malu machado

Escrever e fotografar são atos criativos por onde reinvento o mundo

Malu Machado

E quando a nossa alma é caleidoscópica, a cada passo nos damos o direito a nos surpreender e reinventar a vida. Porque o óbvio me entendia e o novo me desafia.

As lentes literárias de Maureen Bisilliat

Uma obra de arte é aquela que transcende sua época. E o acervo da fotógrafa inglesa Maurenn Bisiliat enquadra-se perfeitamente nesta categoria. Radicada no Brasil a partir da década de 50, teve seus principais ensaios fotográficos desenvolvidos com base na literatura brasileira.


MAUREEN-BISILLIAT-por-JUAN-ESTEVES-cor-agomenor.jpg Maurenn Bisilliat / Foto: Juan Esteves

Mais de 16 mil imagens. Em fotografias, negativos e cromos. Este é o acervo da inglesa Sheila Maureen Bisilliat, que em 2003 passou a pertencer ao Instituto Moreira Salles. Nascida em 1931, Maureen é daquelas pessoas que surpreendem pela vivacidade. Filha de um diplomata argentino e de uma pintora inglesa, Maureen iniciou seu trabalho artístico também pela pintura, antes de tornar-se artista das lentes fotográficas. Viveu uma infância itinerante entre Inglaterra, Estados Unidos, Dinamarca, Colômbia, Argentina e Suíça. Mas é no Brasil que Maureen contribui para um importante trabalho artístico eternizando ilhas culturais que perpassam de ambientes pouco visitados pelo olhar cotidiano, como os premiados Xingu/Terra e o ensaio Pele Preta, totalmente feito com pessoas da raça negra.

Maureen tem aquele dom poético da fotografia, aquele “que” apaixonante de quem domina a luz e produz arte. Sua sensibilidade a fez ver no povo brasileiro uma infinidade de possibilidades fotográficas. Em 1953, mudou-se para São Paulo em companhia do fotógrafo espanhol José Antonio Carbonell, seu primeiro marido. Estudante de pintura desde o ano anterior, começou a se interessar por fotografia por influência de Carbonell. Um dos seus primeiros experimentos acontecem com imigrantes japoneses em uma plantação de algodão no interior de São Paulo.

Após algumas temporadas no exterior, onde continuou o estudo da pintura em Paris, Nova York e na Venezuela, retorna ao Brasil, já separada do primeiro casamento. Em 1960 conhece Jorge Amado e por sugestão do escritor, começa a buscar na literatura brasileira um caminho para o seu trabalho fotográfico.

Rosamenor02418GUI1823-01.jpg Retrato de Manuel Nardi, inspirador do conto "Manuelzão e Miguilim", de Guimarães Rosa 1966 Foto: Maureen Bisilliat/ Acervo Instituto Moreira Salles

Foi assim que o Brasil viu sair das páginas literárias de Guimarães Rosa os primeiros registros em papel filme de Grande Sertão, Veredas. As lentes de Maureen amam o jogo do claro e escuro e eternizaram a cultura do povo brasileiro travando um rico diálogo com Amado, Rosa, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Adélia Prado, Mário de Andrade, Euclides da Cunha e Carlos Drumond de Andrade.

Entre seus ensaios memoráveis estão o das “Caranguejeiras”, feito com mulheres catadoras de caranguejos na aldeia de Livramento, na Paraiba, a “Batucada dos Bambas”, sobre o samba carioca, Xingu/Terra, Pele Preta, entre outros. Fora do país, também fez importantes trabalhos fotográficos publicados em livros com viagens à África, ao Líbano e ao Japão.

PelePretamenor02419ANJ3709.jpg Menino-anjo 1963 Foto: Maureen Bisilliat/ Acervo Instituto Moreira Salles

Em Pele Preta, sua primeira grande exposição pública, Maureen já mostra o que viria ser a tônica de sua atuação na fotografia. Pele Preta une o trabalho de Maureen com a pintura em Paris, onde já havia feito um exercício estético tendo como olhar o corpo da mulher negra, à sua releitura em fotos da negritude baiana descrita nos romances de Jorge Amado. Sobre essa exposição, em 1966, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, Maureen fez um depoimento descrevendo o seu encantamento em aliar imagens à escrita: “A palavra, escolhida da produção literária ou pinçada do testemunho biográfico, vem da fala íntima da pessoa, destilada. Seria quase como escrever com a imagem e ver com a palavra”.

