mais uma voz

Passeia entre palavras, transparências de aquarela e cotidianos

Ketllyn Fernandes

Jornalista por formação. Artesã e artista plástica por sina. Sobrevivente das intempéries da vida e ávida por seus desdobramentos. Inquieta-se com injustiças. Fala sobre o belo, sobre o feio e sobre a necessidade de pensar a vida.

O dia em que policiais pagaram a fiança de um “ladrão” e mataram sua fome

Há, por trás das manchetes apelativas, uma realidade indigesta sobre o país em que um pai de família desmaia de fome ao ser preso por tentar roubar comida para o filho. Você leu essa notícia ou preferiu olhar o horóscopo, futebol e resumo de novela?


ligado-na-tv1 ilustração.jpg Quinta-feira, 14 de maio de 2015. É noite, estou cansada, acordei 6h20 da matina, e até aqui realizei todas as atividades programadas para este dia que nunca mais se repetirá. Até aqui estou segura em afirmar que tive um dia bom (apesar do transporte público caótico, da grana apertada por causa da inflação e do medo de ser vítima da violência porque nosso país deixa tudo a desejar nesse quesito). Fiz o que me traz paz: cuidei de mim, da minha casa, da minha mente, do meu corpo e da minha cadela. Cheguei em casa eufórica para pintar após uma aula inspiradora, mas estou escrevendo...

É que na vida real, nesse meu dia cor de rosa, uma nuvem carregada de angustia pairou e desfez parte do equilíbrio. Desde de bem cedo tenho visto a repercussão do caso do eletricista desempregado que foi preso ao tentar furtar dois quilos de carne para alimentar o filho. Alguns sites o chamam de ladrão na manchete. Mas não, não foi esse fato que o fez virar notícia Brasil afora. Tem ladrão para todos os gostos neste país, só mais um não viraria notícia.

Esse cidadão brasileiro, teoricamente resguardado pela ilustríssima Constituição Brasileira, recebeu a caridade dos policiais que o prenderam. A atitude dos servidores do Estado responsáveis pela segurança pública é que deu o fator notícia à história deste pai de família. Ao saberem a motivação para o “crime” os agentes pagaram a fiança e lhe deram uma espécie de cesta básica. O preso e seu filho, de 12 anos, estão passando fome porque têm vivido basicamente com os R$ 70,00 do Bolsa Família há três meses. Ao chegar à delegacia ele desmaiou, mas não foi de nervosismo ou susto, foi de fome... Relutei em cansar minhas vistas em frente ao computador, mas eu não consigo engolir tamanho grito interno sozinha.

Embora eu seja jornalista, a intenção aqui não é questionar ou debater sobre o viés noticioso do fato, que sim, é digno de notícia. Também vou tentar não me prender a questões ligadas à maneira como a mídia tratou o caso, até porque li sobre o ocorrido somente em três sites, provavelmente há artigos ou algo mais aprofundado sobre (ou não).

O que eu sinto enquanto digito é um misto de tristeza e indignação, com uma boa dose de impotência. Tenho sentido isso em relação aos rumos do nosso país há tempos. Hoje enquanto lanchava com colegas de um curso devo ter tornado a conversa um pouco séria ou cansativa para a ocasião justamente por me expressar a respeito desse sentimento. Essas manchetes sobre esse homem foram a gota d’água.

As vezes que senti fome e não a saciei de imediato foi porque o dia estava corrido, tinha muito trabalho, ou estudo, ou não tinha como comprar naquele momento, naquele determinado lugar. Mesmo assim sei que a fome dói, dilacera, incomoda e corrói. Chega uma hora que tomar água ou mascar chiclete só piora a fome. Fome pode matar!

fome product_of_capitalism_by_lastlifeinmyuniverse.jpg

Mas estamos em 2015, era para estar tudo “as mil maravilhas”. Ou será que o Brasil piorou tudo em cinco meses? Porque no ano passado, ano eleitoral, dava gosto viver aqui no Brasil e em meu Estado. Quando fulano, ciclano e beltrano fossem eleitos aquilo que precisasse melhorar ficaria perfeito (não se falava que algo estava errado, mas que estava em andamento, em fase de implantação e afins). Só que não!!! (usuária da internet que sou, precisei recorrer a esta expressão, me perdoem).

