lumière

Monólogos em preto e branco

Flávia Farhat

Tomboy

Apesar de a sexualidade parecer ser a grande pauta do século XXI, muito pouco ainda se fala sobre a construção da identidade de gênero e seu papel na pré-adolescência.


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O cinema europeu sempre encontrou maneiras sensíveis de introduzir temas de baixa notoriedade nas mesas redondas da humanidade. É o caso, por exemplo, dos excelentes A Vida é Bela e Azul é a Cor Mais Quente, ambas obras europeias que conquistaram seu espaço ancorando assuntos delicados a um modo de fazer cinema que passa longe do melodrama.

Apesar de a sexualidade parecer ser a grande pauta do século XXI, muito pouco ainda se fala sobre a construção da identidade de gênero e seu papel na pré-adolescência. A explosão oscariana de A Garota Dinamarquesa ousou proporcionar um pouco mais de espaço para questões transgêneras, apoiando-se na tocante atuação de Eddie Redmayne para comprovar que Hollywood é mais do que monstros e capas. E já quatro anos antes de Redmayne subir no salto, Tomboy arrancava suspiros de aprovação de críticos por todo o mundo.

Dirigido pela francesa Céline Sciamma, Tomboy costura a vida dupla da jovem Laure, uma menina que acaba de chegar à vizinhança e se apresenta aos novos amigos como Mickael. De cabelos louros curtos e corpo magricela, Mickael é uma mentira perfeitamente crível. Sua irmã caçula é a única cúmplice do segredo, e apesar de não entender os motivos que o constroem, aceita Mickael com uma onda de compaixão que só as crianças sabem sintonizar.

A grande cartada de Tomboy está na habilidade de expor uma temática polêmica de maneira discreta. A aparência ambivalente de Laure/Mickael faz com que a personagem seja aceita pelos amigos com naturalidade, e o próprio público pode se surpreender com a genuinidade da história. É nesse contexto complexo, mas ao mesmo tempo incrivelmente tangível, que Tomboy desencadeia pequenas tensões da identidade de gênero, como a descoberta da sexualidade e as inevitáveis diferenças entre o corpo masculino e feminino. Sempre com muita discrição e cuidado impecável, o filme encontra um caminho para mostrar pouco e englobar muito.

Outra escolha interessante de Sciamma é a de escantear os personagens adultos – a mãe e o pai têm papeis quase secundários – para entregar uma mensagem vista pela perspectiva das crianças. É assim que Jeanne, a irmã caçula, acaba se tornando uma das personalidades mais fortes da trama: seu amor incondicional não depende dos preconceitos presentes no mundo adulto.

Em sua essência, Tomboy não é um filme sobre sexualidade. É uma discussão sobre gênero, incomplacência e descobertas na pré-adolescência. E é através do olhar de crianças que consegue entregar sua mensagem principal: nascemos genuinamente tolerantes à diversidade. Graças a Deus.


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