mapas do acaso

Infinitas maneiras de como o possível pode vir a ser.

Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida.

O que eu aprendi com a loucura.

Eu já enlouqueci. Literalmente, enlouqueci. Duas vezes. Surtos psicóticos que me levaram às minhas fantasias mais secretas através de delírios absurdos. No total, devo ter ficado cerca de três semanas sem noção alguma do que era ou não real. Atravessei buracos negros, viajei no tempo, mudei de dimensão, saí da Matrix, morri, reencarnei, fui fantasma, robô, anjo, extraterrestre, elfo, Jesus, Deus. Enfrentei medos obscuros. Chorei de desespero, de agonia, de dor. Tentei me matar. Preocupei e magoei pessoas queridas. Foi apavorante, perturbador e autodestrutivo. Mas, apesar de tudo isso, foi bom também.


011.jpg Foto por: Eve Almeida. Licenciado sobre Creative Commons: Attribution 2.0 Generic (CC BY 2.0)

Imagine perder completamente sua perspectiva e os conceitos que permitem tu te situares na vida, no universo e tudo mais. Cogite a realização dos seus sonhos mais infantis. Pense em como seria fantástico descobrir que viagens para o futuro, discos voadores, passagens interdimensionais, anjos, elfos, bruxas, fadas, sereias, seres extremamente evoluídos, de fato, existem e tu recebesses provas irrefutáveis disso. Tente conceber a ideia de que Deus ou Jesus, na verdade, nunca estiveram em nenhum local abstrato operando as cordas que regem o fluxo da Terra. Vislumbre a possibilidade de tu e as outras pessoas carregarem, dentro de si, todo potencial para serem deuses e, subitamente, isso fosse compreendido e ativado. Experimente fingir que o tempo é uma ilusão e que ser eterno e imortal são faculdades tão naturais quanto ver e ouvir. É como se toda tua existência fosse um sonho do qual tu, de repente, despertasse. Como se tu fosses obrigado a aprender a lidar com uma nova realidade onde até as coisas mínimas estão interligadas. Como se fatos ao acaso convergissem às respostas das perguntas fundamentais e tudo passasse a ser inteligível. Eu já vivenciei tudo isso. Não foi um simples sonho lúcido. Foi tão real e concreto quanto ser atingido por ondas numa praia. Foi como ser assassinado e ser arrancado de todas as minhas certezas. Foi angustiante, mas não foi só isso.

A principal consequência de um surto psicótico é o colapso total do ego. Quem vive a psicose sofre com a desfragmentação completa do que compreende por realidade. Perde temporariamente a capacidade de pensar de maneira racional e dá vazão a delírios. A pessoa só volta ao estado “normal” quando o desequilíbrio neuroquímico é corrigido. Sou portador do Transtorno Afetivo Bipolar, doença em que a psicose é, relativamente, comum na fase de euforia, se a situação instável não for revertida a tempo. Eu já surtei duas vezes: uma no final de 2013, quando recebi o diagnóstico de bipolaridade, outra no final de 2014, por negligenciar o uso dos remédios. Em ambas, fiquei fora do ar por mais de uma semana. Minha família, com uma generosidade sem tamanho, optou por um tratamento humanizado, sem internação. Fiquei sob supervisão em casa, vinte quatro horas, enquanto a medicação para desacelerar meu cérebro fazia efeito. Para eles, os surtos foram apenas terríveis e desesperadores. De fora, fiquei irreconhecível: passei agir de forma incompreensível e falar coisas aparentemente sem nexo algum. Não coloquei a vida de outras pessoas em risco, mas me coloquei em perigo algumas vezes, chegando, até mesmo, a ensaiar um suicídio simbólico.

