filhas, esposas e mães; mas nunca completamente si mesmas.

Entre muitos e muitos dramas gerados pelo culto à prepotência masculina, a história da artista Margaret Keane chamou a atenção de Tim Burton e acabou virando inspiração para um de seus filmes mais moderados, mas não menos impressionantes. Servindo-se de Amy Adams e Christoph Waltz para formar um elenco finalmente novo (minhas sinceras desculpas, Johnny Depp), Grandes Olhos é o filme biográfico que conta a trajetória de uma mulher talentosíssima que acaba deixando seu marido levar o mérito por suas obras.

Margaret é dona de um coração ingênuo e dedica sua arte à pintura de retratos de crianças com olhos grandes e melancólicos. Tentando manter a guarda de sua filha, acaba se casando às pressas com o charmoso Walter Keane; um charlatão cheio de marketing pessoal que usa falatório quase político para vender seus trabalhos pouco impressionantes. Enxergando no talento da esposa uma nova oportunidade de sucesso, Walter a convence a deixa-lo levar os créditos pelos “grandes olhos” e constrói em cima desta mentira um verdadeiro império de fortuna. Por medo ou modéstia, Margaret contribui durante vários anos para que a farsa aconteça, cedendo a glória de seus trabalhos para o marido cujo único verdadeiro talento é a boa lábia.

463b0a17713a99ee_thumb_temp_front_page_image_file8452101407169435.fbshare.jpg

Em Grandes Olhos, Tim Burton deixa os maneirismos para trás e testa um estilo quase naturalista, adotando uma paleta de cores que poderia muito bem ter sido emprestada de um dos filmes de Wes Anderson. E se o desenvolvimento da história ficou meio atropelado aqui ou ali, as atuações do elenco principal são tão competentes que quase não nos deixam perceber. Waltz, que teve uma de suas melhores interpretações no faroeste de Tarantino em 2012, encarna uma performance exagerada para dar vida ao grande picareta da história, criando um personagem forte diante de um dos homens – ironicamente – mais fracos do mundo da arte.

big-eyes-5.jpg

Grandes Olhos não é o melhor trabalho de Tim Burton; mas por ser um dos mais inesperados talvez acabe sendo, de alguma forma, um dos mais valiosos. É certo que a desigualdade entre os gêneros deu largos passos desde a geração Keane, mas seria ilusão pensar que a ideia de superioridade masculina não vaga ainda por dentro de certas mentes arcaicas. Se nos anos 50 havia quem deixasse de comprar um quadro se este fosse assinado por uma mulher; hoje o preconceito vem em formas muitas vezes disfarçadas, mas nem por isso menos ásperas.

Para aqueles que ainda defendem esta desigualdade absolutamente sem fundamentos, fica apenas o sentimento de luto pela falta de uma mente coerente. É lamentável perceber que quando a cabeça é pequena, infelizmente, nem mesmo grandes olhos são capazes de fazer enxergar as insensatezes desta pesarosa realidade.


version 2/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Flávia Farhat