lumière

Monólogos em preto e branco

Flávia Farhat

Amizade Arbitrária

Eu não queria ser como ela. Ela queria que eu fosse.


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A amizade arbitrária começou com faltas leves. Naquelas rodas de amigos em que todo mundo fala sem pensar, alguns cutucões inofensivos apitaram o início do jogo. Ela questionava o curso que eu estudava na faculdade. Dizia que não tinha futuro. “Jornalismo no Brasil? Você é maluca”.

Deixei a falta passar. Ela era divertida. Boa companhia. Era o que todo mundo me falava. Dei abertura para que ela opinasse nas questões amorosas que na época ronronavam minha vida. Estava ficando com um cara há algum tempo e ainda não sabia se nosso relacionamento era exclusivo. Ela riu quando perguntei. “Ninguém quer esse cara. Ele tá só com você, mas não é porque quer. É porque não consegue mais nada mesmo”. Fiquei confusa com aquela resposta. O cara fazia sucesso no nosso colégio. Alguns dias depois, fomos para uma balada e ela tentou ficar com ele na minha frente.

Saímos outras vezes, eu e ela. Sempre que eu começava a me arrumar, a amiga se transformava em árbitra novamente. “Pra que passar maquiagem? Isso é muita futilidade”. E ela, que se dizia tão feminista, atacava também com comentários machistas no maior estilo século 20: “Você vai com essa roupa? Eu não entendo como você não passa frio”. Mas era eu quem não entendia. Eu não queria ser como ela. Ela queria que eu fosse.

Com o passar do tempo, os comentários ficaram absurdos. “Paris é supervalorizada. Não acredito que você vai mesmo pra lá”. “Um amigo meu foi para a Disney com a família. Se fosse eu, morreria de vergonha”. Cheguei a me perguntar se ela acreditava mesmo nas coisas que estava falando. Se era possível que o mundo de alguém fosse tão sem graça e descolorido como aquele.

Quando o assunto era cultura, o jogo ficava mais sério. Aos 19 anos, me vi sendo crucificada por não conhecer Bukowski. E como assim você não foi no show do Vampire Weekend? Ela ditava todas as regras e eu fingia me importar. “Você pode gostar de Strokes, mas não de Last Night. De Last Night todo mundo gosta, daí já perdeu a graça”.

Ela criava um background para fazer sua história parecer mais interessante do que a minha. “Você ia em festinhas no ensino médio? Eu ia em shows pós grunge com o meu irmão mais velho”. “Vocês leram Harry Potter? Eu li a coleção inteira do Shakespeare. Romeu e Julieta? Supervalorizado”.

Fui percebendo que metade do que ela dizia era mentira, e a outra metade não me importava. Eu era extremamente feliz comigo mesma, e de certa forma penso que foi isso que despertou nela a necessidade de ancorar minhas emoções sempre para baixo. Comecei a reparar que das boas notícias ela nunca queria saber. Não acho que ela necessariamente quisesse o meu mau. Ela só não queria ouvir que existia alguém feliz enquanto sua vida era tão miserável.

Demorou um tempo até que um ponto final fosse colocado naquela história. Eu, que sempre fui fã de amizades para a vida toda, acabei deixando uma para trás no meio do caminho. Mas não me importei. Afinal, sabe o que dizem sobre amizades eternas. São supervalorizadas.


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