mal formulado

Impressões entre margens...

João Crepschi

Licenciado em Letras pela UNICAMP, professor especialista em "Discurso e leitura de imagem" pela UFSCAR, mestrando em Teoria e História Literária pela UNICAMP. Ex-ator. Dramaturgo, nas horas vagas. Interessa-se por sexualidade, margens, pela integração das artes e o que esta pode dizer do humano.

Contato: [email protected]

O estralar do ovo: cartografias do feminino

Sobre mulher, mulheres e a (im)possibilidade de uma sexualidade feminina perversa e transgressora...


Daisies.png [Cena do filme "Daisies" (Vera Chytilová, 1966)]

Ante o desafio de dissertar sobre a mulher e o feminino, quase tudo se me obscurece a vista: enquanto homem, jovem e homossexual, sou eu autorizado a falar de mulher? Dizer dela é calá-la? Não dizer dela, silenciá-la? E que dizer se só e tudo o que vejo é o ovo clariceano sobre a mesa? Olho-o e ele me olha, oblíquo. É preciso, não obstante, ir adiante – regras da casa – e eu, na e através da dúvida, tento aproximações com o palácio do feminino. Duas questões contorcem-me mais: o que é mulher? E como se daria uma perversão feminina, sem os contornos do fálico? Em outras palavras, tento aproximações com o ovo e desejo saber como – e se – estrala. Sigamos.

A filósofa Elsa Dorlin, em “Sexe, genre et sexualités”, aponta para um certo impasse entre sexo e gênero: isto é, ou cremos que os critérios naturais de distinção sexual são falhos, ou pensamos gênero enquanto critério social infalível, o que também é problemático, porque arbitrário. Judith Butler, em “Gender Trouble”, propõe gênero como construto cultural, mas pensa o sexo inda presa a uma concepção positivista de macho e fêmea que se (re)constroem. Pergunto-me: há mulher? Há mulheres? Precisamos da distinção de gênero/sexo ou poder-se-ia amar o humano, como se propôs, até a estafa, nos 70? Sexo e gênero falham e a mulher permanece ou parece permanecer no campo do indefinível (e não haverá, aqui, uma forma pernóstica de segregação do feminino?)

Ora, é difícil abandonar a distinção homem-mulher, porque construída historicamente e porque engendrou e engendra distinções e desigualdades. Diz Beauvoir que “a mulher livre há de sê-lo contra o homem”. Liberdade e emancipação aparecem, assim, como conquistas que, hoje em dia, situar-se-iam muito mais na esfera doméstica, uma vez que inda não se questionou (no Brasil e no mundo emergente) completamente a divisão sexuada das tarefas. Penso a imagem da Bela Adormecida acordando com desprazer, pois o Príncipe pode não agradar sempre. Genial, Beauvoir, mas há impasses: o relacionamento heterossexual entre homem e mulher teria (ou terá) de ser sempre combativo? E é possível abandonar ou relativizar de todo posições nas quais fomos criados? E como fica o desejo, todo ele – claro – legítimo, heterossexual de uma mulher por um homem?

E se o ser mulher é tão pouco afeito a definições (e não o será o humano?), e a desigualdade perpetrada pelo machismo é fato a ser revolucionado, essa desigualdade, para a mulher, começa cedo: de saída, dirá Beauvoir, ser mulher é ser menos, pois, segundo a filósofa, a menina é “aos seus próprios olhos muito mais opaca a si mesma, mais profundamente possuída pelo perturbador mistério da vida”, e não “pode se encarnar em nenhuma parte de si mesma”. Daí a boneca, “coisa passiva”. Um devaneio cintila: quando criança, proibiam-me meus professores de entrar na “Casa de Bonecas”, um mini-lar feito com vários compartimentos “só para meninas”. Meninos podem levantar os vestidos das bonecas, manipulá-las a valer. Meninas são mães compulsórias e incompreensíveis de si mesmas. Versos d’“O ginecologista” de Ana Cristina César ecoam...O médico sádico e tarado olha-lhe as entranhas, vê a mulher “clara e lúcida”. Ele pode, ele é, ele faz. Lanterninha fálica em mão, manipula a mulher e sonda-lhe o mistério, num processo a ele sexual (mesmo que banal). Cheiros e PH’s vaginais o excitam. A paciente é violada. O ovo estrala sem consentimento. Ou consentindo...