Quanto ganha mesmo os políticos? (Li recentemente que tinha vereador reclamando de ganhar só R$ 10 mil...) Quanto se gasta mesmo com mordomias as mais diversas, criativas e requintadas nas casas legislativas neste país continental? Nem vou falar sobre o quanto foi, tem sido e será desviado via corrupção. O trabalhador Mário Ferreira Lima, de 47 anos, desempregado desde março, é só mais uma vítima do Brasil e da cultura de parte considerável de brasileiros. Os policiais que o socorreram fazem parte da exceção.

Não acho certa a tentativa de roubo, mas eu nunca vi quem eu amo e depende de mim passar fome, então, não me sinto confortável em achar nada quanto a isto. Todavia, considero lamentáveis as circunstâncias políticas, econômicas e mesquinhas de nossos governantes que levaram esse pai a fazer isto. Que deixaram esse pai dois dias sem comer para deixar um único pão francês para que o filho comesse e não viesse a desmaiar... de fome.

Enquanto isso a imprensa esfrega em nossas caras manchetes que o chamam de ladrão, ou colocam títulos com apelação emotiva e assim angariam acessos em seus sites (leia-se ganham dinheiro). Muitos vão apenas se conformar e dizer que é esse mesmo o papel da mídia. É, para quem é adepto do jeitinho brasileiro e só vê o próprio umbigo talvez seja mesmo.

Essa notícia e o fato por trás dela me desiludem ainda mais. Talvez eu devesse ficar esperançosa de haver pessoas como os policiais. Na verdade fico, mas eu queria mais, se é que me entendem. Gostaria de viver num país em que o Mário não estivesse desempregado há tanto tempo (sim, para um pai que tem que colocar comida na mesa, três meses são quase uma eternidade: 90 dias, 2.160 horas, 129.600 minutos, aproximadamente). Me sentiria bem caso o proprietário do estabelecimento, vendo que ele iria pagar parte da compra, lhe desse o que não conseguiria pagar ou lhe vendesse fiado – porque este homem estava levando, com os R$ 14,00 que tinha tirado da poupança (o restinho de seu patrimônio), pão, muçarela, mortadela e a carne, cujos dois quilos somou R$ 26,00, que ele não tinha de onde tirar.

Até o dinheiro do Bolsa Família sair, ele e seu filho, em fase de crescimento, cabe lembrar, iam se alimentar disso: pão, muçarela, mortadela e carne. É essa a alimentação sadia garantida pela senhora Constituição? Como será que nossos políticos se alimentam? Nossos excelentíssimos deputados, por exemplo, além do salário muito acima da média para a realidade do povo brasileiro recebem outros tantos mil para suprir a necessidade de se alimentar fora, afinal “trabalham” o dia inteirinho e o café da manhã, almoço, lanche da tarde, janta, ceia e etc são “só” ajuda de custo. Outra possibilidade que me confortaria seria saber que a fiança não seria cobrada após a situação ser esclarecida, já que a culpa inicial é do senhor Estado Brasileiro.

Mas... no Brasil que estamos deixando seguir melindrosamente, amanhã essa notícia será mais uma página virada, notícia sem destaque nos sites. Provavelmente receberá as chamadas suítes, para render mais acessos. Pode ser que alguém se comova e ofereça emprego para o Mário – e eu torço para que isso aconteça – , pena que temos mais milhares de Mários cujas histórias não rendem manchete.


Ketllyn Fernandes

Jornalista por formação. Artesã e artista plástica por sina. Sobrevivente das intempéries da vida e ávida por seus desdobramentos. Inquieta-se com injustiças. Fala sobre o belo, sobre o feio e sobre a necessidade de pensar a vida. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @obvious //Ketllyn Fernandes