mapas do acaso

Infinitas maneiras de como o possível pode vir a ser.

Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida.

A discussão política resumida à torcida de futebol: o porquê de não avançarmos

Nunca na história da sociedade moderna o acesso à informação esteve tão democratizado e, guardadas as especificidades socioeconômicas dos estados, uniformemente distribuído. Conhecimentos, antes relegados a grossos livros escondidos em prateleiras mofadas ou limitados a nichos acadêmicos que segregavam bens intelectuais da vida social prática, podem ser adquiridos através de rápidas pesquisas, com o mínimo de paciência e alguma boa vontade. No entanto, todo este poder está sendo de fato utilizado, em sua plenitude, para a emancipação pessoal e construção de uma coletividade mais igualitária? A web está servindo à busca pela atenuação de distorções, de todas as ordens? Ou o que vemos refletidas na internet, em termos gerais, são apenas expressões de individualidades, irreparavelmente, mais centradas em si e em suas consequentes visões de mundo, inalteráveis e autossuficientes?


Thumbnail image for Thumbnail image for 3122436913_5b54df3d2c_b.jpg Foto por: Funky1opti/Flickr. Licenciado sobre Creative Commons: Attribution 2.0 Generic (CC BY 2.0)

John Downing, em “Mídia Radical” (2002), teorizou que a internet tinha capacidade de vir a se tornar “(...) um meio pelo qual a política pode tornar-se realmente participativa. Tanto em âmbito regional quanto internacional”. A web, nos anos posteriores à virada do milênio, reafirmou seu papel de instrumento político capaz de promover ações sociais significativas, fortes o bastante para desafiar paradigmas e contestar ordens impostas e estruturas de poder vistas como invariavelmente sólidas, praticamente imutáveis. Foi graças à internet que movimentos como a “Primavera Árabe”, em 2010, o “Occupy Wall Street”, em 2011, e mais recentemente no Brasil, as “Jornadas de Junho”, em 2013, ganharam fôlego e se estenderam do meio digital para o analógico das ruas, ganhando, assim, legitimidade como manifestações populares capazes de ratificar, em termos gerais, as demandas pelas quais se propuseram a lutar. Em comum, todas as ações nasceram de esferas progressistas, ancoradas em movimentos sociais, e pregavam, dentre outras exigências, justiça social, descentralização das decisões políticas e contestação ao modelo econômico vigente.

A migração do espaço público para o meio virtual, cada vez mais contaminado pela esfera privada, tem oferecido um material complexo para qualquer um que se disponha a tentar analisar os fenômenos contemporâneos de convergência e organização social mediada pela internet. Passamos tanto tempo conectados, com mentes prolongadas em notebooks, smartphones e tablets, interagindo online, que nosso “eu digital”, progressivamente, se diluiu entre nosso reflexo “real” e tornou-se parte indissociável da completude “orgânica” que forma nosso ego. Os traços, as características, os interesses e as ideias ganham escopo nas mídias sociais e reafirmam, na rede, a natureza identitária que oferece referências para delimitar a imagem subjetiva que nos caracteriza como indivíduos. Desta forma, por exemplo, nossas opiniões políticas e os elementos ideológicos que cultivamos, ainda que involuntária e “inconscientemente”, tornam-se, de forma quase inevitável, visíveis e expostos à apreciação coletiva.

O Brasil vive um momento político particular. Para além da esfera da administração pública e dos limites entre os três poderes, uma efervescência generalizada de embates e choque de ideias permeia, com mais clareza, a sociedade, se incorporando vigorosamente à rotina do brasileiro. Quantitativamente, hoje, se discute política com mais vigor e consistência do que há uma década, por exemplo, fato comprovado pelo volume de conteúdo relacionado a temas de interesse público despejado aos milhares, todos os dias, na rede. Porém, partindo para uma avaliação qualitativa, é triste ver como espaços virtuais que poderiam, com algum nível básico de bom senso, ser ocupados por discussões realmente relevantes estão se tornando, cada vez com mais intensidade, mediadores de debates baixos e contraprodutivos que só servem pra aumentar, ainda mais, o abismo entre pessoas com ideias que se contradizem. Não há um interesse honesto em compreender argumentos opostos, estudar os discursos contrários ou se autoquestionar para investigar a valorização das próprias opiniões. Não há interesse algum em conhecer a fundo o que se está criticando. O único interesse real, aparentemente, é deslegitimar com ofensas ridículas e infantis quem pensa (ou tenta pensar) fora da caixa. São trocas de acusações passionais, na maioria das vezes embasadas em pouca coisa concreta ou informações falsas, que resumem os posicionamentos políticos e ideológicos a defesas acaloradas de pontos de vista que não se preocupam em convencer, mas simplesmente autoafirmar seus difusores. Eles se sustentam com a mesma parcialidade e apego emocional com que se fala sobre futebol, por exemplo.

O esforço de sustentar uma agenda progressista, mesmo (e principalmente) frente a tantos retrocessos no país, vai além da habilidade de argumentação lógica e consistente diante do que está em debate. São necessárias estratégias discursivas e retóricas eficientes para romper com viseiras mantidas, muitas vezes, voluntariamente, que impedem as discussões de atingirem níveis mais elevados e saírem da superficialidade do senso comum. Não dá para impor ideias à força ou se contentar com a empatia apenas de quem as compartilha conosco. Historicamente, mudanças significativas, de fato, não vêm sem uma coesão de discurso e, para isso, é preciso um alinhamento, um esforço conjunto, algo que aponte para mesma direção. Assim, ainda diante da imensa dificuldade que é manter o otimismo, a paciência e a racionalidade em relação a quem apela para ironia, para fundamentação rasa, para argumentação enviesada ou para o deboche, é preciso se dispor a não se igualar a mesma linha de pensamento e manter (ou tentar manter) um diálogo sensato e honesto, na internet ou fora dela.

Com a democratização dos meios de comunicação e a facilidade de acesso a todo tipo de informações, vamos, aos poucos, aprendendo a usar as ferramentas disponíveis como recursos para construção de uma democracia mais justa e participativa, e não apenas como meios de entretenimento barato. No entanto, isso passa, necessariamente, por uma aprendizagem constante de como nos posicionar e ganhar força por aqui. Mais do que levar o jogo político para vida cotidiana, precisamos debater como estamos construindo e nos localizando nesses espaços recém-adquiridos. Em termos históricos, é tudo muito novo e, mesmo reconhecendo que pessoas ignorantes (nos mais diversos aspectos) sempre existirão, quero crer que nem todas sofrem de um mal crônico e incurável. Prefiro manter a esperança e acreditar que o saber, como dizia Paulo Freire, ainda é um forma de emancipação pessoal e instrumento capaz de promover as transformação que precisamos. Não é uma tarefa de curto prazo, mas nós já começamos. Entre segregar, despertar mais ódio, construir barreiras e se indispor de forma gratuita, é sempre mais válido oferecer uma chance, por menor que seja, de reflexão. O conhecimento tem que ser compartilhado. Os olhos não estão completamente cegos, só estão há muito tempo vendados.


Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida. .
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