mapas do acaso

Infinitas maneiras de como o possível pode vir a ser.

Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida.

Depressão é o inverno da alma

Tenho depressão desde que me entendo por gente. Em grau mais ou menos moderado, durante anos, a doença sempre me acompanhou e me ensinou, às vezes na marra, a lidar com ela e com suas imposições. Aprendi tão bem que, por vezes, esqueço que tenho Transtorno Bipolar e depressão, levando uma vida normal. Este texto visa uma abordagem pessoal a respeito de quadros críticos de depressão e suas respectivas características. Não são peças a serem encaixadas em momentos brandos, mas em situações de crise, quando perdemos o chão e a doença parece intransponível. No mais, uma oportunidade de se reconhecer e se identificar para atenuar um dos piores aspectos da depressão: a sensação de estar sozinho e incompreendido.


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Quem convive com a depressão entende que, por dentro, se passa um conflito constante de pensamentos e sentimentos que se sobrepõe e brigam a todo momento. Na maioria das vezes conflituosas, estas sensações confusas te jogam num redemoinho de negatividade difícil de se desvencilhar. Para tentar entender melhor as coisas sob o meu ponto de vista, passando pelos estágios mais baixos da doença até o vislumbre da cura, escrevi como seriam alguns momentos depressivos que, por vezes, se confundem na gama de sensações a que estamos submetidos. Não é uma análise que pretende ser universal ou servir de modelo para ninguém, é apenas como eu vejo e sinto as coisas quando estou mal. Talvez haja quem se identifique. Dividi o texto em quatro pontos, mas há muitos meandros que ficaram de fora, certamente. Tentei ser o mais honesto e objetivo possível. De todo modo, eu acho que é isto que conta. Aí vai:

A culpa.

Crise existencial é coisa de gente de classe média, cheio dos confortos, com fixação na fase adolescente e nenhuma maturidade pra encarar as coisas. Vê se cresce, cara, porque a vida não é brincadeira de criança pra tu ficar mudando de rumo toda hora, como se enjoasse de brinquedos, não. Tu não pode te dar ao luxo de abrir mão de coisas importantes só por fraquejar e não dar pé. Aprende a ser mais responsável com as tuas escolhas e a avaliar melhor as consequências delas. Aprende a te impor diante da tua doença e a parar de se vitimizar e culpabilizar ela por tudo de ruim que tu mesmo te provoca. Aprende a crescer e deixar para trás dramas infantis e medos de bebê. A vida não é fácil, mas é a única que tu tem. Só tu és responsável pelo que te acontece e pelas tuas escolhas, então, para de procurar causas internas para problemas externos. Vê se te impõe, como adulto consciente, porque eu já estou, sinceramente, cansado de ti.

O medo.

Eu tenho receio de seguir pelo rumo errado de novo. Eu nunca soube qual o caminho certo a seguir, eu só fui em frente até onde deu pra ir, até onde minhas pernas me levaram. Eu tenho pavor de escolher a alternativa incorreta, eu nunca fui bom em provas de múltipla escolha e a vida, nada mais é, que um monte de questões optativas que te levam por caminhos lineares a destinos incertos. Eu tenho medo do fracasso, medo do arrependimento, medo de decepcionar tanta gente, mas tanta gente, que meu medo se torna pânico e quase me trava e, de desespero, perco até a autonomia da mente. É um medo grande e palpável que me suga as forças, me tira a esperança e faz tudo parecer um breu imenso onde meu tato percorre e sente áspera a derrota, a queda, a depressão machucando corpo e mente. O medo do desconhecido, a cegueira do pessimismo, é um poço perigoso que me atrai e do qual eu não posso sair.

A auto-piedade.

Eu não mereço o que estou passando. Tudo que me atinge não é válido e não deveria, para mim, ser tão difícil ser feliz. Eu não sei porque isso está acontecendo comigo, simplesmente não faz sentido. Eu nunca fiz nada para ter sido jogado nesse mar de tristeza. Ninguém nunca vai ser capaz de me entender e eu estou à mercê da doença, totalmente descontrolado. Eu sou um lixo da pior espécie e nem deveria estar vivo para enfrentar tudo do qual eu não posso fugir. Talvez a morte seja uma saída válida, um caminho aceitável para o problema. O suicídio é uma saída egoísta e radical, mas poderia ser um balsamo para tudo isso. Eu já não penso mais nas consequências, em quem vou machucar, quem eu vou ferir, em quem vou culpar, tudo se resume a me aniquilar e pôr um ponto final nesse caos. Me ferir já não adianta mais, a dor física não compensa a dor emocional e sinto que estou enlouquecendo. Talvez já tenha enlouquecido e só responda a comandos básicos por instinto. Quero fugir daqui o quanto antes e não estou ligando para quem possa se importar. Eu não pedi para nascer, nem para carregar este peso. Eu escolho abrir mão de tudo.

A razão.

Todas as fases são passageiras. Nada é permanente ou tão sólido que não possa ser alterado. Os estados de humor são variáveis e os contextos a que eles estão atrelados não duram para sempre. Tudo é uma questão de ter razoabilidade e equilíbrio pra largar mão do que faz mal e se dedicar ao que faz bem. De novo, nada é imutável. Nenhum rumo não pode ser inalterado, nenhuma escolha não pode ser desfeita, nenhum laço não pode ser rompido. A culpa é desnecessária porque é uma questão de humildade e integridade assumir os erros e tentar corrigi-los. Nem tudo depende exclusivamente de nós e, se assim fosse, o mundo não seria tão caótico. Portanto, é importante saber nossos limites, mas nunca desistir de nossos objetivos. O medo é plenamente justificável e até saudável porque nos coloca em um estado reflexivo que nos tira da passividade. É compreensível duvidar da nossa capacidade e das nossas forças em momentos difíceis, mas é importantíssimo ter em mente que eles se desfazem com o tempo, que, cedo ou tarde, cura as feridas. Então, o certo é não sermos escravos nem da culpa, nem do medo, nem de ninguém. Devemos satisfações apenas a nós mesmos e só cabe a nós agir de acordo com nossa felicidade. A felicidade, por vezes, não parece fácil de ser alcançada, mas temos mãos e braços pra chegar até ela. E, quando chegamos, vemos que culpa, medo e todo resto foi apenas um grande aprendizado para que possamos aproveitá-la da melhor forma, plenamente.


Tiago Júlio Martins

Um desbravador de paisagens interiores que já viu de tudo um pouco. Sonha em ser um grande escritor e em transformar caminhos através de palavras. Tem fé no acaso e acredita somente na dúvida. .
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