Fábio Jorge

Não sou daqui nem sou de lá, eu sou de qualquer lugar.
Meu passaporte é espacial, sou cidadão da terra

Paula Cole e o Íntimo Feminino

Aproveitando a onda extremamente positiva do feminismo em alta nas discussões, redes sociais, artes e vidas cotidianas, lembrei de um disco bastante adequado a este momento.

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Forte, sentimental, por vezes estrondoso é "This Fire", obra prima da cantora norte-americana Paula Cole. Descoberta por Peter Gabriel (que participa em "Hush, Hush, Hush"), Paula fez parte do corpo de backing vocals do cantor até meados de 1994. Passados três anos e um disco lançado por um selo pequeno, 1997 foi sem dúvidas um ano especial para Paula por conta da inclusão de "I Don't Want To Wait" na abertura do seriado Dawson's Creek, o sucesso de "Where Have All The Cowboys Gone", "Feelin' Love" na trilha sonora de "City Of Angels" (Cidade dos Anjos) e a aclamação crítica de "This Fire". Não é pra menos.

Em "Tiger", Paula fala das transformações sofridas no processo de amadurecimento feminino. A protagonista da história (podendo ser a própria) deixa para trás a timidez, o recato, os assédios colegiais abafados e a inocência para se lançar no mundo adulto. "Where Have All The Cowboys Gone" versa as decepções da vida real presente em detrimento dos sonhos do passado. As promessas de conto de fadas e felicidade eterna ao lado de um companheiro beberrão, crianças chorando, contas a pagar e uma pia de louça suja pra lavar. Um tapa na cara de qualquer um, tão bem dado quanto em "Nietzche's Eyes".

("I'm shakin'/ Oh, I'm gettin' down this/ You were not my Superman...")

"Throwing Stones" é dolorida. Brigas, discussões, cismas, manipulações, sofrimento a dois. A vontade de sair correndo da própria realidade. Na íntima "Mississipi" podemos enxergar a solidão que assola a todos nós através do relato sincero de uma constante contradição.

("I 'm big and proud all over/ Not just on the stage/ My secret self has many sides/ That laugh and crush and sting" ... "Who can love my many selves/ The wife, the bitch, the rapunzel/ The one who cries/ And calls for you/ The one who is always alone")

Segundo contam, o som do didgeridoo foi amplificado através de um vaso sanitário e a música gravada em um banheiro. Vai saber se é verdade...

"Me" é como uma boa olhada no espelho.

("I am not the person who is singing/ I am the silent one inside/ I am not the one who laughs at people's jokes/ I just pacify their egos/ I am not my house, my car or my songs/ They are only stops along my way/ I am like the winter, I'm a dark cold female/ With a golden ring of wisdom in my cave/ And it's me who is my enemy/ Me who beats me up/ Me who makes the monsters/ Me who strips my confidence)

Autêntica autoanálise e fortalecimento interno.

Finalmente "I Don't Want To Wait". Quem viveu conscientemente o final da década de 1990 com certeza absoluta conhece essa faixa que narra as incertezas do passar do tempo pós 2ª Guerra Mundial sob o ponto de vista de uma mulher.

Toda vez que escuto expressões como "empoderamento feminino" imediatamente vem à mente diversos versos desse disco. Os objetivos de Paula Cole ao narrar a batalha entre si mesma e o mundo enlouquecido me parecem bastante próximos ao que as atuais mulheres lutadoras buscam: independência, estabilidade e liberdade acima de tudo através da auto-expressão. "This Fire" é um disco subestimado, tantas vezes escondido entre prateleiras mofadas e empoeiradas de sebos. Merece bem mais que isso.


Fábio Jorge

Não sou daqui nem sou de lá, eu sou de qualquer lugar. Meu passaporte é espacial, sou cidadão da terra.
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