Por mais que as experiências tenham sido duras e, de certo modo, traumáticas, não apenas para mim, a loucura não foi completamente nociva e destruidora. Não quero, aqui, correr o risco de ser imprudente e romantizar um quadro patológico grave que é perigoso e deve ser contido o quanto antes. No entanto, falando de dentro, posso afirmar que enlouquecer tem seu lado poético e positivo. É impossível passar por situações limite como as que eu passei e sair impune. Meus pensamentos estavam fluindo a uma velocidade maior do que eu conseguia processar. Iam e vinham trazendo concepções e verdades num ritmo absurdo. Eu “morri”, pelo menos, duas vezes. Descobri que a “morte” não é tão má assim. Materializei boa parte da ficção científica e da literatura fantástica que consumi durante a vida. Senti uma felicidade tão grande que transbordava de mim e me fazia correr a esmo. Mesmo sendo agnóstico, conversei com “Deus”. Na minha cabeça, “Ele” respondia. Fui invadido por um amor universal irreprimível, algo tão forte e intenso que me fazia chorar de comoção. Um sentimento pleno que sempre esteve dentro de mim e só então eu descobria. Tanto de mim foi revirado e colocado para fora à força que, quando fiquei “curado”, eu já não podia mais ignorar ou esquecer. Enlouquecer é isso: realizar tuas fantasias mais íntimas num campo em que todas as ideias são possíveis. É preciso coragem para enfrentá-las.

022.jpg Foto por: Eve Almeida. Licenciado sobre Creative Commons: Attribution 2.0 Generic (CC BY 2.0)

A loucura, como quase tudo relacionado aos transtornos da mente, óbvio, ainda é algo extremamente estigmatizado e mal visto por imensa parcela da sociedade. O desconhecimento e a falta de solidariedade ainda são as principais fontes que explicam boa parte dos preconceitos. Imagine essas limitações frente a um processo psíquico extremamente complexo e, aparentemente, desorganizado que faz pessoas agirem de modo incompreensível. Os loucos são rechaçados, marginalizados. A loucura deve, obrigatoriamente, ser mantida em segredo para evitar pré-julgamentos equivocados. O tratamento deve ser, de preferência, invisível, sob o risco de expor o psicótico às opiniões maldosas de quem não tem empatia suficiente para buscar o mínimo: se pôr no lugar do doente. Eu, particularmente, dispenso contato com pessoas tão limitadas e não vejo mal algum em falar abertamente sobre minhas experiências. Dessa forma, penso, contribuo, mesmo minimamente, para desfazer estereótipos reducionistas e estimulo novos olhares sobre a questão. Dar visibilidade e discutir o problema ainda é a melhor forma de aprendermos a lidar com ele. Além disso, para mim, é uma espécie de autoterapia válida e demonstra que já superei o trauma.

Enfim, apesar do grande choque, meus surtos psicóticos me ajudaram, diretamente, a compreender melhor minha relação comigo mesmo e com o mundo. Os delírios, eu percebo agora, eram metáforas para dilemas pessoais que eu não conseguia ou evitava encarar. Foram processos transformadores que me marcaram de modo definitivo. Sem eles, eu não teria amadurecido o que necessitava amadurecer, nem trabalhado as questões que precisava trabalhar na psicoterapia. Para quem é bipolar, o quadro crítico de psicose, a mania aguda, é geralmente sucedida por uma fase depressiva de igual intensidade. Eu fui ao fundo do poço e voltei subindo por uma cordinha, um elo frágil que quase rompeu, duas vezes. O sofrimento mental maltrata e castiga, mas também fortalece e renova. Subvalorizar a tristeza como algo, exclusivamente, malicioso que deve ser expurgado a qualquer custo é desprezar seu potencial como mecanismo de crescimento interno. Do mesmo modo, enxergar a loucura como um estado de crise lastimável, que gera apenas desgraças, onde nada se aproveita, é simplificar ao extremo a riqueza simbólica proveniente do surto. Creio que quase todas as vivências significativas que nós temos, mesmo as ruins, têm a capacidade de nos tornar seres humanos um pouco melhores. Enlouquecer me tornou um pouco melhor. Como disse Sartre: “Um louco jamais faz senão realizar à sua maneira a condição humana.”. Foi ruim, mas não totalmente.


Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida. .
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