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Uma visão diferente para coisas diferentes

Alexandre Chaves

Refugiando-nos dos refugiados

Isto sem falar nas ideologias nocivas que estimulam os conflitos entre classes. Pobre e rico, negro e branco, homem e mulher, patrão e empregado. Agem, aparentemente, sem o interesse equivalente na solução do problema, visto que a nossa impressão, para não dizer convicção, é de que suas forças se proliferam melhor no caos, e não na ordem.


E, quando teu irmão empobrecer, e as suas forças decaírem, então sustentá-lo-ás, como estrangeiro e peregrino viverá contigo. Levítico 25:35.

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Sei que, começando "a exposição de minhas percepções e opiniões" com um texto bíblico, já irei causar - em um grande número dos leitores - certa aversão ao restante do que estou para dizer nestas linhas.

Isto é bem próprio deste espírito que toma conta do mundo e que nos faz uma sociedade esquizofrênica, que enquanto se rubra com os ditos absurdos que são feitos, acalenta em seu colo este espírito que corrói todos os valores em nome de uma idiotice chamada modernidade com chavões do tipo: “Como pode um homem do século XXI pensar em valores absolutos?”, como se a modernidade fosse um valor em si mesmo.

Falando em nosso contexto, nada mais tradicional que um bom prato de arroz com feijão, bife e salada, e nada mais moderno do que um Big Fast Food qualquer. No entanto, sabemos que deixar o tradicional nesse caso e substitui-lo pela modernidade é um desastre para a saúde. O fato de sermos pessoas do século XXI não nos dá o direito de emburrecer aceitando qualquer ideia pelo simples fato de ser uma novidade.

Outros dirão: “É por causa de discursos com este conteúdo que muitas guerras ocorreram no passado e acontecem até hoje”. Ora, uma verdade não deixa de ser verdade ou se torna má pelo mau uso que fizemos dela. Sabemos que 2+2=4 e isto é verdade em qualquer lugar do mundo, ou pelo menos deveria ser. Se alguém, para ser moderno, ou antenado, diz que o resultado é 5, eu, por esta razão, me dou o direito de agredi-lo. Questione a maldade que eu fiz a partir de uma verdade, jamais questione a verdade.

Não podemos com esta estupidez tornar a idiotice em verdade para reparar a injustiça da agressão, pois, agindo assim, o que promoveremos é mais injustiça, mudando a verdade em mentira. E com o passar do tempo, com a falta de um chão sólido, o que surge é uma total diluição das referências, a ponto de como exposto no livro The Three Trillion Dollar War (lançado em fevereiro pela Allen Lane) as operações no Iraque e no Afeganistão alcançaram um custo aos Estados Unidos de mais de US$ 3 trilhões, e outros US$ 3 trilhões ao resto do mundo – uma estimativa ainda conservadora, diz Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia em 2001, ex-economista-chefe do Banco Mundial e professor da Columbia University.

Este é o absurdo. Num mundo onde “deus é uma nota de cem” como bem disse Mano Brown, não nos importamos em gastar 6 trilhões de dólares para bombardear dois países inexpressivos do ponto de vista de sua força, (Iraque e Afeganistão) em relação às grande potências, ao passo que a Grécia morre de fome por causa de 50 bilhões.

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Começo sublinhando a estranheza que brota em meu coração todas as vezes que o mundo se espanta com sua maldade em relação aos refugiados. Olhamos para a repórter chutando os refugiados e nos horrorizamos, como quem se espanta com a própria feiúra diante do espelho. Achamos que ela é ela, mas na realidade ela, somos nós, todos nós, cidadãos do dito mundo moderno.

Soa-me estranho estranhar o ato violento da repórter, tendo em vista a nossa violência real e cotidiana, além de me soar paradoxal. É paradoxal, pois, à medida que aumentamos os decibéis de nosso discurso sobre paz, bondade e amor, estimulamos com mais intensidade a guerra em todos os níveis da sociedade.

Falamos de paz ao mesmo tempo em que concordamos com o pensamento que incentiva a disputa e a competitividade - endossadas por nosso catecismo evolutivo, o qual propõe um darwinismo social criando uma sociedade onde os fracos não têm vez. Aí, nos espantamos com a porta fechada que damos na cara dos famintos que não alimentamos em suas terras, antes os enchemos de bombas quando eles batem às portas dos ricos.

Com injustiça fazemos vista grossa à violência dos traços, fazendo aqui uma referência ao caso Charlie Hebdo, na França. Dos traços e das palavras daqueles que se escondem atrás do rótulo de artista; que ferem com seu pseudo-humor ácido a alma de bilhões de pessoas naquilo que lhes é mais caro, blasfemando da fé alheia de forma gratuita, justificados que estão pelo pensamento vigente que desdenha de tudo que é valor, simplesmente pelo fato de que, como bem definiu Dostoieviski, “Se não existe Deus, tudo é permitido”.

Agem assim sem saber onde isto os leva, depois acham estranho o resultado de seu pensamento, sem perceber que, agindo assim, fazem com isto acender o estopim da violência naqueles que, mesmo desprovidos de tal dom da habilidade de desenhar, porém com a alma sangrando, desenham uma cena de horror com tinta da violência, e novamente acham estranho. A loucura é tanta que depois lotam as praças, o mundo e suas autoridades, escolhendo um lado da violência, buscam fazer justiça produzindo mais violência, matando os que mataram por se sentirem feridos, violência gerando violência.

Isto sem falar nas ideologias nocivas que estimulam os conflitos entre classes. Pobre e rico, negro e branco, homem e mulher, patrão e empregado. Agem aparentemente sem o interesse equivalente na solução do problema, visto que a impressão, para não dizer a convicção que temos, é de que suas forças se proliferam melhor no caos, e não na ordem.

Estes, sempre oportunamente, se propõem como defensores dos direitos, ora do negro, ora do branco, ora do homem, ora da mulher, se valendo da guerra e mantendo, assim, a ilusão de sua importância social indispensável para um paraíso que sempre está no futuro. É o velho modelo que ama a humanidade abstrata, ao passo que odeia seu vizinho. Cobrando um mundo com mais justiça social ao passo que é incapaz de economizar o dinheiro de seu charuto cubano para ajudar seu semelhante que jaz à sua porta. É o mundo das ideologias, das religiões, o mundo da imagem desprovida de conteúdo correspondente, aquilo que Jesus chamou de sepulcro caiado.

Sim, caro leitor, o velho livro preto há quase quatro mil anos já nos dizia o que fazer: “E, quando teu irmão empobrecer, e as suas forças decaírem, então sustentá-lo-ás, como estrangeiro e peregrino viverá contigo. Levítico 25:35. Resta-nos saber se temos natureza para obedecê-lo. Ou, como cidadãos do século XXI, vamos continuar dizendo que a verdade é bobagem só para não perder nosso status de modernos? Com discursos inflamados e criações de ONG`s, enquanto nos recusamos dar ouvidos à verdade discriminando-a por sua idade. Moderno é amar ao próximo como a nós mesmos.


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