mapas do acaso

Infinitas maneiras de como o possível pode vir a ser.

Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida.

A vida privada e a vida contada

Até que ponto as histórias que vivemos são apenas nossas? Será que, ao invés de manter o monopólio, possuímos apenas a guarda compartilhada das nossas vivências? As pessoas que participaram e passaram pela nossa vida não têm tanto direito sobre nossas memórias quanto nós? Não é justo creditar a co-autoria de fatos que não foram criados exclusivamente pela gente? Em uma autobiografia, o quanto é honesto encarar o que é dito pelo autor por uma perspectiva unilateral, ainda que não haja outros pontos de vista na história? Eu escrevi um romance autobiográfico e tenho ciência de que ele não é só meu.


typewritter.jpg Foto por: io. Lagana/Flickr. Licenciado sobre Creative Commons: Attribution 2.0 Generic (CC BY 2.0)

Toda existência humana é formada por uma teia complexas de relações, laços, contatos, passagens, afetos. Nenhum homem ou mulher cresce, em sociedade, totalmente alheio às trocas de experiência, aprendizados e vivências. São inúmeros tipos de afinidades e desafetos que cultivamos ao longo dos anos. Uma boa parte das pessoas, a grande maioria, apenas passa por nós e não chega a causar efeitos significativos no nosso caminho. A outra parte, porém, é formada por gente especial que, por períodos longos ou curtos, enfeita nossa vida e permite um compartilhamento rico de saberes, sentimentos, momentos e lembranças. É gente que, mesmo que se afaste por anos, ainda vai ser recordada porque sua marca em nossos traçados não pode ser apagada ou ignorada.

Quando escrevi meu romance, um dos meus objetivos foi dar visibilidade e, do meu modo, homenagear as pessoas marcantes que passaram por mim, desde a infância. O livro não se resume a isso, mas fiz questão de dar papel de destaque a personagens que, de algum jeito, ajudaram a definir quem eu sou hoje, tanta para o bem quanto para o mau. Há muitas lembranças tristes e trágicas, mas há também recordações felizes e cheias de amor e esperança. Há pessoas extremamente boas e interessantes e há pessoas naturalmente sádicas e odiosas. A intenção foi compartilhar relatos vivos para divulgar e passar adiante as lições que aprendi nos momentos de alegria e de tristeza. Eu enxergo beleza e poesia nestes acontecimentos, uma forma de despertar sensações, sentimentos e, assim, provocar também algumas reflexões, talvez.

Apesar das minhas boas intenções, optei por não identificar com nomes reais quase nenhuma das pessoas transpostas para o livro, um artifício bobo, mas que pode minimizar impactos, quem sabe. E aqui cabe um adendo, mesmo sabendo que isso pode soar apenas como demagogia: eu realmente me preocupo com a forma como o livro pode ser recepcionado por algumas destas pessoas. Partilhamos segredos, intimidade, e, sem autorização, eu me propus a romantizar as nossas histórias e, sem conhecer as proporções, publicar para quem quiser ler. Como posso esperar apenas reações positivas e agradáveis se estou me aproveitando da matéria-prima manufaturada por outras mãos?

A discussão é complexa e não é minha vontade esgotá-la neste artigo. Alguns podem argumentar que todo escritor, todo artista, se alimenta do cotidiano e da própria história de vida e que eu não deveria dar tanta importância a quem está envolta dela. Mas, de verdade, eu seria muito egoísta se não reconhecesse o papel fundamental de algumas pessoas na narrativa e não me preocupasse com a repercussão que a trama pode ter para elas. É um senso de responsabilidade que não me impediu de ser indiscreto a ponto de escrever o livro, mas que me faz, agora, avaliar racionalmente seu potencial de despertar fantasmas em leitores/personagens inocentes. Espero que o valor literário da obra seja suficiente para ultrapassar seu grau de invasão. Espero ter sido honesto o suficiente para oferecer um ponto de vista coerente. Espero ter conseguido celebrar as boas coisas e transcender as ruins sem machucar ninguém. Espero, enfim, que meu livro encontre abraços e risos em quem ele se alimentou e cresceu. Espero que cresça mais, e que seja bom.


Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida. .
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