lumière

Monólogos em preto e branco

Flávia Farhat

Louco, eu?

Catalogamos sua loucura pra você.


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Alguém disse que cada louco tem sua mania. E a gente sabe que sim, porque conhece um bocado deles. Tem o louco dos três despertadores sincronizados, sempre achando que vai chegar atrasado. Tem o louco que não gosta que mexam nas suas coisas. Tava ali? Não tava. Então arruma direito. Tem também o acumulador, que vai colecionando uma infinidade de objetos de utilidade questionável ao longo da vida. Boletins de colégio, pilhas gastas, cartas de amor mais gastas ainda. Tem o louco que verifica as coisas três vezes além do necessário (será que eu desliguei o forno?) e também o que sabe de cor todos os comerciais da televisão. Para-pa-pa-pá.

O louco supersticioso desconfia do escorpiano logo de cara. Se tiver ascendência em Virgem então, é da porta pra fora. Dezessete, treze e quarenta e dois são números amaldiçoados. Daí também não dá pra confiar. E espelho quebrado? Jesus Cristo. Melhor bater na madeira.

O louco da limpeza acha que está sempre contaminado. Vive limpando as coisas à sua volta, esfregando, desinfetando. É banho atrás de banho e uma dieta rigorosa na hora de lavar as mãos. Na lista do mercado, álcool gel vem antes de arroz e feijão.

O louco hipocondríaco engole mais comprimidos do que Jim Morrison no auge da carreira. A gaveta do banheiro é uma festa de Dorflex, Losartana, Rivotril e Neosaldina. Ele diagnostica a si mesmo e depois burla a própria receita. Era só uma dose? Pensei que fossem duas.

O louco maravilha criou seu próprio super-herói. Ele insiste em se responsabilizar por todos os feitos grandiosos da humanidade e nunca desce do pedestal. Ele veio ao mundo para ser superior e não há nada que você, mortal, possa fazer a respeito.

E o louco observador reconhece todos os outros loucos, observa em silêncio e cataloga. Em ordem certinha e bem alinhada, que é pra não ter problema com o louco da organização.


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