mãos de vênus

Cadernos secretos rabiscados e páginas selvagens batidas à máquina

Julian Nix

A literatura em cinzas

A literatura brasileira atual vai muito bem, obrigado. É o que nos prova o escritor amazonense Milton Hatoum, autor de quatro ótimos romances, entre eles Cinzas do Norte, digno de figurar entre o que de melhor se produziu no gênero.


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Se há alguém que mereça atualmente o epíteto de escritor em todas as suas vertentes, esse alguém é Milton Hatoum. Amazonense de Manaus, nascido em 1952, no seu terceiro livro, Cinzas do norte, lançado em 2005 pela companhia das letras, nos presenteia com uma narrativa magistral, convidando com suas descrições minuciosas e precisas a deslizarmos por uma história densa e envolvente como há muito não víamos no cenário nacional.

Temos por base nesse livro, agraciado com os prêmios Jabuti e Portugal Telecom, a amizade extrema de dois garotos, um de berço aristocrático e outro pobre e órfão, do nascimento à morte, passando pelo duelo de um pai severo e incompreensível defendendo valores de uma geração passada, e de um filho com gênio de artista buscando sua autoafirmação em valores próprios. Numa trama que vai nos conduzindo lentamente como um rio, onde somos legados a permanecer num barco que segue seu próprio caminho, sendo levados pela correnteza das palavras magistralmente construídas de Hatoum. Nessa trama somos como turistas contemplando as magníficas paisagens e as aterradoras mazelas da Manaus dos anos 1950 e 60.

Apesar de ser condutor de assuntos pesados e controversos, tais como a ditadura militar, a pobreza extrema, a discussão sobre os valores da família tradicional e o medo de sua deterioração e a prostituição infantil, Hatoum em seu livro em momento algum protagoniza uma polêmica maior do que o retrato realista da própria vida. A polêmica maior aqui é o destino e todas as consequências acarretadas por atitudes que parecem efêmeras mas que reverberam por toda a existência, ecoando em tantas outras existências mais. O enredo que flui deslizando, costurando toda essa floresta de palavras deixa no seu desfecho detetivesco uma saudade que poucos livros do cenário atual são capazes de proporcionar. São raros e especiais os livros que ao acabarmos sentimos saudade de um personagem e aqui sentimos de Ranulfo que, mesmo não sendo o protagonista, é o laço que liga todos os personagens da história.

Hatoum, como poucos atualmente, merece figurar no Panteão dos nossos grandes escritores, muito mais do que certos apedeutas que figuram seus trajes e suas pompas em certas academias. Confirmando suas próprias palavras ao citar a influência do pai do romance moderno Gustave Flaubert, é um dos poucos escritores que ainda se preocupa com a forma clássica do romance, com a elegância da frase e o interesse por temas humanos. Mas como toda arte que parece maior devido a aproximação somente o tempo nos proporcionará o distanciamento necessário para uma análise mais precisa. O que o tempo certamente nos mostrará é que nesse novo século a literatura brasileira sobreviveu, e sobretudo ainda de forma magistral.


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