Fábio Jorge

Não sou daqui nem sou de lá, eu sou de qualquer lugar.
Meu passaporte é espacial, sou cidadão da terra

Meu Encontro Com Nan Goldin

O Instituto Tomie Ohtake magicamente proporcionou a aproximação do povo com essa figura quase mítica, distante, alcançável facilmente pelo seu trabalho, mas mesmo assim afastada talvez por uma barreira de dor que permeia suas criações e a torna figurativamente rígida.


Quando entramos em contato com a obra de alguém é quase como se conversássemos telepaticamente, imediatamente uma comunicação intuitiva acontece entre criação e espectador. Logicamente importante (e por que não fundamental?), essa maneira íntima e silenciosa de contato serve de base exploratória pra uma futura (ou imediata) curiosidade.

Inevitavelmente, questões como “quem é essa pessoa”, “como ela se sente em relação ao que produz artisticamente” ou “o que tem a dizer sobre isso tudo” facilmente permeiam minha mente quando realmente me interesso.

Voltando um pouco no tempo, conheci presencialmente as fotografias de Nan Goldin por volta de 2012 quando Björk musicou a composição de John Taverner com o Brodsky Quartet para a exposição sua exposição intitulada “Heartbeat” em 2001. Essa série em slides chegou ao Brasil naquele ano envolto de muita polêmica quando fora acusada de incitar pedofilia (!) com suas imagens. Fortes, chocantes vez ou outra, mas nada a ver com o que fora alegado. Inclusive o patrocínio da Oi na época fora retirado por conta do imbróglio.

O Instituto Tomie Ohtake magicamente proporcionou a aproximação do povo com essa figura quase mítica, distante, alcançável facilmente pelo seu trabalho, mas mesmo assim afastada talvez por uma barreira de dor que permeia suas criações e a torna figurativamente rígida.

Tudo bastante pontual, acertado, senhas distribuídas, zero tumulto, pessoas (lógico) desde muito cedo sentadas em frente ao prédio num dia chuvoso para garantir bom lugar nesse evento gratuito. Ao se apresentar, o mediador da conversa informou ser seu agente. Olhares desconfiados entre os presentes, mas vida que segue.

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Entre momentos embaraçosos e pouca (ou nenhuma) vontade de estar ali, a anunciada “palestra” foi sendo conduzida um tanto aos trancos e barrancos.

Um aspecto notado durante recente entrevista à Vice Brasil é que Nan parece incomodada com alguma coisa, sem vontade de comentar seu trabalho nem paciência alguma em contextualizar seus saberes com o que acontece localmente, uma tendência que as pessoas têm quando conhecem alguém como ela. Natural. Isso ficou bastante nítido o tempo todo na palestra e não somente por conta da incapacidade do mediador em questioná-la, como também nas respostas rasas e sem entusiasmo algum dadas tanto à plateia quanto ao agente fazendo as vezes de “entrevistador”. Nan deixou o palco às escondidas enquanto passava um slideshow de quase 15 minutos com a série de fotografias “Balada da Dependência Sexual” e demorou a retornar. “Não aguento mais ver isso”, anunciou secamente enquanto tomava seu lugar.

Com certeza a melhor maneira de conhecê-la é (e continua sendo) através de sua obra.


Fábio Jorge

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