Fábio Jorge

Não sou daqui nem sou de lá, eu sou de qualquer lugar.
Meu passaporte é espacial, sou cidadão da terra

O Momento Certo

Alguns filmes ressurgem em nossas vidas em momentos certeiros, quando estamos prontos para absorvê-los ou simplesmente vivenciamos situações que nos fazem vislumbrar suas belezas muito melhor.


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Faz três meses que saí de novo da casa dos meus pais e acompanhado disso vem toda uma nova rotina cheia de percepções impossíveis de ser ignoradas. Aromas, cores, finais de dias; tudo é bastante perceptível, mas os ruídos emitidos pelos vizinhos - culpa também das paredes finas da nova casa - se destacam impressionantemente.

Tentei assistir "O Som Ao Redor" diversas vezes. Dormi e dispersei a atenção em todas, sem exceção. Passado certo tempo de filme é como se o silêncio maculado pelos maquinários urbanos recifenses não remontasse a nada interessante; como se o barulho das crianças correndo e (muitas vezes) se matando no playground do prédio não me abalasse, não chamasse atenção dos meus ouvidos. Deixei pra lá.

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Pra minha surpresa, a Netflix indicou essa beleza e resolvi dar uma nova chance. Costumo fazer isso com coisas que já assisti e naquele momento não gostei, o que tem rendido grandes surpresas e excelentes aquisições pra vida toda. A sequência inicial, antes despercebida, foi como um choque. A câmera que passeia pela área comum aliada à captação de som que destaca fortemente as ações cotidianas dos moradores me deram uma ideia forte de identificação, tão intensa, possível e real que "poderia muito bem ter sido realizada por mim", pensei na hora (o brilhantismo do resultado estaria em cheque, logicamente). Esse pode ser um dos maiores trunfos do filme: a acessibilidade da linguagem cinematográfica ali transparecida em cenas ordinárias, comuns, quase amadoras se não fosse a forte direção do Kleber Mendonça Filho. Um tanto distante da ideia meio apocalíptica do curta "Recife Frio", Kleber, também roteirista, aposta forte na retratação da realidade condominial do brasileiro médio, pouquíssimas vezes tão bem exemplificado em personagens que beiram o cúmulo da persuasão, como é o caso de Bia interpretada pela Maeve Jinkings. Existem tantas Bias por aí, tantos Clodoaldos, tantos tantos no meio da balbúrdia urbanística que raramente nos damos o luxo de conhecê-los melhor e entender seus cotidianos suados entre as ruas das capitais brasileiras. "O Som Ao Redor" funciona como uma lupa diretamente apontada pras vidas dessas pessoas.

O cinema tem dessas coisas. Alguns filmes ressurgem em nossas vidas em momentos certeiros, quando estamos prontos para absorvê-los ou simplesmente vivenciamos situações que nos fazem vislumbrar suas belezas muito melhor. Mais uma vez foi assim.


Fábio Jorge

Não sou daqui nem sou de lá, eu sou de qualquer lugar. Meu passaporte é espacial, sou cidadão da terra.
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