malu machado

Escrever e fotografar são atos criativos por onde reinvento o mundo

Malu Machado

E quando a nossa alma é caleidoscópica, a cada passo nos damos o direito a nos surpreender e reinventar a vida. Porque o óbvio me entendia e o novo me desafia.

Os morangos que não mofaram

Para todas as amizades sem tempo de se encontrarem, desejo, profunda e siceramente, que consigam florescer em algum lugar, nem que seja em nosso imaginário.


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Outro dia eu e um amigo combinamos de comer manga ubá no quintal de minha casa.

Será numa tarde com gosto de aula cabulada. Bem no meio da semana. Ele vai chegar e tocar o sino que serve de campainha. Melhor seria se pudesse chegar e ir entrando, anunciando-se ao som de palmas.

Antes que alguém me pergunte, as mangas, infelizmente, não nascem no meu quintal. Este é o trato. Eu entro com o lugar, ele com as mangas. O tempo passou e ainda aguardo o dia desse encontro marcado. As agendas nem sempre permitem honrar compromissos importantes como estes. E a vida vai passando de janeiro a janeiro e cotidianamente adiamos a felicidade.

Na casa da minha avó a porta sempre estava entre aberta do nascer do dia ao anoitecer. Até o dia em que roubaram um filtro de barro da casa vizinha e as chaves e trancas passaram a ter serventia em sua cidade.

Mesmo depois disso, o entra e sai de amigos era gostoso de se ver. Um dia, sem avisar, um primo chegou de carro trazendo um tucano que ganhara de um amigo. Tempos em que as leis do país não eram tão precisas quanto a guarda de animais silvestres.

Um dia era um tucano, no outro era um violeiro, era tanta gente que se chegava, trazendo frutas, feijão, galinha, ovos, e amizade. E os verões eram mais alegres e os invernos mais acolhedores.

Outro dia meu amigo me ligou e me disse todo animado: vou promover a Festa do Morango em Alfredo Vasconcelos. E eu, toda alegre com a notícia, logo emendei: então, já que não é tempo de manga, que venham os morangos!

Nesta deliciosa expectativa, fico esperando que o dia de fazer gazeta chegue logo, pois sei que nesta amizade não há o amargor dos morangos de Caio Fernando Abreu, mas apenas a correria das cidades grandes e das almas pequenas.


Malu Machado

E quando a nossa alma é caleidoscópica, a cada passo nos damos o direito a nos surpreender e reinventar a vida. Porque o óbvio me entendia e o novo me desafia..
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