mal formulado

Impressões entre margens...

João Crepschi

Licenciado em Letras pela UNICAMP, professor especialista em "Discurso e leitura de imagem" pela UFSCAR, mestrando em Teoria e História Literária pela UNICAMP. Ex-ator. Dramaturgo, nas horas vagas. Interessa-se por sexualidade, margens, pela integração das artes e o que esta pode dizer do humano.

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O politicamente incorreto e o “marxismo” dos Irmãos Marx

Sobre o politicamente incorreto e a função do humor. Uma ode ao absurdo.


cena da cabine.jpg Cena da cabine. Filme: "Uma Noite na Ópera" (Sam Wood, 1935)

A quem goste de cinema, sobretudo o cômico, a famosa “cena da cabine” em “Uma noite na Ópera”, filme estrelado pelos Irmãos Marx, é memorável. Numa quase-ode ao absurdo, personagens as mais disparatadas vão batendo à porta de uma cabine apertada de navio e, sob condução irônica de Groucho Marx, vão entrando e agindo naturalmente. A cena, na contramão de qualquer pensamento racional, faz rir e é quase libertadora no seu anarquismo de acumulação. Que abismo se, ingenuamente, a comparamos com um tipo de humor praticado hoje, no Brasil, que zomba de minorias e até de mulheres estupradas, a pretexto de ser “politicamente incorreto”, “contraventor” ou “só uma piada”...

Ao que parece, stand-up commedians de nova geração, Lobão, Pondé e tantos outros artistas e filósofos têm-se incomodado com a ascensão de um discurso por eles chamado de “politicamente correto”, capitaneado, inda segundo eles, por uma nova esquerda e que, a longo ou curto prazo, pode vir a constituir-se como censura explícita ou boicote à liberdade de expressão. Desconstrui-lo seria, por conseguinte, conter os avanços de uma esquerda, cujo discurso tende a cristalizar-se autoritariamente e a engendrar indivíduos babacas e “brochas”. Questiono o que é politicamente correto no Brasil de hoje e se é mais necessário contê-lo, questioná-lo ou (re)propô-lo.

“Politicamente Correto & Direitos Humanos”, antes de mais nada, é uma cartilha, publicada durante o governo do presidente Lula, contendo termos ou expressões, que escondem preconceitos e que, portanto, deve(ria)m ser repensadas. “Anão”, “caipira”, “aidético”, “veado” e quejandos são expressões constantes da cartilha e comentadas, uma a uma, com, muitas vezes, sugestões de substitutos. Partindo do pressuposto do linguista Michel Pêcheux de que a ideologia se materializa no discurso, não se pode conceber que dizer “veado” e “homossexual” seja o mesmo, em dados contextos. As palavras são ideológicas e a ideologia, ao menos em Marx, é a naturalização do histórico. Parece, assim, natural dizer “ela tem cabelo ruim”, mas é histórico, conta a história da escravidão no Brasil e da segregação dos negros na sociedade, inclusive a hodierna. Óbvio que a identidade do enunciador, bem como a inflexão e o contexto com que e em que tais expressões são usadas alteram sua significação. Óbvio também que deixar de usar termos desaconselhados pela cartilha, de fato, não elimina o racismo, mas é um primeiro passo para repensá-lo, pois desnaturaliza-se, põe-se em evidência o que Jaime Pinsky chama de “preconceito nosso de cada dia”, tão entranhado, daí que tão “natural”. E a cartilha deixa claro que não se trata de censura, mas de “incentivar o debate, fomentar a reflexão”, como afirma Perly Cipriano, organizador do material. Lembro, aqui, e é inevitável não fazê-lo, das relações entre linguagem e revolução: desconstruir a linguagem é um primeiro passo para enxergar o mundo de outra forma e até mesmo de ampliar o conhecimento sobre ele. Como revolucionar costumes, política e sociedade, dentro de uma linguagem “velha”, “rançosa” e aparentemente “neutra”, que dissimula o histórico e esconde o discurso dominante?

Há, todavia, quem pense o “politicamente correto” como um discurso capitaneado pela esquerda e que, ao invés de preconizar o debate, vem se cristalizando no Brasil e constituindo-se em censura. Evidente que a esquerda, sobretudo a jovem esquerda brasileira, excede-se, por vezes, e é preciso que seja questionada, provocada, numa tensão discursiva que, para benefício nosso, nunca se esgota. A “esquerdolândia”, talvez, seja um mundo de igualdades, mas de muitas normas, regras e de “ter-se de ser e levantar a bandeira de ser” mais que simplesmente ser. Questiono, não obstante, se os gritos da esquerda (e não apenas dela, claro) por respeito aos negros, homossexuais e mulheres, por exemplo, cristalizam-se no país, de modo a boicotar a liberdade de expressão e de modo a constituir uma ditadura das minorias, gerando um preconceito às avessas contra brancos, heterossexuais e homens.

Ora, num país em que mais de 140 mil mulheres são vítimas de estupro por ano (1 estupro a cada 4 minutos); num país em que mulheres têm um salário 24, 4% menor que o dos homens; num país em que um professor de Direito afirma que lei e mulheres são para serem violadas; num país em que ocorrem 44% dos casos de homofobia letal do planeta e os gays estão alijados de direitos só reservados aos heterossexuais; num país, em que um candidato à presidência compara homossexuais com pedófilos e propõe que a maioria enfrente esta minoria; num país em que jovens negros representam 53,4% do total de homicídios; num país em que, segundo a ONU, o racismo é "estrutural e institucionalizado" e "permeia todas as áreas da vida", pois o mito da democracia racial brasileira inda é enraizado e o racista, se existe, é sempre o outro; num país como o Brasil atual, que discurso socio-historicamente cristalizou-se? Que discurso censura, mata e segrega milhares de pessoas? Que discurso sustenta uma ditadura da maioria? O politicamente correto “da esquerda”, “exagerado” por vezes, mas a engendrar reflexão? Ou o politicamente correto naturalizado de uma suposta maioria, que detém privilégios, meios de comunicação e perpetua racismos, fobias e sectarismos?

Humor politicamente correto, força centrífuga (em Bakhtin), é o que sacode e zomba do discurso sério, oficial, inquestionável, constituído. O humor que não se nega a realizar sua função social de desestabilização, corrói o discurso dominante, tira sarro do opressor, questiona tabus, liberta e corrige costumes. Satirizar negros, homossexuais, deficientes, mulheres estupradas e outras minorias parece-me, apenas, fazer o “jogo do jogo”, reafirmar discursos tão estabilizados no Brasil, por exemplo, que já nem são percebidos como tais, num preconceito estrutural dos mais perversos. Que falta fazem, hoje, os irmãos Marx, talvez mais relevantes que o próprio Karl Marx...Seus filmes primavam pela ironia, pela sátira do opressor e a vacuidade de seus costumes e, sobretudo, por zombar do maior dos tiranos: o pensamento racional. É o absurdo que vira as coisas no avesso pra mostrar o ridículo de nossa existência. O absurdo que nega qualquer autoritarismo. E faz rir, num riso, esse sim “politicamente incorreto” e libertador.

Sou groucho-marxista. Idolatro, ironicamente, a desestabilidade das coisas, sua ruína e o seu ridículo. Entremos na cabine.


João Crepschi

Licenciado em Letras pela UNICAMP, professor especialista em "Discurso e leitura de imagem" pela UFSCAR, mestrando em Teoria e História Literária pela UNICAMP. Ex-ator. Dramaturgo, nas horas vagas. Interessa-se por sexualidade, margens, pela integração das artes e o que esta pode dizer do humano. Contato: [email protected]
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