lumière

Monólogos em preto e branco

Flávia Farhat

Esse texto não é para você

Esse texto não é para você que ignora o sofrimento a sua volta para brindar a própria felicidade. Esse texto não é para você que fecha os olhos e os ouvidos para a desgraça, o horror e a injustiça. Por favor, pare de ler imediatamente. Esse texto não é para você.


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Esse texto não é para você que é xenofóbico, racista ou intolerante. Você que generaliza sem conhecer e compartilha sem saber; nada disso é para você. Aliás, faça-me um favor e feche essa aba imediatamente, assim evitamos o risco de mais uma má-interpretação da sua parte. Você que estufa o peito para criticar o diferente e faz cara de intelectual ao dizer que a humanidade caminha perfeitamente bem, muito obrigado. Acredite no que eu digo: esse texto não é para você.

Esse texto é antes de mais nada um reforçador de ideias. Não venho escrever com a esperança de converter a opinião de ninguém, até porque quando a cabeça é fechada não há autor, padre ou doutor que faça mudar. E é por isso que dedico cada palavra aqui somente àquele que, apesar das opiniões contrárias no rádio ou na TV, já entendeu que cada vírgula desse quadro mundial nebuloso também faz parte de sua própria realidade. Estamos falando da crise de refugiados sírios, e também estamos falando de você.

Para entender a gravidade de um problema como esse, é preciso primeiro contextualizar o cenário que lhe originou. Imagine-se vivendo sob o poder de um governo absolutamente totalitário e violento, que restringe os direitos humanos a pó e implanta medo, pânico e insegurança todos os dias. A guerra civil que assola a Síria já completa agora quatro anos de repressão e sofrimento, agravando cada vez mais o estado de emergência da nação. Com a intensificação do conflito e a redução da ajuda humanitária nos últimos meses, grande parte da população decidiu migrar para outros países a procura de melhor – ou pelo menos alguma – condição de vida. Segundo a ONU, a pior crise de refugiados desde a II Guerra Mundial.

A rota dos que se arriscam atravessando fronteiras inclui principalmente territórios europeus, mas o governo brasileiro também abriu suas portas, emitindo mais de 20 vistos por semana. O desespero para deixar a guerra é tão grande que muitos refugiados se expõem a viagens extremamente perigosas pela esperança de recomeçar em um lugar melhor. “Que diferença faz morrer na Síria ou no mar?” disse Sinan Nabir, que nadou sozinho da Turquia até a Grécia para escapar dos horrores do país.

Grandes nações como Alemanha e Suécia já declararam suas portas abertas aos refugiados que vêm chegando, mas ainda é preciso vários passos para realmente integrá-los nas sociedades. Existe um preconceito irracional que gera hostilidade em muita gente quando falamos de imigração. Não, estes sírios não são bandidos, doentes ou criminosos. E não, nenhum deles vai modificar sua cultura por não compartilhar dos mesmos descendentes que você. Estamos falando de gente como a gente, que está sendo injustamente desumanizada por quem acredita que o imigrante deve ser visto como ameaça.

Não existem motivos que justifiquem a falta de receptividade com que encaramos a chegada de quem vem de tão longe com a corajosa esperança de um recomeço. São milhares de famílias como a sua e a minha, que lutam para ficar juntas mesmo – e talvez principalmente – durante a pior das crises. Em um momento como esse é preciso integra-se; lembrar que o mundo é um só e que aquele a quem damos a mão hoje pode nos estender o braço amanhã. Por hora, temos sorte de estarmos em uma posição privilegiada dentro deste barco chamado humanidade. Temos sorte de poder escolher como agir, e até o mais preconceituoso dos indivíduos é sortudo por poder escolher ser um imbecil. Ano que vem ou no outro, as águas podem mudar e nos levar para o pior assento deste barco. E aí talvez aquele indivíduo pense duas vezes antes de repetir que a humanidade caminha perfeitamente bem, muito obrigado.

Mas afinal, o que é que estamos falando? Já concordamos que esse problema não é seu e que o sofrimento alheio não lhe diz respeito. Não se preocupe com nada disso. Esse texto não é para você.


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