lumière

Monólogos em preto e branco

Flávia Farhat

Quem é você, Frank Abagnale Jr?

Frank Abagnale Jr. é um bem-sucedido piloto de avião. Não, não. Frank é um jovem médico formado em Harvard, primeiro da classe. Não, não. Frank é um competente assistente de promotor público, formado em direito. Não. Frank é luterano. Frank é milionário. Nada disso. Quem é, de fato, Frank Abagnale Jr.?


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Há uma passagem curiosa na mitologia egípcia que promete implicar aos mortos um breve desafio antes de permitir sua entrada no submundo. Aquele que procura a vida eterna deve acomodar seu coração em um dos pratos de uma antiga balança tendo como fatal contrapeso a Pena de Maat, a deusa da verdade. Segundo a lenda - e quem somos nós para discordar dos egípcios -, se o coração do morto fosse mais leve do que a pena, sua honestidade em vida seria recompensada pelo presente da eternidade. Se fosse mais pesado, o morto viraria vítima desamparada de um devorador de almas e veria seu maior medo concretizado: cair no esquecimento daqueles que o conheciam enquanto vivo. Se Frank Abagnale Jr., protagonista de Prenda-me Se For Capaz, por alguma ventura acabar na fila da balança de Maat, ele estará, em português claro, muito ferrado.

Frank Abagnale Jr. é um bem-sucedido piloto de avião. Não, não. Frank é um jovem médico formado em Harvard, primeiro da classe. Não, não. Frank é um competente assistente de promotor público, formado em direito. Não. Frank é luterano. Frank é milionário. Nada disso. Quem é, de fato, Frank Abagnale Jr.?

Daqueles filmes baseados em fatos reais tão impressionantes que nos fazem questionar a criatividade das ficções, Prenda-me Se For Capaz é a biografia Spielberguizada de um dos maiores e mais jovens golpistas da história dos Estados Unidos. Dos dezesseis aos vinte e um anos de idade, Frank se passa por cada uma das identidades citadas acima: é copiloto, médico, advogado e luterano; sem jamais ter colocado os pés dentro de uma universidade. E não para por aí: sua absurda habilidade para a fraude rendeu-lhe uma não tão modesta poupança de quatro milhões de dólares em cheques sem fundos, distribuídos por 50 estados das nações unidas e 26 outros países ao redor do mundo. Anota aí para a pesagem final, deusa Maat: é muita gente feita de trouxa.

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De uma história assombrosa dessas, filme ruim não poderia sair. Quer dizer, poderia, porque o leque de diretores ruins é maior do que gostaríamos, e não queremos desafiar ninguém a arruinar cartadas certeiras. Prenda-me Se For Capaz, entretanto, levou sorte. Foi adotado como o terceiro filho do século XXI de Steven Spielberg, cuja filmografia é tão extensa que logo começará a causar panes em sites como IMDB. No elenco principal, Leonardo DiCaprio e Tom Hanks potencializam seus personagens com destreza natural, dançando em uma brincadeira de pique-esconde que transforma perseguição policial em uma excêntrica parceria.

Em um mundo de produções com reviravoltas demais, efeitos demais e esforços repetidamente constrangedores para tentar conquistar o público, rever Prenda-me Se For Capaz me lembrou das vantagens genuínas de deixar-se abraçar por roteiros escritos de forma descomplicada. Spielberg materializa aqui um filme gravado de maneira simples, onde a parafernália tecnológica recua um ou dois passos para deixar a essência da narrativa brilhar sozinha. O resultado é o de uma obra que vale cada segundo do seu tempo. E nisso, fique tranquilo, você pode acreditar.


version 2/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Flávia Farhat