mal formulado

Impressões entre margens...

João Crepschi

Licenciado em Letras pela UNICAMP, professor especialista em "Discurso e leitura de imagem" pela UFSCAR, mestrando em Teoria e História Literária pela UNICAMP. Ex-ator. Dramaturgo, nas horas vagas. Interessa-se por sexualidade, margens, pela integração das artes e o que esta pode dizer do humano.

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Amor: astronomias de um (des)conhecido

Sobre a real (im)possibilidade de amor e amores...


Dos trovadores provençais e suas vassalagens amorosas aos romances cancerígenos e estelares de John Green, começo criticando a permanência de um modelo amoroso entre nós que, aqui, chamarei de “amor romântico”. Assim, inspirada por Hollywood, canções populares e contos de fada, toda uma juventude inda espera o amor monogâmico que arrebata, aquece, dá sentido quase único à vida e cujo vazio ontológico é preenchido por sessões de cinema às sextas-feiras, flores, almoços em família e conversas fáticas. Gostaria de questionar que há de dependência e exclusivismo neste modelo que, parece-me, cerceia nossos sentimentos e emoções, outorgando normativas que engendram relacionamentos tradicionais, caretas e, muita vez, machistas.

tristan-and-isolde.jpg!HD.jpg ["Tristão e Isolda" (Salvador Dalí, 1944). Fonte: Wikiart]

Como pedra angular do amor romântico, ouso sugerir certa ficcionalidade ou idealização.Explico-me: amar seria um autoengano em que fingimos ser melhor do que somos, para que nos tornemos objeto de desejo do outro - idealmente perfeito - e é com este que tencionamos atingir um estado de completude, o qual, diga-se, não existiu, não existirá, nem precisa existir, mas que permanece no ser romântico como imagem ideal. Daí, diga-se de passagem, decorreria o “problema” em ser solteiro ou solteira. Alguém que não “ame” ou que perambule só pela vida é visto como incompleto, infeliz e, por vez, alvo de desconfiança.

Além do mais, não haveria nesta idealização de si uma inaceitação da nossa mediocridade? E não haveria na idealização do Outro uma inaceitação da Falta (em efes maiúsculos), ela própria tão constitutiva de nossa relação com o mundo, nos dizeres de Lacan? Não seria causa central de nosso sofrimento amoroso esta incapacidade de aceitarmos o caráter faltoso e “castrado” de qualquer relação (amorosa)? Parece-me que aceitar a imperfeição e limitação das coisas, inclusive do amor, é o que caracteriza a conquista da maturidade, e não será isto que diz Drummond quando verseja: “Amor é privilégio de maduros”? O amor romântico, além disto, não poria à parte o que há de pragmático numa relação amorosa como a convivência (em seus maus humores e maus odores) e a relação com o dinheiro? Aludo, aqui, aos versos sagazes de Cazuza, em cantando “Todo amor que houver nesta vida/E algum trocado pra dar garantia”, “E ser artista no nosso convívio/Pelo inferno e céu de todo dia/ Pra poesia que a gente não vive” (grifo meu). Ora, por que o amor deve ser apenas único, mágico e especial? Mais: até que ponto o conceito do amor romântico limita nossas formas de amar e de sermos amados? Será ele a única forma de amor possível? E a liberdade no/do amar? E o desejo sexual e/ou amoroso por outras pessoas?

Na contramão de uma sociedade que aceita o casamento sem amor, mas repudia o sexo casual, surge o amor livre, potencializado por toda uma geração de hipsters e hippies que, como se sabe, levaram às últimas consequências o pansexualismo, de inspiração reichiana, e a prática de um amor anárquico sem posse, controle ou nome. Ideal bem sintetizado na frase atribuída a Raul Seixas de que “só há amor quando não existe nenhuma autoridade”. O amor livre, parece-me, recusava a monogamia heterossexual como imposição e, sobretudo entre os hippies, estava ligado a um processo de desapego material neo-zen muito maior, isto é, se um livro, roupa, casa, carro não são “meus”, não faria sentido chamar de “meu” ou “minha” um namorado ou namorada. Pergunto-me se, vivendo no bojo intramundano capitalista, estamos ou não preparados para este exercício de desapego. Não estaria, aí, a raiz do fracasso de muitos relacionamentos ditos livres, que acabam sempre com a frase “Você me enganou!” ou “Você me traiu!”? Criados que fomos dentro de um discurso monogâmico e patologicamente ciumento, seríamos nós capazes de ressignificá-lo? Por que este discurso não poderia ser aceito como uma nossa limitação? Mais que isto: o amor livre seria o desapego zenbudista levado às últimas consequências ou apenas uma teatralização beat de nós mesmos? É ele, de fato, possível ou significaria um enfraquecimento dos vínculos pelo medo em nós entranhado de (nos) perdermos (n)a pessoa amada, tendo, assim de lidar, com a morte? Inevitável lembrar, aqui, de Edgar Morin, quando diz que “Nas sociedades burocratizadas e aburguesadas, é adulto quem se conforma em viver menos para não ter que morrer tanto.”

