mapas do acaso

Infinitas maneiras de como o possível pode vir a ser.

Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida.

Caio F. e a poesia que não acaba

Há justiça na popularidade de Caio Fernando Abreu. Cultuado por um número significativo de pessoas nas mídias sociais, o artista gaúcho é responsável por uma obra intensa, cativante, que provoca e instiga. Para uma geração de escritores, Caio F. é uma referência direta e motivo de admiração e carinho, mesmo mais de 20 anos depois de sua morte.


caiof.jpg

Quando eu conheci o Caio, senti vontade de ser escrito por ele. Queria virar um conto. Vejam: um desejo narcisista e ególatra que me coloca à frente da própria escrita, que antecede o Caio. Eu explico. A identificação com os personagens de “Morangos Mofados”, num nível mais abstrato que explícito, me fez ter a impressão de que, se eu também fosse escrito pelo Caio, transcenderia minha vidinha chata e ganharia um sentido amplo. Então, Caio F. me apareceu como um mágico capaz de trazer à tona a profundidade soterrada pelo óbvio.

Foi a intensidade que me cativou. Caio escrevia com uma força criativa irreprimível, um aparente impulso criativo que lhe assemelhava aos grandes escritores beat, um enorme difusor da contracultura. As imagens verbais que Caio criava, mais do que falar a respeito, serviam como peças sensoriais que exalavam solidão, sexo, desejo, amor. Para os estudiosos, ele conseguiu representar com propriedade o espírito do nosso tempo, a vida nas grandes cidades, as identidades fragmentadas, a efemeridade e fragilidade das relações contrastando com seus apelos e nosso medo de ficar sozinhos. Para mim, Caio falou como um amigo, um cara meio perdido, ansiando ser encontrado, quase sem querer.

Talvez boa parte da grandeza do que Caio F. escreveu, além de seu poder sensitivo, esteja em sua capacidade de criar atmosferas densas que envolvem qualquer leitor com pré-disposição à fantasia. Dessa forma, é fácil trilhar os caminhos de personagens por vias urbanas desconstruídas, melancólicas, e entrar em apartamentos e casas em que o irreal é possível, palpável, sentido. O interior, nas escritas de Caio, ganha uma dimensão extra-sensorial e transpassa o exterior.

Não condeno a popularização da obra de Caio pelas mídias sociais, ainda que a massificação, na maioria dos casos, a tenha diluído em pílulas e frases de efeito, servindo apenas como agregadores de curtidas fáceis e compartilhamentos aleatórios. Eu acredito que esse movimento, gerado pela popularização dos insights de Caio, tenha permitido que um número razoável de pessoas se interessasse o bastante para ir buscar seus livros. Por essa gente, todas as frases do Caio, empobrecidas fora de contexto, são válidas.

Vez ou outra, eu ando com um exemplar de “Triângulo das Águas” na mochila. Sempre prometo que vou lê-lo de novo, durante as viagens de ônibus, mas toda vez descumpro minha promessa. Faz tempo que eu não leio Caio, o mesmo tanto de tempo que eu venho me prometendo ler seus outros livros, “Onde Andará Dulce Veiga?”, “Limite Branco”, “Os Dragões não conhecem o Paraíso”... Dar atenção devida a sua obra seria só uma forma de fazer justiça e retribuir, de um jeito torto, o quanto Caio F. influenciou a minha escrita. Mesmo que eu seja relapso e injusto, gosto de tê-lo por perto, ainda que em silêncio, para me lembrar, através da sua grandeza, que eu posso ser um pouquinho grande também.


Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Tiago Júlio Martins