mais uma voz

Passeia entre palavras, transparências de aquarela e cotidianos

Ketllyn Fernandes

Jornalista por formação. Artesã e artista plástica por sina. Sobrevivente das intempéries da vida e ávida por seus desdobramentos. Inquieta-se com injustiças. Fala sobre o belo, sobre o feio e sobre a necessidade de pensar a vida.

Vida que trava

Um ensaio sobre a tomada de consciência de que se está vivo. Você está vivendo ou simplesmente existindo? “Quando sente medo de pular, é o exato momento em que precisa pular.” - J. C. Chandor


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A folha de papel em branco é quase sempre encarada com certo tormento por escritores e artistas. Pode haver um grau de prazer, mas verdade seja dita, todos que se propõem criar algo, seja profissionalmente ou não, já passaram, mais de uma vez (garanto), pela experiência de fixar o olhar sobre a brancura do vazio a ser preenchido com ideias e, então, “travar”. E é assim que inicio meu primeiro texto aqui na Obvious. Como jornalista que escrevia para um site de notícias, muitas vezes o word em branco era preenchido em questão de minutos por conta da pressa em dar o chamado “furo jornalístico”. Passado o entusiasmo em alcançar o clímax próprio dessa profissão vinham, muitas vezes, as correções gramaticais que passaram despercebidas, até, em alguns casos, erros ou incoerências informacionais (o que é bem mais grave que comer uma letra em uma palavra tratando-se de fatos reais). O mesmo me ocorre agora que assumi meu lado artista. A cada nova pintura, novo impacto em branco. Feita a devida introdução de um pouco do que sou e vivi, pergunto: “O que é a vida senão essa folha?”

Esse gancho comparativo diz mais sobre mim do que sou capaz de compreender no momento (uma tarefa a mais para minha analista), e me ajudará no desenrolar deste texto – que há muito ensaio para escrever, numa espécie de tentativa de alertar (inspirar) aqueles que se encontrem “travados” diante da vida que vivem, fruto de escolhas que fizeram lá atrás, ou ontem. Neste exato ponto tenho ideia do que pretendo expor, mas não sei bem como fazê-lo. Mais uma vez, o papel toma as vezes da vida, percebem?

Entre os 24 e 26 anos eu cheguei exatamente neste parágrafo de existência. Tinha realizado o sonho de me formar num curso superior, estava empregada no local em que estagiei e já havia assumido o cargo de editora, posição que me desafiou e jogou na minha cara o quanto havia para se aprender – sobre jornalismo, sobre convívio profissional e familiar, sobre o outro e, principalmente, sobre mim.

Desde que me entendo por gente a vida foi se impondo. Aprendi desde muito cedo a aproveitar toda e qualquer oportunidade que me chegasse. Sinceramente, hoje percebo que a realidade financeira da época não permitiu sequer a avaliação se se tratava de fato de uma oportunidade. Sendo assim, desde os 18 anos nunca rejeitei uma chance de trabalhar, se não soubesse como fazer, fingia saber até aprender. Por sorte, deu certo. Nunca fiquei desempregada. Não me arrependo, até porque não se volta ao passado. Foi fazendo isso que agora posso me sentar confortavelmente em frente ao meu notebook, no apartamento que pago com meu marido, e organizar as ideias para escrever sem pressa alguma, a meu próprio deleite. Para mim, isso é um luxo dos mais requintados.

Pois bem, não foi sempre assim. Caso eu continuasse seguindo o que parecia ser o certo para uma parcela das pessoas com as quais convivia (leia-se aqueles que estão vivendo suas próprias vidas e querem dar exemplo de tudo como se a vida de outrem lhes pertencesse), e não o que sinto como certo em meu íntimo (algo que só tomei consciência bem depois), eu estaria preocupada porque teria de trabalhar em algo que há tempos deixara de ser prazeroso (por questões pessoais e até estruturais da empresa, como carga horária excessiva e equipe insuficiente – assunto bastante batido atualmente e que motiva inúmeros textos sobre estafa mental). Em resumo, eu estaria infeliz, transbordando essa infelicidade a quem estivesse próximo.

Em vez de falar sobre meus novos projetos, sonhos, ideias e rir à toa quando encontro amigos e familiares, eu estaria trancafiada na redação reclamando das notícias de ocorrência policial ou acidentes, que pelo teor de morte e violência por si só acabam com meu dia. Aqui é preciso um breve esclarecimento: que fique bem claro que há repórteres satisfeitos com essa rotina e que estou a usando apenas como exemplo para mostrar que cada pessoa é um universo e que há particularidades a serem observadas, não empurradas para debaixo do tapete.

