mapas do acaso

Infinitas maneiras de como o possível pode vir a ser.

Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida.

A arte do encontro em `Antes do Amanhecer`

Eu, desde cedo, sou intrigado pela força do acaso e pela sua capacidade de definir o rumo de caminhos imprevisivelmente. Penso, sobretudo, em como encontros aleatórios carregam, em sua essência, o ímpeto de transpor casualidades e desvirtuar lógicas. Em “Antes do Amanhecer” (1995), filme do diretor Richard Linklater, o potencial dos grandes encontros é explorado em toda sua completude. Uma linda história de amor que, como as lindas histórias de amor, nasce da complexidade de coincidências que fogem do óbvio.


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Celine (Julie Delpy) e Jesse (Ethan Hawke) se encontram, por acaso, em um trem que segue em direção à Viena. Dois jovens que, em termos gerais, não têm qualquer motivo aparente para se relacionarem. São passageiros como dezenas de outros e poderiam, muito bem, seguir viagem sem trocar qualquer palavra. Puxar conversa com estranhos, à primeira vista, não parece algo muito usual ou rotineiro. A discussão de outro casal, no entanto, chama atenção dos protagonistas do longa de Linklater. No meio da pequena confusão, Jesse enxerga Celine, é atraído por ela e se aproxima. Já no primeiro contato, eles criam uma relação aberta de confiança mútua em que memórias antigas são reveladas. A empatia é tanta que o rapaz consegue convencer a moça a desembarcar com ele em Viena. No entanto, eles têm apenas um dia na cidade austríaca, pois, na manhã seguinte, ela precisa seguir para França e ele retornar aos Estados Unidos.

Amparados pelo anonimato total, em uma cidade estrangeira, sob a certeza de que nunca mais se veriam, Jesse e Celine se veem diante de um paradoxo: precisam dar vazão à fascinação que sentem um pelo outro, no entanto, têm poucas horas para viverem com intensidade tudo que gostariam de experimentar juntos. Como encaixar uma entrega sincera em um espaço tão curto de tempo? O que realmente importa ser dito, ser feito? O que fica de fora? É interessante observar, na construção dos personagens, como questões universais, como morte, religião, amor e solidão são assuntos trabalhados em tom confessional, com uma honestidade que, teoricamente, não condiz com um primeiro encontro casual. Porém, abrigados pelo descompromisso advindo da brevidade do encontro, alheios ao receio de possíveis pré-julgamentos ou intuições equivocadas, na contramão do esperado, os diálogos nascem livres e desvelam personagens profundos e intrigantes.

Poucos são os beijos entre Jesse e Celine. Sexo também é algo extremamente secundário e não aparece filme. O encontro, me desculpem o clichê piegas, é de almas, vai muito além do apelo físico. A troca de carinhos é singela e delicada: a cena em que Jesse “faz” uma foto mental de Celine, com cara de bobo, é uma boa demonstração disso. Os personagens desenvolvem uma contemplação recíproca e se comportam como se já se conhecessem há décadas. Emoldurados pela bela fotografia dos cantos de Viena, com conversas que vão de filosofia existencialista a brincadeiras bobas, Linklater abre brechas para o espectador simpatizar com a personalidade forte de Celine e com o romantismo meio fora de moda de Jesse. E assim, de modo delicado, vamos conhecendo os sonhos e anseios dos protagonistas e, aos poucos, tentando prever, através de seus gestos, o final da história. As sequências, “Antes do Pôr-do-sol” (2004) e “Antes da Meia-noite” (2013), as duas também de Linklater, merecem, cada uma, um artigo à parte.

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Creio que a mensagem maior que prevalece de “Antes do Amanhecer” é o impulso claro dos seus protagonistas: transcender a superficialidade de primeiros contatos minados por receios. Sem ter, necessariamente, um amparo que justifique isso, o casal apostou um no outro e escolheu se abrir de modo íntimo em uma doação quase total. Evidente que a exceção, por questões óbvias, não poderia ser generalizada a ponto de virar regra, já que Jesses e Celines são minorias no mundo. Porém, admirando a interação rica do casal, podemos extrair questões relevantes. Quantos de nós, mesmo nas relações de amizade, já escolhemos omitir coisas ou evitar certos assuntos para não nos expor demais ou correr o risco de desgastes que julgamos desnecessários? Quanto deixamos de dizer por medo de nos arrepender por falar demais e gerar possíveis incompreensões? Quantos medos e desejos nós guardamos por não confiarmos suficientemente em ninguém para reparti-los? O quanto de nós é visível e o quanto escondemos sob camadas de conveniência e trato social? Quantas pessoas nós conhecemos, de fato, e quantas apenas acreditamos que conhecemos? Como diferenciar, claramente, umas das outras?

Em tempos em que colecionamos amigos e afetos na vida real e, principalmente, nas mídias sociais, vale a reflexão para avaliarmos a qualidade e o potencial destas relações. Às vezes, displicentes, com excesso de prudência, deixamos escapar descobertas sublimes: não nos permitimos uma troca plena com quem poderia nos surpreender muito mais do que imaginávamos. Grandes amores, grandes amigos, permanecem perdidos, semi-conhecidos, em meio à falta de consistência de contatos resumidos a piadas, curtidas, compartilhamentos e comentários simpáticos. Celine e Jesse nos convidam a experimentar o quanto pode ser incrível sair da zona de conforto e se arriscar mais do que, a princípio, deveríamos. Vinícius estava certo: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Os verdadeiros encontros são raros e, na maior parte do tempo, nos relacionamos desencontrados e alheios. Estou com Celine: “Se há algum tipo de magia no mundo, ela deve estar na tentativa de entender e compartilhar algo com alguém. Sei que é praticamente impossível conseguir, mas, e daí? A resposta deve estar na tentativa.”. É isso. Vamos tentar compartilhar mais do que apenas publicações, por favor.


Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida. .
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