E se até aqui tratei de extremos, obrigou-me a isto a clareza e não a desconsideração de formas híbridas de relacionamento que possam ser “parcialmente livres” ou “não-totalmente monogâmicas”. Para além disso, rótulos são sempre limitantes. Pensemos, assim, à moda de Stendhal, no amor (tomado em sentido amplo) hodierno e n’alguns possíveis óbices a sua realização plena, a começar pela fragilidade dos laços humanos enunciada por Bauman, diretamente associada ao nosso egoísmo, “heteronomismo” e medo exacerbado de sofrer, fatores, propomos, complicadores para a realização amorosa. “Quem de dentro de si não sai vai morrer sem amar ninguém”, já cantava Vinícius de Moraes e eu me pergunto: estamos dispostos? A necessidade do sofrimento como requisito à conjunção amorosa, tão bem expressa no mito de Eros e Psiquê, é ainda uma verdade entre nós, hedonistas hipermodernos que somos? Aliás, de que modo a juventude tem sido “educada” para o amor: pra sofrer mais ou menos com ele? Por fim, não seria o individualismo pós- moderno ingrediente a nos fazer mais e mais narcísicos, a mergulhar nas águas de nossa solidão auto-imputada?Questiono-me, ainda, inspirado, sobretudo pelo filme “Ninfomaníaca”, de Lars Von Trier, sobre a existência ou não de uma ditadura do amor a enrijecer-se cada vez mais entre nós. É preciso amar? Ou somos meros negativos fotográficos da personagem Tomas, de Milan Kundera, que “compreendendo em seu foro íntimo sua inaptidão para o amor, começa a representar para si próprio a comédia do amor”?

E o amor na contemporaneidade é condição para a realização pessoal ou é aprisionamento de subjetividades? É possível ou desejável um vínculo em que as pessoas não sejam aprisionadas e não se dissolvam na união? É possível/desejável que o outro não seja alguém de quem nos sirvamos, como o leito sádico do tirano Procrusto, metáfora plena do amor que aprisiona? Há amor ou (só) buscamos um “paizinho” ou “mãezinha” num relacionamento possessivo e imaturo a engendrar sofrimento e pouca evolução? Há amor ou só dependência e satisfação de desejos sexuais? O estar-junto pode ser opção e não necessidade? Pode o estar-junto ser uma liberdade curtida a dois, três, vários, um? Necessário, creio, se faz problematizar, ainda, a noção de um amor que completa e que se completa. Todo mundo tem de encontrar a “outra metade” para ser feliz? Amados se completam e as imperfeições se retificam? O relato aristofânico em “O Banquete” aponta para um aperfeiçoamento do eu ou para a totalização do ser? E o amor? Totaliza-se? Ou, como aponta Lacan, somos condenados a desejar, num desejo que se desdobra incansavelmente sem que haja a possibilidade de um fechamento? Voltamos à castração?

Há quem diga que a fórmula do amor seria o somatório de atração física mútua, afinidades e, se o objetivo de um relacionamento qualquer for que um ajude o outro crescer, sem que a relação fique “paternal” ou “maternal”, seria importante que estivessem mais ou menos no mesmo “patamar” de evolução. Ora, isto basta? Não seria o acaso um elemento a incluir? Seríamos nós capazes de, como propõe Martin Buber, rotular menos, aceitar os riscos e entregarmo-nos a um amor sem objeto e que, simplesmente, acontece, “tijolo com tijolo num desenho” (i)lógico?

Se, segundo a sabedoria chinesa, “o lugar mais sombrio é sempre embaixo da lâmpada”, encerro afirmando que não quero, nem posso definir o amor ou teoriza-lo de modo amplo, até porque seu domínio é misterioso e “só se conhece pelos frutos”. Entretanto, creio que o mérito desta discussão é o de nos fazer refletir sobre o amor, a fim de que possamos dialetizar nossa relação micro e macropolítica com este sentimento.

Ante o amor, declaro publicamente meu agnosticismo, apoiado na cantiga do trovador Nuno Fernandes Torneol: “Pois nasci nunca vi amor/E ouço dele sempre falar./Pero sei que me quer matar/Mais rogarei a mia senhor/Que me mostr' aquel matador/Ou que m'ampare del melhor.”


João Crepschi

Licenciado em Letras pela UNICAMP, professor especialista em "Discurso e leitura de imagem" pela UFSCAR, mestrando em Teoria e História Literária pela UNICAMP. Ex-ator. Dramaturgo, nas horas vagas. Interessa-se por sexualidade, margens, pela integração das artes e o que esta pode dizer do humano. Contato: [email protected]
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