malu machado

Escrever e fotografar são atos criativos por onde reinvento o mundo

Malu Machado

E quando a nossa alma é caleidoscópica, a cada passo nos damos o direito a nos surpreender e reinventar a vida. Porque o óbvio me entendia e o novo me desafia.

Eu tinha essa foto... mas perdi

E no final Augusto e Bruno vão ter mais fotos porque a Alice não revela nada e quando revela a qualidade da revelação mega barata comprada nas promoções de vendas em lote é feita para não durar e em 15 anos a mídia que ela usa para acessar as fotos dela irá desaparecer da face da Terra.


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Essa tira do cartunista André Dahmer caiu como uma luva em um questionamento que venho fazendo desde que resolvi abraçar a fotografia como profissão. Vivemos em uma sociedade onde o resgistro do que fazemos em imagem é tão essencial quanto efêmera. Todos os dias, geramos milhares de arquivos digitalizados que postamos em redes sociais ou apenas deixamos esquecidas em celulares e computadores. E qual seria a função social desta fotografia tirada a qualquer instante e por qualquer motivo? A fotografia tirada e divulgada, mesmo que sem foco, mesmo que de uma cena banal, é uma necessidade de eternizar um momento ou um desejo compulsivo de um modismo de uma sociedade que cria motivos para registrar sua existência a cada frame de vida?

Independente de qual foi a motivação para sua foto, o fato é que o mundo atual se expressa mais pelas imagens. Seja para defender bandeiras, denunciar abusos, compartilhar o pôr-do-sol da janela de um carro ou apenas contar ao mundo sobre a última balada com os amigos. Agora, cabe aqui uma reflexão que, se você ainda não fez, vale pensar.

pôrdosol.jpg Foto: Malu Machado/Linha Vermelha/Rio de Janeiro

Dos tempos da primeira fotografia, quando era raro o registro e a magia da caixa preta era para poucos, temos hoje o recurso fotográfico ao alcance de todas as mãos. Democratizada e super valorizada, todos somos capazes de registrar nossos momentos. Mas será que eles estarão mesmo eternizados?

Vivemos tempos em que a tecnologia se modifica em frações de segundos. A cada minuto, as indústrias geram um novo software, deixando a nós, consumidores, apenas duas escolhas: entrar em uma corrida sem fim pela versão mais atualizada do mercado ou negar toda esta tecnologia, assumindo uma aversão desmedida à toda e qualquer tecnologia. Qualquer extremo, a meu ver, deve ser visto com desconfiança.

E se o computador de última geração e o seu software ou site preferido para organizar suas fotos sair de linha, como você irá, no futuro, acessar as imagens que tem guardado?

Viky Muniz_Mapa Mundi.jpg Obra de Vik Muniz - Mapa Mundi

A velocidade em que a tecnologia avança, nos faz perder não só fotos, mas qualquer arquivo digitalizado. Especialistas dizem que, em cerca de 15 anos, perderemos todos os arquivos que temos hoje por falta de equipamento para acessá-lo. Não faz muito tempo, fazíamos nosso backup em disquetes. Quem aí ainda tem um em casa que funcione para o fim que foi projetado? Os modelos de HD externo estão cada vez menores, os cartões de memória também. Os novos computadores já não trazem o leitor de DVD em sua configuração básica. E o arquivo que você enviou para a tal nuvem? Também irá se perder.

Em termos de fotos, é hora de tirar a poeira daquele álbum de família com folhas amareladas e pensar se ele está relamente fora de moda. Reveja o seus arquivos, selecione suas melhores imagens e mande imprimir. Faça um álbum caprichado com as principais fotos de suas viagens e dos primeiros anos de seu filho. Não é só álbum do casamento que merece ser eternizado.

Rafael  2 anosmenor Obvious.jpgFoto Arquivo Pessoal - 2006

Foto Paulo menor Obvious 1957.jpgFoto Arquivo Pessoal - 1957

Aqui também vale ter um cuidado especial. Estamos na era da chamada obsolência programada. Tudo o que você compra, tem data marcada para parar de funcionar. Sua máquina fotográfica vem com o número de clicks agendado para sua vida útil. Você não sabe qual é? Faça uma pesquisa e descubra com seu fabricante. Com a sua foto revelada, infelizmente, também é assim. Desconfie das promoções que prometem revelar mil fotos por um preço bem abaixo do mercado. Fotos reveladas a baixo custo usam processo de impressão também barato e pouco duradouro. Em poucos anos você vai ver a foto sumir de seu porta-retrato.

Enfim, mais uma reflexão para pensar quem no futuro terá realmente um acervo considerável de fotos para relembrar toda sua vida: Realmente precisamos de 300 fotos de aniversário de nossos filhos a cada ano? Comecei a fotografar no tempo da máquina analógica e pensava dez vezes antes de tirar uma foto porque tinha em mãos um filme em média de 24 poses. Podemos nos dar ao luxo de fazer um pouco mais do que isso hoje em dia, é claro. Mas é hora de pensar o que realmente é importante em termos de imagem para manter a nossa memória para as gerações futuras.


Malu Machado

E quando a nossa alma é caleidoscópica, a cada passo nos damos o direito a nos surpreender e reinventar a vida. Porque o óbvio me entendia e o novo me desafia..
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