lumière

Monólogos em preto e branco

Flávia Farhat

(Não) Quero Ser John Malkovich

Você tem seus quarenta e poucos anos, nenhum emprego fixo e um estranho talento para teatro de marionetes. Bem-vindo ao mundo. Seu nome é Craig Schwartz e você é o novo perdedor criado por Charlie Kaufman


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Você tem seus quarenta e poucos anos, nenhum emprego fixo e um estranho talento para teatro de marionetes. Você é medíocre em todos os aspectos sociais, está preso em um relacionamento sem amor, tesão ou paixão, e seu apartamento é (literalmente) um zoológico. Você está financeiramente afogado, ninguém nunca deu mérito às suas habilidades e você está vivendo um amor não correspondido fora do casamento. Você não é atraente. Você não é engraçado. Você não é, nem ao menos, razoavelmente interessante para o sexo oposto. Bem-vindo ao mundo. Seu nome é Craig Schwartz e você é o novo perdedor criado por Charlie Kaufman.

De tempos em tempos, surge em Hollywood um roteiro tão original que nem mesmo o pior dos diretores seria capaz de estragar. Narrativas singulares tendem a ser naturalmente memoráveis e, na maioria nos casos, não pedem uma quantidade tão grande de recursos, uma vez que são sustentadas pela ideia e não meramente pela técnica.

Na lista dos (poucos) mestres que conseguem produzir um roteiro com tamanha significância criativa, o nome Charlie Kaufman vem grifado e sublinhado no mínimo três vezes: é dele o mérito por Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Adaptação e o incansável Quero Ser John Malkovich. Por trás de cada um deles, existe o olhar atento de Kaufman nos lembrando até onde um filme pode chegar quando a voz do roteirista diz muito.

Quero Ser John Malkovich toca a primeira sinfonia de cenas bizarras de Kaufman escritas para o cinema. O perdedor apresentado há pouco é Craig Schwartz, um titereiro (leia-se: manipulador de marionetes) que por pressão da esposa arranja um emprego de arquivista em um escritório localizado no andar 7 e meio. Dentro deste ambiente desconcertante – por não ocupar um andar inteiro, é preciso caminhar curvado – Craig encontra um portal que lhe permite entrar na cabeça do ator John Malkovich por quinze minutos. Deslumbrado com a ideia de viver como outra pessoa, Craig compartilha sua descoberta com a colega-de-trabalho-sonho-de-consumo Maxine, que o incentiva a vender ingressos para que outras pessoas possam viver a mesma experiência.

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Ainda que seja apenas para assistir Malkovich realizar tarefas banais do dia-a-dia, o portal do andar 7 e meio torna-se rapidamente um estrondoso sucesso. A partir dai, Kaufman disseca de perto nossa necessidade de evasão do mundo real, uma fraqueza humana também trabalhada na versão de Vanilla Sky de Cameron Crowe dois anos mais tarde. O portal de Quero Ser John Malkovich funciona como válvula de escape de nossa própria realidade: por que é que buscamos tanto ser espectadores, ao invés de protagonistas?

O elenco do filme é outro elemento de sucesso. Cameron Diaz está assustadoramente bem no papel de esposa desleixada, e John Malkovich presenteia a história com vários momentos hilariantes interpretando a si mesmo. No aspecto de construção de personagens, Quero Ser John Malkovich talvez peque um pouco pela falta de desenvolvimento. Não existe de fato um argumento para a obsessão do protagonista, algo que poderia ter sido mais bem trabalhado no decorrer da história. Pontas soltas à parte, continuamos falando de uma obra excepcionalmente criativa e muito bem feita.

Existem elogios diferentes para os vários fatores triunfantes de Quero Ser John Malkovich, mas o maior deles com certeza envolve esta reflexão de querer-ser-você. É de se pensar que não precisaríamos desta válvula de escape se estivéssemos satisfeitos com os rumos de nossas próprias vidas, ainda que nem todos possam ter o sucesso de um Malkovich. Afinal de contas, você não é atraente, você não é engraçado e você não é nem ao menos razoavelmente interessante para o sexo oposto. Mas será que ainda assim não vale a pena querer ser você?


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