lumière

Monólogos em preto e branco

Flávia Farhat

Mary e Max: uma amizade diferente

“Nós não podemos escolher nossos defeitos, eles são parte de nós e temos que conviver com eles. Nós podemos, entretanto, escolher nossos amigos e eu fico feliz por ter escolhido você”


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Ela, uma criança desajeitada de oito anos de idade que cresce tendo que enfrentar a ausência do pai, o alcoolismo da mãe, o bullying no colégio e a falta de um amigo de verdade. Ele, um quarentão nova iorquino vítima de Asperger (um tipo de autismo) que frequenta grupos de apoio e tem dificuldade em se aceitar. Dois personagens completamente estranhos, mas com algo em comum: o constante e imperfeito sentimento de solidão. Parece improvável e até mesmo duvidoso, mas Mary e Max é uma animação feita de bonecos de massinha inteligente o bastante para criar reflexões poucas vezes tão bem desenvolvidas em filmes com atores de carne e osso.

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A história gravada em stop motion retrata uma amizade que surgiu ao acaso e se construiu com muito carinho durante mais de uma década. Aos oito anos, Mary escolhe um endereço aleatório em Nova Iorque e envia uma carta para esclarecer uma dúvida genuinamente infantil: como nascem as crianças nos Estados Unidos? É então que conhece Max, seu correspondente do outro lado do oceano que não só tenta lhe ajudar a entender o mundo adulto, como também vê em Mary a amiga que nunca teve.

Mary e Max recria o tema das relações virtuais que definem a sociedade moderna, substituindo as redes sociais e mensagens de texto pelas antigas máquinas de escrever. Com simplicidade quase desleixada, o filme vira o gênero das animações de cabeça para baixo: enquanto uma certa Pixar se preocupa em criar personagens esteticamente fofinhos, o diretor Adam Elliot cava fundo nas imperfeições de suas criaturas. O resultado foi de uma obra trágica, depressiva e infinitamente genial.

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Os cenários que acompanham a história desta amizade improvável são quase monocromáticos, e aqui a direção de arte tem um papel propositalmente fundamental. São tons de cinza os escolhidos para representar a frieza de Nova Iorque e a solidão de Max, enquanto o mundo de Mary é (des)colorido pelo marrom. Mais uma vez, uma surpresa visual para quem esperava uma animação feita para crianças.

Em uma de suas últimas cartas, Max escreve à Mary: “O motivo pelo qual eu lhe perdoo é que você não é perfeita. Você é imperfeita, assim como eu”. E é assim que Mary e Max se define: uma animação imperfeita, simples e assustadoramente profunda. Elliot joga no liquidificador vários assuntos sociais, como solidão, alcoolismo, obesidade, preconceito e depressão, e prova que quando o cérebro é criativo não é preciso mais do que 90 minutos e alguns pedaços de massinha para construir uma reflexão excepcionalmente humana.


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