Fábio Jorge

Não sou daqui nem sou de lá, eu sou de qualquer lugar.
Meu passaporte é espacial, sou cidadão da terra

O Maestro Assíncrono

"Async" é uma colagem muito bem realizada, cuidadosamente elaborada, inconscientemente desenhada em cores opacas sob uma mágica tela em branco.


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Caiu a ficha da mortalidade.

Logo para ele que ao longo de sua profícua carreira musicou as maravilhas do mundo, encantou os ouvidos da humanidade com algumas das mais inspiradoras melodias que se tem notícia. Dessa vez o maestro tenta o (ainda mais) diferente, o incomum em maximidade - o que mais o poderia ser incomum para o homem que nos anos '80 deu vida ao Pop Eletrônico japonês e mais recentemente trabalhou com as mínimas frequências de som em colaboração com o alemão Alva Noto?

Restou a assincronia inexplorada.

Em entrevista para a rede japonesa de televisão NHK, Sakamoto pontua genialmente com propriedade que em toda a história os sons foram musicados primordialmente com bases sincrônicas, sempre em perfeita consonância matemática e em contagens exatas: estava mais do que na hora de quebrar essa fórmula imposta para casar as notas e frequências de outra maneira. Foi exatamente com essa ideia em mente e um bom telefone celular nas mãos que ele passou a coletar sons e ruídos diversos durante suas caminhadas a pé em grandes cidades como Nova Iorque e Tóquio, as unindo magistralmente em estúdio, transmitindo com suavidade e inteligência (que lhe são características) toda a ambiência de seu momento, sua realidade atual.

Nitidamente procurou afastar-se um pouco da utilização erudita do piano, sua marca registrada por tanto tempo. Tal distanciamento ocorreu naturalmente, sem rejeições pretensiosas nem nada do tipo, mas como uma autêntica e inebriante ferramenta inovadora, renovando-se artisticamente como há muito vem fazendo constantemente. Retira um pouco o véu de superioridade e altivez que a regência inevitavelmente carrega para vagar entre a gente cotidiana, especificamente os urbanóides que fazem parte de sua rotina diária.

"Async" é uma colagem muito bem realizada, cuidadosamente elaborada, inconscientemente desenhada em cores opacas sob uma mágica tela em branco. Nada de olhares nostálgicos nem lembranças saudosas: Sakamoto mantém-se firme fitando horizontalmente em temas como nascimento, a morte inevitável, a natureza em suas manifestações e o perambular humano.

Nada disso faria sentido se Ryuichi assumisse uma postura romantizada frente a esse projeto, na pele do personagem autossuficiente que sempre fez questão de publicizar. Chegou a hora do homem descer do pedestal pessoal (seja ele qual for) e assumir de uma vez por todas seus medos, fraquezas, ou simplesmente expurgar suas mais íntimas controvérsias ao universo como forma de curar-se por inteiro. Que momento magnífico testemunhamos em "Async".

Ryuichi precisa do mundo e o mundo precisa de Ryuichi.


Fábio Jorge

Não sou daqui nem sou de lá, eu sou de qualquer lugar. Meu passaporte é espacial, sou cidadão da terra.
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