lumière

Monólogos em preto e branco

Flávia Farhat

Ponte dos Espiões: não foi desta vez

Não tenha medo de odiar um filme só porque um grande nome teve a infelicidade de assiná-lo. Depois de alguns fracassos como Lincoln, Guerra dos Mundos e Cavalo de Guerra, Spielberg já deixou mais do que claro que, de vez em quando, também odeia a todos nós.


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Vou começar esse texto com um pedido de desculpas já antecipado. Falar mal de Steven Spielberg é ir contra a academia, a crítica internacional, você, seu avô e o papa. Ainda assim eu insisto: não foi desta vez.

Eu sei, eu sei. O filme não é de todo mal. A remontagem histórica é impecável e no que diz respeito à técnica ninguém ousaria abrir a boca para contrariar. Eu sei, eu sei. O tema da guerra fria é um tiro quase certeiro, e as atuações de Tom Hanks e Mark Rylance arrancaram lágrimas de muita gente por aí. E sim, a contribuição dos irmãos Cohen na elaboração do roteiro foi uma escolha genial para valorizar a trama toda. Então eu me pergunto: o que foi que faltou?

Em primeiro lugar, faltou ideia. Ponte dos Espiões se arrasta para contar a história de James B. Donovan (Hanks), o advogado selecionado para defender o caso de um espião acusado de trabalhar para os soviéticos. Crucificado pela sociedade norte americana por estender o braço ao inimigo, Donovan luta pela máxima de que todo réu deve ser digno de um julgamento justo; independente de nacionalidade ou ideologia política. Em paralelo à narrativa principal, outra história se desenrola às inversas: um espião americano é capturado em serviço e mantido como prisioneiro em uma Alemanha pouco hospitaleira, iniciando uma tensa necessidade de acordo entre os dois governos. Até aí a trama não é das piores. O problema verdadeiro começa na medida em que percebemos que, sim, é só isso.

Não é que a história não desperte interesse. É só que entre tantos e tantos casos filhos da guerra fria, ou de qualquer guerra que se decida retratar, o de Donovan não tem força para abandonar aquele exaustivo ar de “só mais um”. Faltou profundidade nos personagens, que mal dá para dizer que se constroem ou evoluem durante as três horas de filme. Faltou alma, humanização e diálogos que não transbordem trivialidade a cada sentença. Faltou uma trilha sonora que não sinta necessidade de patriotismo o tempo todo, até porque de erguer bandeiras o cinema já anda cansado há anos. Talvez Ponte dos Espiões seja apenas auto congratulante demais para se preocupar em inovar ou mesmo entreter. Ou talvez, apesar de nadar em mares profundos de caracterização e reconstituição de época, o produto final tenha se embaralhado e gerado não muito mais do que um clichê de fazer revirar os olhos. De um jeito ou de outro, existe em Ponte dos Espiões algo que se perde. Apesar das excelentes atuações, o filme se retrai e pouco acrescenta a aquele que o assiste.

Para quem ainda não teve a oportunidade, o conselho é apenas um: dê uma chance, mas não se julgue culpado se sentir seu nível de interesse cair ainda na primeira metade da história. Não tenha medo de odiar um filme só porque um grande nome teve a infelicidade de assiná-lo. Depois de alguns fracassos como Lincoln, Guerra dos Mundos e Cavalo de Guerra, Spielberg já deixou mais do que claro que, de vez em quando, também odeia a todos nós.


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