lumière

Monólogos em preto e branco

Flávia Farhat

Os prazeres sensoriais de Réquiem Para Um Sonho

O filme de Darren Aronofsky não só conta uma história de temática extremamente pesada, como acompanha a deprimente trajetória de seus personagens até o inferno.


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Genial e perturbador. Esses são os dois adjetivos que melhor resumem Réquiem Para um Sonho. O filme de Darren Aronofsky não só conta uma história de temática extremamente pesada, como acompanha a deprimente trajetória de seus personagens até o inferno – sem direito a passagem de volta.

Harry, Marion e Tyrone são jovens e viciados. Cocaína, heroína, nicotina e talvez um ou dois itens a mais. A amplitude de sua dependência química ignora os limites do bom-senso e da autopreservação, levando as drogas a serem quase que protagonistas do filme, tamanha sua importância na história. Dentro de um clima atordoante, assumimos a impotente posição de espectadores de três vidas que caminham em velocidade frenética para chegar ao fim. A história não vem a carregar enorme desenvolvimento a partir daí, mas a qualidade técnica que a acompanha é tão grande que acaba a transformando em uma experiência intensa e devastadora, daquelas que continuam a nos impressionar muitas horas após os créditos finais. Dá pra dizer, primeiramente, que não há nada de simples no jeito em que Aronofsky faz cinema. As tomadas – que inclusive são muitas – constroem-se de forma inteligente e objetiva, frequentemente trazendo cenas que dividem a tela ao meio com imagens paralelas; uma sacada genial que expressa a rapidez caótica do cérebro pós-drogas. O filme é propositalmente bagunçado e cheio de elementos sensoriais, uma façanha que não era tão bem executada desde o clássico narco-cult Trainspotting.

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Em termos de elenco, talvez uma das maiores surpresas de Réquiem Para um Sonho seja a ressurreição da talentosíssima Ellen Burstyn, a atriz que estava praticamente esquecida após o fim das filmagens – excelentes - de O Exorcista em 1972. Levada de volta aos holofotes, (obrigada, Aronofsky) Burstyn dá um verdadeiro show ao interpretar a mãe de Harry, uma solitária mulher de idade que tenta emagrecer e a acaba irreversivelmente viciada em pílulas anfetaminas. A degradação da personagem é tão real que chega a assustar, e não é para menos que Burstyn foi apontada como favorita ao Oscar naquele ano. Nesta parte da história o roteiro abre uma inteligente brecha para criticar também outros tipos de vício da sociedade moderna, tais como televisão, imagem e status.

Réquiem Para um Sonho decididamente não é um filme fácil. Seu impacto resulta de um trabalho muito bem planejado que força cada um dos atores ao limite para criar uma viagem de intensidade máxima. Uma obra visualmente inventiva que fala sobre a vastidão de dependências mundanas e o torturante desafio de livrar-se delas.


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