Caranguejeirasmenor02404CRG1612.jpg Jovens e velhas pescam na lama 1968 Foto: Maureen Bisilliat/ Acervo Instituto Moreira Salles

Caranguejeiras2menor02404CRG1612.jpg Caranguejeiras 1968 Foto: Maureen Bisilliat/ Acervo Instituto Moreira Salles

As mulheres que surgem como divindades de lama em "Caranguejeiras", tiveram como inspiração o poema "Um Cão sem Plumas", de João Cabral de Melo Neto. O ensaio realizado entre os catadores de caranguejo da Paraíba, em 1968, mais uma vez reafirma o traço forte de Maureen em transformar o registro de uma cultura local em objeto de arte.

Rosa2menor02418GUI1823-01.jpg Cruzando rio ao pé da Serra das Araras 1966 Foto: Maureen Bisilliat/ Acervo Instituto Moreira Salles

Muitos dos ensaios de Maureen estão registrados em livros. Este é o caso do seu trabalho com Grande Sertão, Veredas, que ficou consagrada na publicação “A João Guimarães Rosa”. Por sugestão do próprio autor, Maurenn viaja pelo sertão mineiro para descobrir em imagens o que leu na literatura. O resultado é um ensaio com narrativa que acompanha os passos da obra literária. O livro traz fotos com trechos da obra de Rosa. As imagens, ora revisitam de maneira quase ilustrativa a narrativa do autor, ora revelam novos personagens captados por Maureen e que ganham vida nas palavras do poeta. A simbiose entre texto e fotografia é de um refinamento que transporta o leitor ao sertão. Marueen transcende o que seria um registro de fotojornalismo de maneira poética, o que mais uma vez nos faz pensar. O que é real, o que é ficção em sua arte?

Na década de 70, foi convidada por Orlando Villas-Bôas para fazer um rápido registro fotográfico em preto e branco dos índios do Xingu. O que seria um trabalho de cinco semanas, resultou em um acervo construído em cinco anos. Dos primeiros filmes em preto e branco, logo ficou claro a necessidade do registro em cor. A cor no Xingu é forte e foi com esta entrega ao cenário encontrado que Maureen conseguiu interagir. Um olhar antropológico de quem se mistura ao local para reinventar a estética. A série indígena vem acompanhada de uma projeção do filme em 16mm recentemente restaurado e transformado em vídeo Xingu/Terra, documentário de 1978 feito em colaboração com o diretor de fotografia Lúcio Kodato, que registra a preparação de uma celebração na aldeia mehinaku, no Alto Xingu.

Xingu2menor02401IND1406.jpg Índios - Cenas do dia-a-dia 1975 Parque Indígena do Xingu Foto: Maureen Bisilliat/ Acervo Instituto Moreira Salles

XinguMenor02401IND0305.jpg Índios - Cenas do dia-a-dia 1975 Parque Indígena do Xingu Foto: Maureen Bisilliat/ Acervo Instituto Moreira Salles

Pela sensibilidade, pela perseverança e paciência, Maureen deixa para a humanidade, sobretudo para os brasileiros, um registro de civilizações que não podem mais serem retratadas como foram aquela época. Como diz Maureen, hoje temos um Brasil mais incorporado.

A partir da década de 90, Maureen vem se dedicando à linguagem do vídeo. O que demonstra mais uma vez sua versatilidade e o desejo pertinente ao artista de se reinventar.

Maureen Bisilliat dispensa elogios, sua pessoa e sua obra brilham por si. O domínio da técnica fotográfica por Maureen Bisiliat é resultado de um caldo fermentado em várias culturas e que, graças à suas lentes, serão lembradas por décadas e décadas.


Malu Machado

E quando a nossa alma é caleidoscópica, a cada passo nos damos o direito a nos surpreender e reinventar a vida. Porque o óbvio me entendia e o novo me desafia..
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