mapas do acaso

Infinitas maneiras de como o possível pode vir a ser.

Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida.

A necessidade de respeitar o invisível

Se tivéssemos como prever o futuro e intuir as consequências das nossas escolhas, a vida, ainda assim, teria a mesma graça? Seriam tão emocionantes as experiências recém-descobertas se elas nos fossem totalmente inteligíveis, desde antes de acontecerem? O que perderíamos se nos fosse privada a capacidade de errar?


Thumbnail image for 284995199_c4d0989afd_z.jpg Foto por: Alexandre Duret-Lutz/Flickr. Licenciado sobre Creative Commons: Attribution 2.0 Generic (CC BY 2.0)

Talvez, à primeira vista, a improvável aquisição de um dom da vidência possa nos parecer uma fuga fácil para desviar de erros e percalços graves. Uma maravilha capaz de nos poupar sofrimentos, aparentemente, desnecessários e insípidos. Uma ferramenta útil que nos protegeria de desgastes emocionais, arrependimentos e angustias nos levando tranquilamente até probabilidades que nunca se concretizariam avessas a nossa vontade. No entanto, se nadássemos sempre por águas rasas e rumos seguros, o que aprenderíamos, de fato? De que valeria a existência sem os desgostos e as dores para nos tornarem mais fortes, menos equivocados? A facilidade com que teríamos acesso à felicidade, certamente, nos amoleceria e o mau costume produziria, provavelmente, pessoas apáticas e desinteressantes.

A ignorância diante do futuro é a chave que sempre atuou sobre a humanidade a levando seguir adiante. A constatação de que o presente está condicionado a variáveis nem sempre presumíveis, ordenáveis ou optativas impulsionou a perpetuação da ciência, da filosofia, das artes. Um dos fatores que nos tornam seres racionais é, fundamentalmente, a consciência de que ocupamos um lugar no tempo e no espaço, a noção clara de que existe ontem, hoje e amanhã. Podemos criar abstrações a respeito do fluxo do tempo e superamos a dependência exclusiva dos instintos. Neste contexto, o futuro se mostra como terreno fértil para traçar projeções, rotas, objetivos, mas, mesmo assim, prevalece como lugar intangível. Necessitamos da inferioridade que nos dá a cegueira diante dele para que não nos esqueçamos de viver o agora, para nos ater ao que está ao alcance e, sobretudo, para conservamos os riscos sobre o que fazemos e deixamos de fazer.

Arriscar, aliás, é o mecanismo que nos proporciona tanto frustrações quanto compensações e é parte natural da nossa virtude de não saber o todo. É saudável seguir por vias cujos fins sejam apenas cogitáveis, não plenamente entendidos, pois é este exercício constante, feito por vezes involuntariamente, que nos viabiliza a capacidade de contornar obstáculos, nos impressionar com surpresas, celebrar vitórias e nos reerguer frente a possíveis quedas. Assim, qualquer compreensão profunda a respeito do nosso próprio futuro nos privaria dos segredos necessários para uma experiência humana plena, pois está ligada à nossa faculdade e natureza a responsabilidade de assumir os efeitos dos nossos atos. Se eles fossem apenas positivos, não teríamos que lidar com o peso de implicações ruins ou mal planejadas e, dessa forma, amadurecer seria uma tarefa infinitamente mais difícil.

As falhas e as adversidades são extremamente positivas para que possamos reavaliar comportamentos, refazer percursos e crescer internamente. Se não errássemos, perderíamos a habilidade de refletir criticamente a respeito de nossas ações e não teríamos parâmetros comparativos razoáveis para nos guiar. Por mais que as cicatrizes que carreguemos do passado abram e, às vezes, doam e não suturem o suficiente, serão sempre marcas que nos lembrarão de nossas falhas, de nossas deficiências, do que precisa ser superado. Enfim, prever o futuro e evitar qualquer caminho doloroso, possivelmente, apenas nos tornaria ainda mais egocêntricos e prepotentes. Nenhum mal, em certa medida, é totalmente nocivo e lições, como aprender a ter humildade, nunca seriam adquiridas sem eles. Então, ao invés de pensar em máquinas do tempo para intuir o depois ou refazer o passado, é melhor respeitar os mistérios, todos eles, e fazer o melhor que podemos fazer com o que dispomos às mãos.


Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida. .
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