mapas do acaso

Infinitas maneiras de como o possível pode vir a ser.

Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida.

O bloqueio como trauma pessoal

Estamos cada vez mais interligados e subvertendo a lógica concreta do tempo e do espaço. Relações e relacionamentos tornaram-se, na contemporaneidade, práticos e ganharam nova dimensão em tempos de mensagens instantâneas viajando em fluxo contínuo. Entretanto, a mesma internet que nos aproxima e nos convida a trocas mútuas, pode nos restringir e nos afastar de alguém querido, caso seja a vontade do mesmo, nos jogando no limbo pós-bloqueio. Como recurso usado em caso extremos e atitude radical que não oferece margem para discussão, o block desfaz laços duradouros e inviabiliza retomadas. Um choque de realidade que o virtual apenas impulsiona e revela fragilidades difíceis de transpor.


fkd.jpg Foto por: Derek Mindler. Licenciado sobre Creative Commons: Attribution 2.0 Generic (CC BY 2.0)

O bloqueio súbito das mídias sociais, quando um laço forte é quebrado, consiste em uma das formas mais graves de violência psicológica moderna. O outro palpite, não menos plausível, é que isso não passa de neurose minha. Fato é que, cada vez mais, as relações em rede se tornam tão práticas, comuns e usuais quanto as presenciais. Neste contexto complexo em que todo mundo parece estar um tanto onipresente, a quebra de contato unilateral, depois do fim inesperado de uma longa amizade, por exemplo, causa uma distorção incorrigível.

Seguido do susto (o espanto, quase sempre, está presente, mas não é justificável), o bloqueado fica com a sensação de que o desprezo do bloqueador é tão grande que até a oportunidade de ser gentilmente ignorado, numa esperançosa mensagem do WhatsApp ou face chat, lhe foi negada. Há sempre, claro, a alternativa de realizar a velha ligação convencional, mas esta é uma prática que, ao poucos, entra em desuso. Além do mais, é humilhante, para quem foi dispensado, ouvir "bips" e "bips", com a orelha esquentando e a inconsolável certeza que não chegará voz nenhuma do lado de lá, além da gravação robótica guiando até a caixa postal.

O e-mail é uma hipótese que nem merece ser considerada. Se nos comunicadores instantâneos a espera já pode ser angustiante, apelar para o correio eletrônico e seu inevitável delay representa uma fé cega que não deve, jamais, ser alimentanda pela crença de que uma resposta mágica surgirá na caixa de entrada acidentalmente. SMS tradicional idem, tecnologia praticamente defasada. Pedir a uma terceira pessoa, um conhecido em comum, que envie os apelos e as súplicas ao bloqueador é degradante demais e nem deveria ter menção aqui. Não trata-se de orgulho, é preciso ter a consciência que o bloqueio significa um "cala boca" certeiro, um ponto final, a princípio, irrevogável, uma decisão que não se pode, nem se deve, contestar.

Ir até a casa do bloqueador para tomar satisfações pessoalmente pode ser traço de um quadro de desorganização mental. Seguir até o trabalho, além de denotar falta de juízo, desconfio que pode trazer problemas com a Justiça. Soluções mais criativas, como cartas de papel (sim, elas ainda existem) ou bilhetinhos debaixo de portas, em para-brisas de carros, revelam um desespero digno de pena e, caso o otimismo de ser correspondido ainda prevaleça, o conselho é buscar acompanhamento profissional. O bloqueio não dá margem para meios termos. Ele se impõe e pronto. É intransponível. Imediatamente, é tarde demais.

Passada a surpresa, a negação e o desconsolo, resta ao bloqueado aceitar sua condição. Aos poucos, acostuma-se com a falta de notícias, a falta de atualizações, de fotos, diálogos interessantes, comentários generosos, piadas divertidas, links engraçadinhos, status compartilhados, curtidas educadamente trocadas... O self virtual do bloqueador some e, a princípio, vive-se um tipo distorcido de luto. Não se tem mais o direito de espiar inocentemente a rotina alheia, de acompanhar seu desenrolar. Sem poder ser seu espectador, para o bloqueado, é como se aquela existência não fosse mais possível, apenas porque lhe foi negada. O tempo se encarrega do resto. Lidar com mortos queridos, mesmo os de mentirinha, é mais fácil que pensar em vivos queridos restringindo o acesso às suas vidas. Uma racionalização covarde, porém, mais saudável que bolar planos estúpidos para explodir a internet, só para que nunca mais ninguém se veja obrigado a ser bloqueador ou se dane como bloqueado.

Era mais bonito na época em que estendíamos as mãos e, ligando os indicadores, anunciávamos ao novo desafeto: "Corta aqui". E pronto, tudo estava resolvido. Na semana seguinte, nos encontrávamos e éramos amigos de novo. Depois do bloqueio, entretanto, os amanhãs são sempre vazios.


Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida. .
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