lumière

Monólogos em preto e branco

Flávia Farhat

Mãe, estou indo para casa

Eu só queria te contar que o mundo aqui fora é de tirar o fôlego, mas que a cada milha que eu me distanciava, sentia meu coração um pouco mais perto de você


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Pois é, mãe. Chegou a hora. Eu sei que você sabe que eu sempre tive meio pé pra fora, e que minha vontade de sair por aí já arrepia seus cabelos de preocupação há um tempo. Eu sei que você sabe que não era lá em casa, debaixo do mesmo teto de todos os dias, que eu conseguiria finalmente encontrar minha essência. Eu sei que você entende, e agradeço por cada dia que você pensou em ligar e me pedir pra voltar, mas por razões de complacência materna conseguiu segurar o choro e dizer que estava bem na minha ausência. Mãe, fique tranquila, eu estou indo pra casa.

Faz quase um ano que eu parti. 346 dias, para ser mais exata. Eu só queria te contar que o mundo aqui fora é de tirar o fôlego, mas que a cada milha que eu me distanciava, sentia meu coração um pouco mais perto de você. Foi só olhando de longe que consegui enxergar quão cheia de amor e carinho minha vida sempre foi, e quantos milagres silenciosos me cercavam naquilo que eu revirava os olhos para chamar de rotina.

Eu só queria te contar que tive a oportunidade de jantar no melhor restaurante francês, mas que trocaria pela sua comida sem pensar duas vezes. Aqui entre nós, chefes soam supervalorizados quando o estômago implora pelo arroz com feijão lá de casa. Queria te contar também que conheci as cidades mais fascinantes de toda a Europa e tive as noites mais loucas da minha juventude, mas que voltar a dormir na minha cama não faria mal algum, se ainda houver espaço pra mim. Queria que você soubesse que eu tive a sorte de visitar os mais importantes museus e as mais lindas praças por aqui, mas que naquelas tarde chuvosas de domingo ainda sinto falta dos nossos programas de mulher. Que nosso sushi com netflix nas noites de terça nunca perderam a graça para mim.

Não me entenda mal: o tempo todo em que estive aqui fora, eu fui extremamente feliz. Foi a experiência mais importante e maravilhosa da minha vida, e eu sei que você sabe disso. Mas o que a sociedade que grita “largue tudo e pegue a estrada” não entende é que é importante respeitar o momento. Existe hora para ir, hora para ficar e hora para voltar. São ciclos que se completam e capítulos que se encerram para que novos começos possam surgir.

Eu tive meu começo, meio e fim nesse ano que passou, e me reinventei de todas as formas que poderia sonhar. Obrigada por respeitar meu momento e de forma alguma tentar interromper isso. Mas agora fique tranquila, mãe. Eu estou indo para casa.


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