Enfim, tudo é escolha. Eu escolhi permanecer nessa rotina até a bolha estourar, ou melhor, uma ventania levantar o tapete e espalhar toda a poeira – fora do sentido figurado essa tempestade pode ser qualquer fatalidade, da doença de um familiar a uma crise com superiores no trabalho, apenas para citar. Cheguei a pensar que havia escolhido mal a profissão, já que pendo para as artes plásticas desde criança. De repente me dei conta de que, contrariando tudo que me faz bem, naquele momento eu estava sendo editora/repórter full time – já não tinha tempo para amigos ou de ler literatura ou poesia, quem dirá desenhar. Vale frisar que não havia sido consultada com antecedência sobre tal disponibilidade. À época, sequer conhecia os prejuízos pessoais caso tivesse escolhido por ela. Eu queria tão somente ser o meu melhor naquela profissão para a qual lutei para conquistar o diploma. Dedicar-me, dedicar-me, dedicar-me...

Fui empurrada para uma rotina desgastante devido ao senso de responsabilidade que adquiri com as adversidades da vida e o misto de imaturidade e insegurança por conhecer apenas a realidade de uma única redação desde a época do estágio. E assim foram-se mais de três anos. Uma média de 1.200 dias foram consumidos dessa forma, cegamente, pois quando não estava trabalhando, estava triste por estar cansada ou preocupada com o dia de amanhã no trabalho. Às vezes tinha a sensação de ter dormido no trabalho. No início eu me orgulhava de tamanha dedicação, mas uma hora a ficha cai, e como prega a Lei da Gravidade, quanto mais alto, maior o peso e, consequentemente, o impacto.

Passados cerca de seis meses desde que encarei o monstro do desconhecido, resgato por meio deste texto-relato a consciência de que o jornalismo não foi um erro de percurso, como cheguei a pensar. Certamente o erro foi insistir em algo que estava fadado ao fracasso desde que o trabalho ora prazeroso e instigante se tornou um fardo pesado demais para o meu ser, e aqui falo do que sinto em mim, das minhas fragilidades enquanto pessoa, jovem, mulher e profissional. Falo da forma como o assassinato de uma criança que me cai em forma de notícia a ser feita me atinge, ou como certas escolhas editoriais dos superiores eram acatadas por mera obediência, mas não assimiladas; e assim a vida ia sendo levada, aos trancos e barrancos nas relações profissionais, familiar e íntima.

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Somos seres acumuladores por natureza. Reparem, acumulamos de tudo em nós: alegrias, tristezas, fracassos, vitórias, cicatrizes materiais e emocionais. Esses acúmulos são fundamentais para quem vamos criando em nós e que fica exposto àqueles que nos cercam. Também estão ligados ao que consideramos na hora de escolher o que levarmos conosco o resto da vida para presentear nossos dias e o que deixaremos no primeiro lixo que cruzarmos no caminho.

Alguns nunca tomam consciência disso e simplesmente vão acumulando, se lotando de coisas que não vão ser úteis para uma vida plena, no sentido de bem viver – o que é bem diferente de estar explodindo de alegria o tempo todo, a tristeza é parte da vida como o é a própria morte. Pior que viver inconsciente, é influenciar outras pessoas a fazer o mesmo. Isso pode ocorrer por medo e insegurança, por falta de oportunidade de se autoconhecer enquanto indivíduo único e dono de uma vida também única (e curta), enfim, são inúmeros motivos. Essas pessoas (e eu fui desse time por longos anos, talvez ainda seja em algum grau), às vezes nem percebem que viveram uma vida que não era a sua. Uma pena. Pessoas conscientemente vivas podem ser muito úteis ao mundo, às pessoas e a si mesmas.

Caso se enquadre nesse perfil, seja como o indivíduo “cego” de si mesmo ou como aquele que dificulta a tomada de consciência desse alguém, respire fundo, feche os olhos se for preciso. Você pode estar diante de um dos principais desafios da sua vida. Pode ser que num relance, você mude tudo em sua rotina. A partir daqui, pode ser fácil ou difícil, vai depender de você, de quem o cerca (principalmente de quem você vai escolher que continue ao seu redor), do que você faz profissionalmente, dos seus hábitos diários, se está disposto a abrir mão de certas garantias, como um salário fixo, por exemplo. É preciso saber que pode ser dolorido também, mas com certeza menos que levar uma vida medíocre estando consciente desta situação de aprisionamento. Exercendo o papel de quem finge que não vê.

Em suma, para receber o novo presente – tanto no sentido de tempos verbais como no de mimo, agrado –, é preciso desapegar, sair da zona de conforto que tanto desconforto causa. Abra espaços, igual se faz numa folha a ser escrita, com os parágrafos em que o leitor pôde respirar (para tomar fôlego ou suspirar). Lembra daquela aula de Física que dizia que dois corpos não ocupam o mesmo espaço? É assim com escolhas. Algumas são simplesmente incompatíveis umas com as outras. Diferente do que ocorre com uma folha de word, de chamex e de desenho, a vida real segue, esteja você travado ou não.

“Quando sente medo de pular, é o exato momento em que precisa pular. Senão, você fica estagnado por toda vida. E isso eu não posso fazer”. (Do roteirista J. C. Chandor em o Ano Mais Violento).

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Ketllyn Fernandes

Jornalista por formação. Artesã e artista plástica por sina. Sobrevivente das intempéries da vida e ávida por seus desdobramentos. Inquieta-se com injustiças. Fala sobre o belo, sobre o feio e sobre a necessidade de pensar a vida. .
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