lumière

Monólogos em preto e branco

Flávia Farhat

Assisti "A Bruxa" e entendi o que deu errado

Uma breve reflexão sobre campanhas de marketing que atiram no próprio pé


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Atenção: o texto abaixo contém spoilers.

A Bruxa é um filme sobre uma família pálida e esquisita que acaba ilhada em um casebre nos arredores de uma floresta após ser expulsa do povoado em que vivia. O cenário é Nova Inglaterra, século XVII, cerca de 60 anos antes da histeria que assolou os Estados Unidos e a Europa e acabou conhecida como “caça às bruxas”.

Com 50 tons de cinza e preto, o diretor meio novato Robert Eggers vai desenvolvendo um suspense arrastado que abre mão dos gritos e sustos tão apreciados pela nova geração do terror. A família protagonista – e também os únicos seres vivos do filme além de uma cabra, um punhado de porcos e um velho pocotó – é de um fanatismo religioso doentio que não se via desde que a mamãe de Carrie, a Estranha virou fumaça.

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Pode ser sorte de principiante, mas os personagens de Eggers são tão inquietantes que fica a impressão de que para gravar um bom filme não seria necessário muito mais do que acompanhar sua rotina tediosa. Existe algum horror na própria realidade da história, e é por isso que A Bruxa talvez cause mais desconforto do que medo.

Quando Thomasin, a filha mais velha, inexplicavelmente perde o irmão caçula para os mistérios da floresta, a família que já era esquisita enlouquece de vez. É dada a largada para o jogo de quem-é-a-bruxa onde irmãos cheios de amor fraternal apontam o dedo um para o outro e acusam-se de traição, falta de amor à bíblia (hum?) e prática de magia negra. Há uma cena particularmente bizarra em que o filho do meio alterna adorações a Deus e ao diabo antes de cair em sono eterno, algo muito parecido com alguns takes de O Exorcista.

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Desde que A Bruxa estreou comercialmente, tanto as críticas quanto os elogios têm sido bastante discutíveis, e poucos conseguiram responder à pergunta de um milhão de dólares: afinal, trata-se de um filme bom ou ruim? Entre comentários plausíveis e totalmente descartáveis, ouvi gente dizer que detestou porque não sentiu medo. Viciados em adrenalina que me perdoem, mas não é para isso que um filme serve. A Bruxa provavelmente não é a melhor coisa que você vai assistir na vida, mas não é a falta de terror que o descarta. Tem uns desvios técnicos aqui ou ali, e talvez a narrativa não chegue a ser hipnotizante, mas exigir que o filme assuste não faz absolutamente sentido algum. Caímos então em outra pergunta capciosa: por que é que tem tanta gente indo ao cinema com expectativas erradas?

A linha de raciocínio é simples: Eggers é um bom diretor; no mínimo mediano. Teve uma ideia que poderia virar filme. Fez uma tonelada de pesquisa histórica, recriou um cenário meio sinistro e chamou o produto final de A Bruxa. Roteirizou e dirigiu um suspense bom; no mínimo mediano.

O departamento de marketing reparou que seria conveniente que A Bruxa fosse vendido como terror e fez malabarismos para criar um trailer assustador para um filme que na verdade não era. Não era e não queria ser, veja bem. Porque se um diretor bom; no mínimo mediano, quisesse encher seu filme de sustos e gritos ele com certeza o faria. Até mesmo um diretor ruim; no máximo mediano, não teria problemas em fazer. O grande desafio de um cineasta não é assustar ninguém, e sim entregar um produto que tenha valor criativo. Construir uma campanha milionária que promete um filme assustador pode ser como dar um tiro no pé. O espectador vai ao cinema com uma única expectativa: a de sentir medo. E a partir do momento em que essa ideia se cria, todo o resto é ignorado. Não importa que a produção seja fantástica e cheia de qualidades: se o coração não acelerar e as mãos não suarem, seu filme já era.

200_s.gif (sim, essa imagem serve para te confundir e fazer você assistir ao filme errado)

Por isso, menos ignorância na hora de assistir a um filme de terror, porque terror pode nem ser realmente seu gênero. O problema muitas vezes está nas mãos de quem vende, e não de quem faz.

A Bruxa é um filme sobre uma família pálida e esquisita que acaba ilhada em um casebre nos arredores de uma floresta após ser expulsa do povoado em que vivia. E é só isso. Ajuste suas expectativas e compreenda que não é porque você não sentiu medo, que você não sentiu nada.


version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Flávia Farhat