Adentro, agora, aos pedregosos (e quiçá gozosos) terrenos da sexualidade (feminina), sondando-lhe perversões e possibilidades de transgressão real. Diz-nos Beauvoir que o homem ocidental mediano almeja a mulher que se “sujeita livremente” (paradoxo?), aquela que acabe “se deixando convencer”. É assim também na conquista sexual. Parece-me que, hoje, a mulher deve ser recatada até a página dois, resistindo um pouco, mas cedendo ao domínio masculino. Há até mesmo mulheres machistas (lembremos: a opressão existe, porque o oprimido compactua com o opressor) que defendem a ideia de que não se deve usar roupas “provocantes”, seja lá o que isto seja. E é quase impossível não lembrar de Camille Paglia, em entrevista à Folha, afirmando que se se veste com roupas provocativas, a mulher está comunicando que gosta de sexo e pode receber ofertas. Ora, por que parece mais improvável pensar em homens que não gostem de sexo? Há mulher que não goste? Mais: por que, segundo Beauvoir, a mulher é vista como carne em suas delícias, mas não pode ela própria ver o homem assim? Por outro lado, ver o homem como carnal e sexuado não seria “cair” na mousetrap de uma sexualidade masculina e machista? A sexualidade feminina deve marcar-se por igualdade ou distinção para ser subversiva e transgressora?

Eis que nos deparamos com a complicada dicotomia entre igualdade de tratamento homem-mulher (“impondo a todos um critério deformado”, segundo Nancy Fraser) ou diferença (baseada em “noções essencialistas de feminilidade”). Tentemos transpor isto para a sexualidade feminina: como pensa-la distinta da masculina, sem essencialismos, novos machismos e/ou carícias sexuais poucos venenosas?

Também não seria caso de pensar-se as normas socialmente constituídas que definem o “bom” do “mau” sexo como funcionando em “em dois pesos e duas meninas”? Ao homens, lembremos, faculta-se a possibilidade de serem menos castos, enquanto, para as mulheres, o sistema é mais fechado. Nesse sentido, é preciso, talvez, advogar em favor de uma igualdade. A questão espinhosa, entretanto, é pensar em que medida formas de sexo “anormais” como o casual, o pornográfico, o “com objetos” e o sado-masoquista são perversões femininas que liber(t)am a mulher e não a objetificam ou tornem fálica. Em outras palavras, o que seria uma perversão sexual genuinamente feminina, que não caia nem no machismo do Marquês de Sade, nem na cafonice pequeno-burguesa de um “Azul é a cor mais quente”?

Como bem se nota, o percurso que tentei empreender neste ensaio é falho, na medida em que muito mais duvidoso que afirmativo e porque quase me soa como se falar de mulher fosse, para o homem, sempre um risco a resvalar em machismos. De qualquer maneira, espero ter explicitado o indefinível, que, se por um lado segrega, também aproxima de mim a mulher; e o campo aberto de uma sexualidade feminina a construir-se, sem sucumbir às armadilhas do fálico, do conceitualismo essencialista ou do intelectualismo tão anti-gozo, como nos chatíssimos casais-Godard. A imaginação (feminina) pode, talvez, ser um caminho a trilhar-se, sem que se perca a dimensão também política e econômica da luta feminina, sobretudo num país machista, violento e segregacionista como o Brasil.


João Crepschi

Licenciado em Letras pela UNICAMP, professor especialista em "Discurso e leitura de imagem" pela UFSCAR, mestrando em Teoria e História Literária pela UNICAMP. Ex-ator. Dramaturgo, nas horas vagas. Interessa-se por sexualidade, margens, pela integração das artes e o que esta pode dizer do humano. Contato: [email protected]
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //João Crepschi